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Título: Considerações sobre a janela
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 30/09/2013
 

Dizem que basta uma janela para o cronista confabular sobre o mundo e sua gente.

Que me perdoem os óbvios, mas uma boa janela na vida da gente é fundamental.

II.

Para os da minha geração, a janela nos trazia o mundo.

Víamos o movimento das ruas, as pessoas, os bondes, o tom sépia das luzes que se acendiam ao entardecer. Fiscalizávamos o cotidiano dos vizinhos e avistávamos, ansiosos, o Jardim da Aclimação, onde existia a jóia rara de um campo de futebol gramadinho, gramadinho.

Íamos para a rua e para a vida repletos de sonhos e possibilidades.

III.

Uma geração depois da minha – ou seriam duas? – trocou a janela pela tela da TV (que não deixa de ser uma janela) por morar em prédio, pelo recrudescimento da violência na cidade grande, pela ausência dos pais. O Jardim da Aclimação passou a ser o play ground – que não tem lá tantas magias assim. A TV dominou mentes e corações desse pessoal. Impôs-lhes o tom e a cor da vida.

Lembro de educadores indignados a condenar a longa exposição dos infantes aos malefícios da TV.

Não era uma boa influência, diziam.

No meu tempo, a rua também tinha lá suas armadilhas e perigos.

Enfim...

IV.

A meninada de hoje trocou a TV e a rua pelo tablet e/ou pelo visor do celular.

Também pela emoção dos games.

Para estes, é ali que a vida acontece.

V.

Estava a olhar um grupo de adolescente, ontem mesmo, em uma praça de alimentação. Vestiam agasalhos de algum colégio particular, deviam ter saído das aulas naqueles instantes. Estavam juntos, mas cada um por si. Entretinham-se cada qual com sua engenhoca.

Mal se davam conta do grupo, da turma.

Por vezes, um ou outro fazia algum comentário disperso que se perdia solto no ar, sem resposta. Conectados com as próprias fantasias.

VI.

Por alguma associação esdrúxula, lembrei-me do tempo de garoto. Da atração que a bola de capotão exercia sobre nós, quando quicava diante dos nossos olhos e nos dividíamos em dois times. Duas, seleções, melhor dizendo. Pois, já não éramos o Carlinhos, o Cláudio, o Pelinho, o Nestor, o Orelano, o Betão, o Vaqueta...

O campão da Aclimação virava o Pacaembu (pois, o Morumbi não existia) ou mesmo o Maracanã – e nós nos transformávamos em Luisinho (o Pequeno Polegar), o Rafael, o Mazzola, o Zizinho, o Mauro, o Gilmar e havia até alguns garotos abusados que se imaginavam ser um outro garoto, mirrado, de nome Pelé.

VII.

Os tempos mudaram...

Só os sonhos não envelhecem.
VIII.
O amigo Escova me diz que tentou postar um comentário.

Desistiu “por questões técnicas” e pessoais (“Não sei lidar com essas engenhocas”).

Seu propósito era elencar outros nomes de craques que fizeram nossa cabeça, naqueles idos – Baltazar, Roberto Dias, Chinesinho, Valdir Joaquim de Moraes, Poy, Dorval, Coutinho, Pepe, Djalma Santos...

“... Aproveite e complete com os craques da seleção de 58. Gylmar, De Sordi Belini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo. Dida, Castilho, tantos, tantos... Deveria falar também do noticiário esportivo do Canal 100. Do nosso entusiasmo ao ouvir a música que introduzia a cobertura dos jogos. Tatarantaran... Bons tempos!”

IX.
Escova é meu contemporâneo.

Morava na Vila Carioca, periferia do Ipiranga, e eu no Cambuci. Para a época, havia uma distância razoável entre ambos. Mas, nas duas freguesias, o que não falta era campo de futebol. Só nos conhecemos naquela velha redação de piso assoalhado e grandes janelas para a rua Bom Pastor. Éramos repórteres, “jovens e inconseqüentes”, como enfatizava, a cada estripulia que aprontávamos o Velho Marques, nosso primeiro editor.

X.
Escova me chama atenção para que todos os garotos da nossa geração eram iguais, sonhadores e, à sua maneira, românticos. Mesmo assim fez questão de cravar a bonita frase que o Papa Francisco disse quando, em junho, esteve entre nós, no calor das manifestações:

“A juventude é janela pela qual o futuro entra no mundo.”

E acrescentou:

“Seja em que tempo for.”
XI.
Eis que hoje se apresenta o amigo Poeta para, igualmente ao que o Escova ontem fez, esticar o nosso conversório, tendo a janela como temática.

Como não faço diferença entre um e outro, rabisco aqui as observações feitas pelo Poeta que, como poderão ver a seguir, é mais chegado às artes do que às lembranças.

Ele começa citando dois quadros que lhe são marcantes: “A Moça na Janela”, de Di Cavalcanti, e “Mulher à Janela”, de Salvador Dalí (foto). O primeiro, conheço a partir da consulta que faço ao Google, incitado pelo comentário do amigo. O segundo, por incrível que pareça, eu o vi no Museu Reina Sofia, em Madri e, mais incrível ainda, sem nada entender de arte, tive a cara dura de escrever sobre o mesmo.

Foi em 14 de agosto de 2008, e assim termina:

“Direi apenas que a moça, para mim, se faz tão enigmática quanto a Mona Lisa, do Louvre. Com a diferença que, de repente, estamos do lado de cá da janela, tão próximos e tão alheios; como ela, atemporal e cúmplices de um eterno esperar”.

Como viram, este blog também é cultura.

XII.

Poeta quase mudou de assunto.

Recuperou o fôlego e seguiu com o relato.

Para ele, “Janela Indiscreta”, de Hitchcock é um de seus filmes preferidos. Mistério e suspense a partir do voyerismo do protagonista (James Stwart) que, por ter quebrado a perna, está confinado ao seu apartamento. Da sua janela começa a espiar – talqualmente um Bial das antigas – o dia a dia da vizinhança.

O filme é de 1954 – e o Poeta jura que nem era nascido nessa época.

Eu e o Escova duvidamos, mas preferimos não entrar no mérito da questão.

XIII.

No âmbito da música, o Poeta faz duas referências que acha bárbaras.

A primeira é a canção “Trem das Cores” que Caetano Veloso fez para Sônia Braga – e é lindíssima mesmo.

Descreve poeticamente a paisagem a partir da janela do trem que corta a Espanha.

Um trecho:

“As casas tão verde e rosa
Que vão passando ao nos ver passar
Os dois lados da janela
E aquela num tom de azul
Quase inexistente, azul que não há
Azul que é pura memória de algum lugar”.

XIV.

A outra canção, de inevitável lembrança quando este é o assunto, é a que Chico Buarque fez em idos tempos:

“O tempo passou na janela
Só Carolina não viu”.

XV.

Não sei bem o porquê, mas ao cantarolar esses versos, senti o amigo Poeta triste que só.

Quis, então, quebrar o climão que ficou e brinquei:

- Tem alguma Carolina no seu passado?

E ele respondeu de forma bem realista, sem nenhuma poesia:

- Carolina, Carolina, não tem nenhuma, não. Fiquei no vazio. Por isso que fico triste.

 
 
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