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Título: Esperança, teu nome é...
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 07/01/2000
 

"E se entre meus leitores há alguma pessoa que na passagem do ano teve apenas um amargo encontro consigo mesmo, e viveu esse instante de solidão, na tristeza, na desesperança, no sofrimento, ou apenas no odioso tédio, que a esse alguém me seja permitido dizer: Vinde. Vamos tocar janeiro, vamos por fevereiro, março e abril e maio, e tudo que vier; durante o ano a gente esquece (...) Coragem, a Terra está rolando; vosso mal terá cura. E se não tiver, refleti que no fim todos passam e tudo passa; no fim é um grande sossego e um imenso perdão" (Rubem Braga)

01. Imaginou um réveillon diferente de tantos quantos já havia atravessado. Teve um ano difícil, mas produtivo. Trabalhou muito, ganhou apenas o suficiente. Correu pra lá e pra cá, e não se encontrou. Teve momentos raros de felicidade -- nenhum deles pleno; e algumas perdas definitivas. Nos altos e baixos da vida, esforçou-se em ter a coragem grande para dizer sim embora o não tenha sido a resposta mais ouvida...

02. 1999 passou muito rápido, quando se deu conta já era dezembro e, ao final de tanto ir e vir, o emocional estava uma barra. Sentia-se sinceramente confuso. Nem percebeu o Natal e as luzinhas made in China em todos os prédios da cidade. De repente, percebeu-se um homem só e sem qualquer outra certeza que não fosse a de que gostaria de estar longe de todo esse ôba-ôba de fim do século.

03. Não queria radicalizar. Por isso, aceitou um Natal familiar com direito a champanhe, panetone e os tererês de sempre. Haja! Mas, para o réveillon, nem pensar. Queria estar longe de todos os folguedos. Lembrou de um conhecido aventureiro, sempre pronto a embrenhar-se pela Serra da Cantareira, no comando de alguma troupé de gringos incautos, ávidos por emoções no meio da selva pela Trilha do Ouro -- ao menos, era isso o que dizia o folheto de sua firma de trekking.

04. Topou na hora o programa de índio. Não se importou sequer em saber o lado histórico da caminhada. Era a trilha de pedra feita pelos escravos no século XVIII e cortava três Estados (Minas, São Paulo e Rio). Por esse caminho, os brasileiros tentavam fugir da barreira do fisco português na época do ouro. Todo o precioso carregamento era feito em mulas, o que dificultava o trajeto que incluía a travessia de rios, montanhas, cachoeiras e despenhadeiros. Ufa! seria uma aventura e tanto.

05. Nunca foi disso. Preferia estar em qualquer outro lugar do mundo, com a pessoa certa e zerado o saldo negativo no banco. Mas, dadas as circunstâncias, -- e a possibilidade de pagar os 200 paus em três cheques -- achou que era o melhor que podia arrumar. Não pensou duas vezes. Topou no ato.

06. Chegou um dia antes, e se esparramou pelo hotel à beira de uma grande represa. Agora era descansar e aguardar o momento de fugir do mundo. O sol estava a pino. Mas, o caboclo, funcionário do hotel, olhou o alto das montanhas e avisou: o tempo vai virar. Vem chuva pra mais de uma semana -- e das grossas.

07. Dito e feito. A manhã da sexta-feira chegou nublada enquanto o rádio dos postos avançados da caravana alertava que já era forte o aguaceiro a mil e tantos metros de altura. E vai piorar... -- reforçou o matuto. Foi o suficiente para o coordenador do passeio cancelar toda e qualquer aventura. O Boquinha não erra uma. Falou, tá falado... Vamos organizar o reveillon aqui mesmo. Vai ter uma festança na cidade próxima.

08. Foi como se lhe tirassem o chão. Sentiu-se oco, vazio, de idéias e perspectivas. Ainda vagou pelas cercanias do hotel até que começou a chover... Como um bicho do mato, refugiou-se num quiosque a beira da piscina. Ali ficou... Viu a chuva apertar, as luzes se acenderem, os rojões iluminarem por instantes um céu sem estrelas. As vans levaram os turistas barulhentos para as festas da pequena cidade. E o silêncio se fez único. Minutos depois ouviu o som de sinos longínquos anunciar a Nova Era...

09. O mundo estava em festa, e ele só como nunca esteve. Mas, sentia-se em paz. Triste, mas em paz. Ponderou que fora um ano de enfrentamentos e que, em nenhum momento, abriu mão de lutar pelo seu sonho. Esperou algum tempo e caminhou lentamente de volta para o hotel. Deixou que a chuva forte molhasse seu corpo, encharcasse as roupas, lavasse a alma e afogasse a mágoa das coisas que se perderam... Entendeu que assim estaria em comunhão com Deus e a natureza. E tenha Ele a manifestação que tiver, certamente abençoará os próximos passos de toda a humanidade. Esperança, teu nome é...

 
 
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