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Título: O que se convencionou chamar saudade
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 28/09/2001
 

"Devemos ter velhas lembranças e novas esperanças" (Hossayeu)

01. Pertence ao leitor Antônio Bernardino a foto que ilustra nossa seção de hoje. O flagrante -- como escreviam os jornais de antigamente -- mostra a cena comum nos finais de semana na lagoa do Sacoman, onde se situava a sede social e, pasmem, nautica do Clube Atlético Ypiranga no transcorrer dos anos 40. Ao fundo se vê o imponente Castelo dos Samaronne cercado por palmeiras e ampla vegetação. Hoje, por essas bandas, temos o Complexo Viário Escola de Engenharia Mackenzie e o início da avenida Tancredo Neves. Coisas do que se convencionou chamar de desenvolvimento...

02. Bernardino não sabe dizer quem são os personagens da foto. Mas, os que têm aí por volta de 50 ou um pouco mais podem reconhecer alguns tipos comuns à vida de todos nós naqueles idos tempos: o pai orgulhoso com o filho no colo, o primo com porte atlético e pose de galã, o tio brincalhão que, com três ou quatro nós, transformava qualquer lenço em bizarro gorro contra o sol e outros tantos boas vidas que sempre apareciam nessas horas de puro prazer e amizade. Ah!, claro, que mesmo fora do barco, apesar da roupa de marinheiro, o primo menor teria que aparecer no instântaneo que depois a nona veria orgulhosa...

03. Mais do que qualquer toque de nostalgia, há um considerável desconforto em contrapor essa cena/lembrança com a dura realidade de nossos dias, especialmente com o pós 11 de setembro de tantas ameaças, incertezas e estupidez. A sensação que temos ao despertar, a cada manhã, é que outra extraordinária bobagem -- da qual, a humanidade vai se arrepender por séculos e séculos -- está prestes a ser realizada tenha lá nome, razão e justificativa que tiver.

04. Um triste exemplo, que pode se transformar em outra tragédia histórica com milhares e milhares de mortes, é a fuga desesperada de milhões de afegãos que tentam sair do país diante da possibilidade dos bombardeios americanos e se atropelam nas fronteiras dos países vizinhos, especialmente o Paquistão. Enquanto a poderosa armada americana movimenta-se estrategicamente pelos arredores e aguarda a ordem para o ataque, o mundo assiste igualmente atônito -- e omisso -- a cenas que fazem despencar qualquer possibilidade de que algum dia homem vá mesmo tomar vergonha na cara e não expor o seu semelhante a tamanhos absurdos.

05. Acho que vale a pena retomar o tempo da foto. Vivíamos um impreciso pós-guerra que, queiramos ou não, foi entendido pelos povos como um período de reconstrução. Entendeu-se logo que todos perdemos com a II Grande Guerra e as barbaridades que se cometeu contra judeus e os povos subjulgados pela força do Reich. Havia -- pode parecer ingenuidade -- a esperança de que homens de boa-vontade tomassem a frente sempre que um grande cataclisma fosse iminente, algo que fosse contra o interesse do que também se convencionou chamar bem-comum.

06. Era um tempo de convenções, é certo. De alguma ingenuidade, também. Com homens de chapéus, sóbrios nos gestos e contidos nas palavras. Ainda os vejo, na parede da memória. No ir e vir de seu trabalho que, àquele tempo, tinha hora para terminar. Desciam do bonde em movimento em plena rua Silva Bueno, alinhavam o laço da gravata como se estivessem reprumando a própria dignidade e recompunham o passo. Tinham o olhar certo no futuro. Pensavam em algo para si, estudos para o filho e, nas cerimônias religiosas dominicais, rezavam no fundo da igreja para que o mundo seguisse em paz. Este era o bem maior de todos nós. Se nos faltasse, lembro meu pai dizer em sua simplicidade, os outros todos -- riqueza, poder, bens, fama, saber -- de nada adiantariam, pois não alcançaríamos outro bem supremo, chamado felicidade. Não há felicidade plena enquanto houver uma pessoa infeliz no mundo -- ensina o velho.

07. Nesta manhã chuvosa de quinta, 27 de setembro, mesmo assim, ainda vale a pena dizer: Feliz Aniverário, Ipiranga.

 
 
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