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Título: O homem e a menina
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 08/07/1999
 

"Trabalhar pelo que se ama, amar aquilo em que se trabalha." (Tolstói)

01. O homem caminhava pela praia -- aliás, como houvera feito em todas aquelas tardes de teórico descanso. Tivera um ano dificil, repleto de altos e baixos, erros e acertos, mais tristezas do que alegrias. Muitas vezes, em meio ao estresse do dia-a-dia, percebera-se absolutamente indiferente à vitória do bem sobre o mal, à supremacia dos insensatos, às verdades mentirosas que a mídia e as pessoas nos impõem como se, insidiosas e ladinas, nada quisessem ou esperassem de nós. Enfim, o homem caminhava pela praia a ruminar suas perdas, a contabilizar os sonhos que deixara para trás. Vez ou outra, olhava para o mar. Em silêncio. Era apenas um homem só a mirar a linha que une os dois tons de azul no horizonte tão imaginária como ele próprio se achava ali, naquela hora, naquele lugar a espera de todas as respostas, a espera de, quem sabe, um milagre chamado esperança...

02. O homem caminhava pela praia e sentiu-se desconfortável com a presença de um grupo de pessoas mais a frente, próximo ao ancoradouro dos barcos. Era um entusiasmado grupo de turistas para um rápido tour pelas ilhas perdidas dos arredores de Angra e Parati. Sem pensar, deixou-se ficar por ali para ver a partida. Justificou-se perante ele mesmo reconhecendo que é sempre tocante ver uma embarcação se afastar do cais. Há invariavelmente alguém dando adeus para alguém. É um gesto de separação que pressupõe a doce promessa de reencontro, da volta...

03. Barco ao mar, lamentou a falta dos tradicionais apitos. Dariam mais dramaticidade a cena. Mas, ponderou, já estava querendo demais. Caminhar pela praia era sua rotina e propósito, agora, já reivindicava uma cena de cinema para o seu pacato cotidiano. Era melhor retornar, preferencialmente, pela mesma faixa de areia, a remoer os mesmos pensamentos e lembranças que o trouxeram até ali, beira do mar, lugar comum. Ele também era um homem comum -- e sem planos. Vazio.

04. Nem bem havia dado o primeiro passo, ouviu um chororô tímido, abafado; mas doído que ele só... Olhou ao redor e espantou-se ao ver que o lugar estava quase deserto. Lá estavam ele mais meia dúzia de pessoas que, pelo grená-e-amarelo dos trajes, logo reconheceu tratar-se de funcionários de um hotel próximo dali. Vieram acompanhar a turba de forasteiros, e agora se preparavam para retornar. Mas, de quem era o tal do lamento sentido? Atentou o olhar e viu recostadas a um beiral duas garotinhas, de três ou quatro anos quando muito. Aproximou-se e notou que a mais crescidinha consolava a menor que debruçada numa banqueta de praia escondia o rosto com os braços para disfarçar o choro. Ao lado delas, a monitora de férias tratou logo de explicar quando o viu por perto. "Essa pestinha não quis ir com os pais no passeio de barco para ver o teatrinho no hotel, agora está morrendo de saudade da mãe. Pode?

05. Ao ouvir a sua história narrada a um estranho, a garotinha tirou meio rosto para fora. E com os pequenos olhos avermelhados e os lábios franzidos, respondeu ao homem que podia sim. Não disse sequer uma palavra e voltou ao chororô abafado, mas foi o suficiente para que ele lhe desse razão. Também em silêncio condenou a irresponsabilidade dos pais. Mas, percebeu que algo de muito bom havia lhe arrebatado a alma e o coração. Lembrou em alguém distante, um alguém muito especial, que, de uma forma mais singela, o rosto da garotinha lhe trouxe a mente de imediato. Concluiu que, sim, o sonho era possível. Por que não? O grande milagre era estar vivo -- e, melhor, poder lutar pelo que se quer. Quem sabe, num futuro não muito distante, ele não poderia estar por ali, na mesma praia, a olhar o infinito, mas a contemplar também alguém a quem sempre soube amar e, talvez, também por ali houvesse outro projetinho de gente, com a mesma expressão de futuro e a quem docemente chamaria de Esperança...

06. Não se espante. Lembrei-me dessa história, que bem poderia ser a de qualquer um de nós, assim que comecei a programar a nova fase de Gazeta do Ipiranga que hoje vai para as ruas. Ela também nasce de impulso da vida (a modernização do formato dos jornais brasileiros), envolve a quem se ama e também revela um projeto de vida chamado Esperança. Bem-vindo a bordo da nova GI, caro leitor...

 
 
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