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Título: Na linha do horizonte...
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 21/05/2013
 

O amor tem múltiplas formas.

A intensidade, porém, é única.

Ama-se ou não.

II.

Lá naqueles idos e havidos o Nasci queria nos iniciar nos árduos caminhos da existência.

Valia para o jornalismo.

(Éramos então jovens repórteres naquela idílica redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor.)

Valia para a vida.

(Éramos igualmente noviços na arte de amar e viver e versa e vice.)

III.

Então, o Mestre (por vezes, até em tom de brincadeira assim o chamávamos) discorria sobre os amores vários que marcaram sua vida. Fulana, Beltrana e Sicrana (não dizia os nomes reais, pois era discreto e cerimonioso até) recebiam tratamento de mulheres mais do que amadas. Era uma deferência a quem tantas e tamanhas felicidades um dia lhe proporcionou...

IV.

Fazíamos pouco do carinho e da elegância, com que as tratava.

Afinal, dizíamos em tolo regurgitar, todas estavam casadas e/ou vivido e saboreado outros romances, tão ou mais plenos.

V.

Nasci divertia-se diante do nosso embaraço.

Não que menosprezasse nossas limitações nessa intrincada seara.

Nada disso.

Apenas fazia questão de repetir o slogan que outro veterano daquela redação nos impunha, implacável diante do nosso insípido vigor de quem nada, de relevante, até então vivera.

- Vocês são jovens e inconsequentes.

E acrescentava:

- O que é bom também. Mas, limita a ação e o entendimento de vocês para a verdadeira dimensão de um sentimento que não se explica, vive-se e pronto. Amar mais do que levar alguém para a cama. É bom também, e fundamental. Mas, não é tudo.

VI.

Papo de coroa, dizíamos.

Desmerecíamos os toques que o Nasci queria nos passar. Para que não abríssemos mãos de viver um grande amor. E estivéssemos preparados para reconhecê-lo assim que surgisse na linha do horizonte...

V.

Na linha do horizonte, enfatizava o mestre.

Pois o amor – dizia – não se anuncia com o soar de trombetas.

Com o rufar de tambores, tiros de canhão.

Vem como folhas ao vento a ziguezaguear, sutil, sobre tudo e sobre nada.

“Há que se reconhecê-lo”, alertava.

E ousava a compará-lo com o sol a se esquivar por trás das montanhas.

“Tem um tempo certo de captá-lo em todas nuances de um fim de tarde.”

VI.

Escrevo-lhes essas lembranças por motivo tão pessoal quanto a própria existência deste blog.

VII.

Reencontro, dia desses, o amigo Escova a falar em uma roda de novos amigos.

Ele é um dos nossos, sobrevivente da velha redação de piso assoalhado e grandes janelões para a rua Bom Pastor.

Eu o vejo repetir o discurso do Nasci.

Saboreia cada palavra que diz, cada sílaba.

VIII.

À época, Escova, como os amigos do blog bem sabem por tantas histórias que aqui contei, era conhecido como Dom Juan das Quebradas dos Mundaréus.

Sempre teve histórias incríveis a nos contar.

Por vezes, exagerava.

Mas, tinham lá seu fundo de verdade.

IX.

Agora, ele as repetia diante do olhar encantado da jovem plateia.

Dera àqueles causos um tom mais poético, mais generoso

Pareceu-me, por instantes, ver ali um Nasci redivivo.

Bateu-me uma emoção inesperada, com gosto de saudade.

X.

Não foi um momento triste. Ao contrário.

Teve um gosto de graça de ter vivido o que ali se viveu.

Tento agora (ainda que em modesto relato) compartilhar com vocês essa emoção das antigas.

 
 
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