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Título: Um Papai Noel daqueles... *
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 24/12/2012
 

Não podia esquecer quem era a partir daquele momento.

Papai Noel.

Isso mesmo.

Encarnaria agora o bom-velhinho que mora nos confins do Polo Norte e só no Natal dá as caras e barbas por aqui para presentear todas as crianças.

Inflou os pulmões e repetiu em voz alta para melhor convencer a si próprio:

-- Todas as crianças, ok?

Só assim se convenceria da grande – e histórica – empreitada que assumira perante os colegas da Fundação, onde trabalhava.

Tivera um excelente ano. Foi promovido a chefe da seção, até lhe sobrara alguns trocados para um final de ano mais alentado. Além do que, o time do coração pode tirar passaporte e, por fim, tingiu a América e o mundo de branco e preto.

A promessa era mais do que cabível.

Seria cumprida...

II.

Para completar sua felicidade, só faltava mesmo convencer a morena sestrosa, que atendia pelo nome de Marta, a seguir com ele vida afora.

Mas, se o mundo não acabasse nesta sexta-feira, Reinaldo Caubi (o nome foi certamente um exagero da mãe, fã incondicional do intérprete de “Conceição”) tinha certeza. Em 2013, Martinha não lhe escaparia.

Seria sua, eternamente, sua.

III.

Marta é moça séria. Fala inglês e castelhano fluentemente, fez pós na PUC – e é evangélica. Dessas que não permite qualquer tipo de brincadeira, especialmente quando se fala em religião. Aliás, pensando bem, ela não aprovaria nada, nada, essa história de se passar por Papai Noel, desfilar pelas ruas em carro de bombeiro, sirene ligada a chamar a atenção de todos para a ação beneficente que está fazendo. Quer dar presentes para as crianças carentes que dê, é louvável a atitude, Mas fazer esse oba-oba, ah!, isso ´demais de conta.

Não foram esses os ensinamentos do verdadeiro e único Deus que se fez homem e veio nos redimir sob o nome de Jesus.

Se Marta descobrisse que era ele quem estava debaixo daquela ridícula roupa vermelha, com aquelas barbas e cabeleira postiças ao vento, não lhe perdoaria.

Seria o fim.

IV.

Refletiu...

No horário em que aconteceria o fusuê, ela estaria trabalhando.

Compenetrada do jeito que era para dar conta do serviço, jamais sairia à rua para ver o que estava acontecendo.

Mesmo assim, não quis correr riscos.

Como medida de segurança, em todas as paradas do caminhão de bombeiros para as doações, só falaria o habitual “hohoho” – e nada mais.

Nem sorrir sorriria.

V.

Foi a única exigência que fez ao pessoal do trabalho:

-- Eu topo sair de Papai Noel, até porque é uma forma legal de agradecer tudo o que eu e om meu time recebemos neste ano. Mas, ninguém pode contar a história para a Marta. Se ela souber, será o fim.

Todos toparam. Até porque Caubi falava o dia inteiro da moça. Mas, nunca a apresentou a ninguém.
VI.

Tudo certo e resolvido.

No dia e hora apraz combinados, lá estava o imponente caminhão de bombeiros repleto de presentes para os miúdos, palhaços e até dois desavisados rapazes vestindo fantasias de Banana de Pijama. O Papai Noel, a estrela do dia, foi o último a chegar, com maquiagem carregada, barbas esfiapando e psicologicamente preparado para a empreitada.

-- Tudo pronto Papai Noel? Podemos ir?

A pergunta do bombeiro-chefe recebeu a melhor das respostas;

-- Hohoho...

VII.

E assim, sirene ligada, começou o longo itinerário.

Para na primeira creche, musiquinha de Natal bombando, vêm as crianças, rodeiam o veículo, e recebem seus presentes.

-- Papai Noel! Papai Noel!, gritam esticando os bracinhos em busca das bolas coloridas, bonecas de plásticos e caminhõezinhos de madeira.

E ele firme:

-- Hohoho...

VIII.

A andança continua.

Caubi vai se emocionando mais e mais, a cada parada.

É “hohoho” pra cá, é “hohoho” pra lá.

Estava se achando o máximo.

Que satisfação!

Nunca imaginou que fosse tão bom ser o bom-velhinho.

O que é a fama...

IX.

Estava na décima quinta parada quando percebe que há fotógrafos registrando a ação dos bombeiros e até uma repórter loirinha quer sua impressão sobre um tal de “espírito do Natal”.

-- Por favor, Papai Noel, o que o senhor acha desta jornada em nome dos mais humildes?

Ele engole o discurso, e diz categórico:

-- Hohoho...

X.

De repente, quem ele vê à janela do primeiro andar de um prédio de escritório?

Ela, Marta, a sua Marta...

E está sorrindo, parece aprovar aquela festa toda.

Está mais linda do que nunca.

XI.

Ele não resiste.

Esquece todas as promessas, e acena para a mulher amada.

Sem pensar nas conseqüências e na correria das crianças, grita espalhafatoso:

-- Marta, Marta, sou eu... Esse cara sou eu: Reinaldo Caubi, o homem de sua vida.

 
 
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