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Título: Escova e a polícia
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 22/12/2010
 

Não fez por mal.

A bem da verdade, não fez por mal, nem por bem.

Apenas aconteceu, como aliás as coisas sempre acontecem na vida do amigo Escova, com quem trabalhei na velha redação de piso assoalhado.

Ao passar o documento do carro para o policial que o fez parar numa blitz, foi também a singela nota de cinquentinha.

Uma grana que, diga-se, nem era do nosso amigo, também conhecido como o Dom Juan, das quebradas do Ipiranga, Sacomã e adjacências.

II.

Foi a irmã que lhe deu para comprar um remédio em uma farmácia naquela região de São Paulo que a mana jurava vendia “bem mais em conta” as tais pílulas de rejuvenescimento.

Tentou explicar que o que ela ouvira era ‘cascatol puro’.

A irmã era vidrada em ouvir rádio AM.

Certamente caíra no conto de algum ‘comunicador’ ávido por garantir o patrocínio de algum laboratório miraculoso.

Argumentou o que pode.

Ela, porém, insistiu para que fizesse o favor a ela que nunca lhe pedira nada e cuidou dele quando era criança e agora, homem feito, nem lhe dava atenção, nem se importava se ela estava bem ou mal de saúde e...

III.

Diante de tantos e tamanhos argumentos, deu-se por vencido. Pegou a nota, dobrou e tascou na carteira que tinha em mãos – e nem se deu conta de onde a colocara Na carteira que o amigo despachante Patara lhe dera como brinde quando pagou a última parcela do IPVA e fez o licenciamento.

Agora estava ali. Enroscado até o pescoço.

Preferiu nem discutir quando o policial ‘caxias’ pediu que o acompanhasse ao Distrito “para explicações”.

O homem não gostou do que entendeu ser uma tentativa de suborno.

A prova , aliás, era inconteste.

IV.

Escova jurou que tudo não passava de um mal entendido.

Estava voltando do trabalho, cansado, depois de uma jornada que invadira a noite para dar cabo das pendências que se acumularam sobre a sua mesa.

Fim de ano é sempre assim. Há uma debandada geral nas redações – todos querem férias e os poucos que ficam trabalham por três.

No afã da batalha da próxima edição nas ruas, esquecera o pedido da irmã, a farmácia, a grana na carteira. Esquecera até o crachá da empresa no pescoço.

-- Sou um trabalhador.

A frase se perdeu, solta no ar.

V.

Tudo o que Escova queria era ir para casa. Ansiava por uma noite de sono daquelas em que nem se tem ao trabalho de sonhar.

Mas, não.

Agora estava ali à espera da autoridade-mor do Distrito que talvez o entendesse e logo o dispensasse. Talvez...

VI.

Foi quando ela chegou – e fez-se a luz.

VII.

Acreditem se quiserem...

A Doutora Delegada não tinha mais do que 30 anos, nem isso.

Era linda.

Mais do que linda.

Era tudo o que ele sempre sonhou em seus mais enlevados devaneios.

Com o que Escova era assim.

Todo dia era dia de encontrar a mulher da sua vida – tantas quantas por ele passassem e ele se engraçasse.

Por que não em um Distrito Policial?

VIII.

-- O que temos hoje para começar o plantão? – disse a delega, com certo fastio.

O jornalista ficou ainda mais embevecido.

Nunca imaginou que a voz de uma autoridade tornar-se-ia música para seus ouvidos.

Temeu pelo pior, no entanto.

Que o seu caso fosse o primeiro a ser chamado.

E foi.

IX.

Ao se ajeitar na cadeira em frente a ela, teve – o que chamou depois para nós, na redação de – a antevisão do paraíso. A Doutora virara para guardar a arma que tirou da bolsa em um armário, a blusa subiu um tantinho eduas pequenas estrelas surgiram, lúdicas e inspiradoras, tatuadas logo acima do cós da calça.

Fechou os olhos para melhor memorizar a cena.

Sorriu ao lembrar que os xerifões do Velho Oeste usavam uma estrela espetada no colete à altura do peito para identificá-los como agentes da Lei.

Humilde e resignado, sentindo-se um privilegiado, agradeceu a mudança dos tempos e dos hábitos.

“Bendita nota de cinquenta”, murmurou baixinho.

X.

-- O que o senhor disse?

Odiou que ela o tenha chamado de “senhor”. Mas, desconsiderou. Resolveu enfrentar a bela que parecia ser também uma fera.

-- Eu sou inocente. Foi apenas um descuido, eu esqueci que...

O policial, causador da encrenca, nem deixou que ele concluísse e passou a narrar a sua versão do ocorrido.

Enquanto ouvia o depoimento do figura, Escova pensou que seria o próximo a ser chamado para dar o outro lado da história. Poderia contar a ela como foi cansativo o dia, o quanto trabalhara pesado. Não, não. Seria legal deixar claro que era apenas um homem só. Que gostava de cinema, teatro, viajar de quando em quando. Adorava música. Um romântico inveterado. Inclusive estava ouvindo um CD do Júlio Iglesias quando o amigo policial fez com que parasse o carro – um carro novo, diga-se – para verificar os documentos e...

XI.

-- O senhor pode ir. Tiramos sua ficha, verificamos os documentos. Vou acreditar que foi mesmo apenas um descuido.

(Ela tinha um tom firme e despachado, mas doce, doce...)

-- É que eu...

(Vã e inútil tentativa do homem com o coração dilacerado pela súbita paixão.)

-- Como disse, o senhor está dispensado. Mas que tal fato não se repita novamente.

Falou a instigante voz da Lei, era melhor obedecer.

Mas, jurou para si mesmo:

“Um dia eu volto!”

Só lhe aborrecia o fato de ela insistir em chamá-lo de senhor:

-- O “Senhor” está no céu, dona...

 
 
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