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Título: Aruba, o paraíso e o chapéu panamá
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 07/06/2012
 

O homenzarrão, de cabelos em tom acaju, não se conteve.

Entregou os passaportes da família para os inspetores do aeroporto Reina Beatrix para carimbar o visto de saída e exclamou, todo simpático:

-- Estamos deixando o paraíso.

Logo atrás, a jovem esposa balançou a cabeça em sinal de aprovação.

As duas crianças, entre oito e dez anos, nada disseram. Estavam empenhadas em livrar-se das mãos da mãe para continuar a correria e a sensação de liberdade que experimentaram desde que, sete dias atrás, desembarcaram em Aruba.

Não sei se essa pequena ilha do Caribe é mesmo um paraíso (até porque nunca estive no tal, e tão cedo pretendo não conhecê-lo).

Sei que, na semana que lá estive, não encontrei motivo para discordar do homem à minha frente. Foram dias de puro estio a vagar pelas praias de areia brancas e tranquilas águas de tom azul.

Embarcaríamos no mesmo voo de volta ao Brasil, e pareceu-me inevitável saborear certa tristeza ao imaginar-se longe dali, de volta à lida.

É bem provável que o dolce far niente de quem está de férias influencie favoravelmente todo o resto. Mas, há que se reconhecer: o tempo em Oranjestad, a capital e redondezas, tem ritmo próprio para passar. É cadenciado, venturoso; sugere a paz.

Por ali, é tudo organizadinho, com horários próprios e um jeitão de que a vida tem jeito, sim.

Para tudo, há uma solução.

Querem um exemplo?

A ilha, dizem os moradores, está livre dos tufões, ciclones e qualquer outra intempérie mais drástica. Pelo que pude entender, há uma barreira natural que faz com que os tais façam rota longe dali.

Em se tratando de Caribe, é um privilégio, convenhamos.

Querem mais?

Raramente chove. Dois dias por ano, se tanto. Sempre entre setembro e novembro.

A temperatura média fica em torno de trinta, trinta e poucos graus.

II.

O clima de Aruba é árido, mas não chega a incomodar.

A vegetação é pouca – e as árvores têm os galhos que se inclinam horizontalmente, o que lhes dá uma configuração singular.

Não há rios.

O que obrigou os arubianos a desenvolver – e implantar – um moderno sistema de dessalinização da água do mar só comparável ao que existe em Israel.

Em toda a extensão da ilha, a água é potável.

Com a desativação da refinaria de petróleo – fundada em 1924 – o turismo passou a ser a grande fonte de renda.

Não houve problemas para os nativos, pois eles dominam quatro idiomas – o holandês, o inglês, o castelhano e papiamento (a língua criada pelos arubianos e que reúne um vocabulário diverso, inclusive com adoção de palavras em português).

É divertido vê-los esgrimir, com tranqüilidade, tamanha verve.

Parece que eles possuem uma chavinha que, a depender das circunstâncias e da nacionalidade do interlocutor, os coloca aptos à conversação.

Desde 1986, Aruba conseguiu desvincular-se das Antilhas Neerlandesas, tornando-se um território autônomo do Reino Unido dos Países Baixos.

-- Todos aqui se sentem orgulhosos e se consideram holandeses. Comemoram até o aniversário da rainha com feriado nacional e vestimenta cor de laranja.

Enquanto aguardamos o embarque para a Sampa nossa de cada dia, o senhor de cabelos levemente acajuzados continua encantado com tudo o que viu e vivenciou na ilha.

-- Estamos deixando o paraíso, lamenta mais uma vez.

III.

Um breve silêncio...

E ele retoma o assunto: as maravilhas da ilha de Aruba.

-- Sabe que visitei um campo de golfe? Pois é, a grama parece um tapete, de tão verdinha e bem aparada.

Desligado que sou, nem me incomodo com a suposta impossibilidade de se manter uma impecável área verde em um lugar onde não chove e sequer existe rios. Mas, o meu falante interlocutor resolve explicitar o mistério mesmo antes que eu me dê conta dele:

-- Eles usam água de reuso para molhar o campo. Verdade! Eles têm um acordo com a rede de hotéis que encaminha para um grande reservatório todo o consumo de água da turistada, como nós.

Achei a ideia engenhosa.

Ele achou o máximo.

-- Não há desperdício. Enquanto lavamos as mãos, escovamos os dentes, tomamos nosso banho, estamos contribuindo para aguar o campo. Não é genial?

Tento me conformar com o meu desinteresse. Fiquei sete dias por ali, zanzando do hotel para a praia, da praia para o hotel. Fui a um ou outro restaurante, olhei algumas vitrines, acompanhei o por do sol, e olhe lá.
É certo que ouvi algumas histórias. Mas, nem me preocupei em guardá-las.

Não tenho nada a dizer ao novo amigo, portanto.

Ele, por sua vez, creio, dispensaria inteiramente os meus comentários. Fala entusiasmado de suas aventuras na bela ilha.

Diz que andou de catamaran, mergulhou de snorkeling, prospectou o fundo do mar a bordo de um submarino para turistas e, ousadia das ousadias, voou em um para-queda puxado por uma lancha, em mar aberto.

-- Uma loucura. Me senti vinte anos mais moço, comenta orgulhoso por tantas e tamanhas peraltices.

Ao seu lado, sorridente e feliz, a jovem esposa aquiesceu às palavras do maridão, com sorriso cúmplice:

-- Os meninos estão admirados da coragem do pai, e eu também.

O senhorzinho, todo gabola, ajeita o bermudão pra cima da linha da cintura.

-- Bem, assim não se usa mais. Deixa o cinto mais frouxo, como se fosse cair, corrige a moça atenta à deselegância discreta do Pimpão.

Conversa vai, conversa vem, olho os garotos, tostados do sol e felizes que só. Correm barulhentos entre os bancos do saguão. Respiram os últimos instantes daquela sensação de liberdade. Que, aliás, era comum a todos ali. Inclusive em mim, que me permiti uma única excentricidade.

Comprei um chapéu panamá que, provavelmente, nunca vou usar...

 
 
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