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Título: A história dos debates na TV
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 12/10/2006
 

A história dos debates eleitorais já tem alguma tradição na TV brasileira. Começam a pipocar a partir de 1982, quando o povo volta a eleger os governadores dos estados brasileiros. Nunca é demais lembrar que, por força dos causuísmos ditatoriais, essa prática se encerrou em 66 e, desde então, o brasileiro só ia às urnas para escolher vereadores, deputados estaduais e federais e senador - mesmo assim, um dos três senadores de cada estado era indicado pelo Governo Militar; era o chamado senador biônico.

O Palácio do Planalto também indicava o governador de plantão, e este escolhia o prefeito das capitais e de cidades consideradas áreas de segurança nacional.

II.

Na esteira do processo de redemocratização, os anos 80 saudaram a consolidação de avanços consideráveis como a anistia (77), as greves do ABC (de 78 em diante), o fim da censura (79) e a retomada das eleições gerais (82). Foi um momento bom, de semeadura da maior mobilização social que este País já assistiu, as Diretas Já, em 84.

Neste contexto, o jornalismo ganhou espaço na programação das TVs, e não apenas no formato de telejornais. Os programas de entrevistas no fim de noite se tornaram ponto de discussão e de interesse. Nascem neste período títulos como Roda Viva, Canal Livre, Crítica & Autocrítica, Jogo de Carta, com Mino Carta, entre outros.

Todos têm o formato de mesa-redonda. E se propõem a ser polêmicos e esclarecedores.

III.

Com efeito, esses programas se inspiraram na boa audiência dos primeiros debates televisivos por ocasião do pleito para o Governo do Estado, especialmente em São Paulo e Rio, em 82. São Paulo reúne uma plêiade de contendores peso-pesados - Franco Montoro (PMDB), Reynaldo de Barros (candidato de Maluf e sobrinho do líder Adhemar de Barros, PDS), Jânio Quadros (ex-presidente, de performances imprevisíveis, PTB) e o líder dos metalúrgicos do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo PT.

No Rio de Janeiro, apenas um nome era motivo de apreensão e interesse, Leonel Brizola, tido e havido como "o incendiário".

A política passou a ser o tema da moda. Mais até do que Carnaval e futebol, pasmem.
IV.
Bem, vamos continuar a história dos debates...

Em São Paulo, o primeiro debate reuniu à mesa um time peso-pesado. Não lembro ao certo se foi na própria TV Bandeirantes. Mas, é provável que sim... Não houve regras previamente elaboradas. E cada um dos candidatos valeu-se mais da sua pegada do que propriamente de algum tipo de preparação. Montoro ganhou as eleições com certa tranqüilidade e o bate-boca da vez nada influiu no resultado. De marcante, ficou um bordão que um dos candidatos nanicos bradou insistentemene durante toda a campanha:

-- Cadê você, Franco Montoro?

V.

Três anos depois, na eleição para a Prefeitura de São Paulo, o primeiro momento antológico. O jornalista Boris Casoy ainda pertencia aos quadros da Folha de S. Paulo, onde havia ocupado o cargo de editor-chefe por muitos anos. Não tinha a menor intimidade com a TV, e foi convidado a ser um dos perguntadores. O então senador Fernando Henrique era o favorito de todas as pesquisas. Um candidato imbatível na opinião dos cientistas políticos e similares. Até porque, naquele momento de ojeriza a tudo que lembrasse a ditadura, era comum se dizer que o PMDB elegeria "até um poste".

Jânio Quadros e o então deputado Eduardo Suplicy também participavam do pleito.

Jânio desobedeceu às regras modelares que se esperava de um candidato e simplesmente não compareceu ao encontro. Mesmo assim, foi o grande vencedor da noite.

Boris pespegou duas perguntas que derrubaram FHC e Suplicy.

Para Fernando Henrique, perguntou:

-- Senador, o senhor acredita em Deus?

O sociólogo sem religião patinou feio. Dias antes, havia participado de ato religioso, ao lado de milhares de fiéis, em louvor a Nossa Senhora Aparecida. Agora, atropelava-se nas palavras que soaram inconsistentes.

Com o deputado do Partido dos Trabalhadores, foi mais singelo.

-- Deputado, o senhor sabe quanto custa o pãozinho?

A resposta foi um disparate. Não lembro exatamente o que disse Suplicy, até porque a moeda era outra. Mas, se atualizarmos, digamos que ele chutou algo em torno de um real ou mais...

Comprovou assim, para o telespectador, que o discurso e a prática andavam um tantinho distante - como, de resto, ainda hoje é...

Jânio ganhou também as eleições.
VI.

Outro vencedor deste debate foi o apresentador Silvio Santos. Como assim? Logo contratou Bóris Casoy para apresentar um telejornal. E o transformou no primeiro âncora da TV brasileira, o que obrigou a própria Globo a rever o formato de seus telejornais, antes apresentados pelos chamados locutores-noticiaristas.

VII.

Lula também já teve seus dias de bom-humor em debates televisivos.

Num debate presidencial, chegou a elogiar o concorrente Paulo Maluf:

- O senhor é competente...

Espanto no estúdio e no público telespectador.

Como pode, são inimigos fidagais?

Lula elogiando Maluf?

Segundos depois, a conclusão:

- É que o senhor compete, compete, compete... E não ganha nunca.

Bons tempos, hein, Lula?
VIII.
Trato é trato".

Assim dizia o meu avô Carlito que fazia chapéus na fábrica Ramenzzoni, ali na esquina da rua Lavapés com a Scuvero, dentro dos limites da República Federativa do Cambuci.

Isto posto - e sei lá porque lembrei do meu avô -, vamos a mais uma parte dos relatos sobre os debates eleitorais na TV brasileira. Trato é trato...

Ops...

Antes de narrar o episódio de hoje (Collor vs. Lula em 89) quero fazer uma referência que, assim como chupinhamos a fórmula dos festivais de MPB dos anos 60 do eterno Festival de San Remo na Itália, também demos uma copiadinha no formato de debates entre presidenciais do histórico confronto Kennedy e Nixon, pela Presidência dos Estados Unidos em 1960.

Há quem diga que o tom despojado e elegante de Kennedy lhe garantiu a vitória diante de um Nixon acabrunhado, um tanto troncho e, diria, entristecido.

Esse debate marca o início da chamada era dos políticos telegênicos. No Brasil, o primeiro a tirar proveito - e como! - da TV foi mesmo o então desconhecido governador das Alagoas, Fernando Collor, quase 30 anos depois.

IX.

Há toda uma história que o mito Collor foi projetado pela mídia - especialmente, pela Rede Globo - assustada com a possibilidade de um de seus dois desafetos chegarem ao poder. Quem eram? O caudilho Leonel Brizola e o sapo barbudo Luiz Inácio Lula da Silva. Brizola, inclusive, havia dito e redito que o primeiro ato de seu Governo, em Brasília, seria rever a concessão de algumas emissoras de TV que estavam "a serviço do imperialismo".

Os outros dois candidatos, de peso, Ulysses Guimarães e Mário Covas também não inspiravam lá muita confiança na família Marinho.

À parte as mazelas da Teoria da Conspiração, o certo é que Collor ganhou projeção nacional ao participar de um programa de aniversário de Chacrinha e depois refestelou-se em um Globo Repórter em que se disseminou a alcunha de "caçador de marajás".

Daí para frente, a história, todos conhecem...

X.

É inevitável. A conversa foi parar em debate eleitoral na TV? Então, prepare-se, mais cedo ou mais tarde, vamos desaguar no pega de 89 entre Lula e Collor. E aí os ânimos esquentam...

O que aconteceu?

Segundo os índices das pesquisas de intenção de voto, os candidatos estavam próximos na semana que antecedeu as eleições, realizadas no domingo, dia 17 de dezembro. Collor e Lula se enfrentaram na quinta, dia 14. Um pool de quatro emissoras de TV (Globo, SBT, Bandeirantes e Manchete) transmitiu simultaneamente o debate que encerraria a campanha eleitoral para decidir o segundo turno.

Foi um embate renhido, com acusações mútuas; mais de Collor em relação a Lula.

Os próprios petistas reconheceram depois que Lula estava desconfortável, com ar cansado e hesitante. Muitos compararam a um jogo de futebol. Collor venceu por dois a um, três a um...

XI.

No dia seguinte, porém, o Jornal Nacional fez uma resenha do encontro absolutamente parcial. Mostrou Collor confiante, determinado. Lula, ao contrario. Cabisbaixo, inseguro, sem saber para onde ir.

Quem assistisse apenas ao Jornal Nacional e ousasse emitir um palpite, usando a metáfora do futebol, não teria dúvidas. Collor: 8 x 0. Só no primeiro tempo.

XII.

Se essa edição interferiu ou não no resultado final das eleições de 89, nunca se saberá. Foi uma semana trash para Lula aquela - e as que vêm pela frente. Por isso, é bem provável que eu volte ao assunto dia desses...

De resto, lembro que o horário político recomeça hoje. Mas, eu e você, caro leitor, merecemos uma trégüa. É feriado, Dia das Crianças e de Nossa Senhora Aparecida. De quebra, aniversário da dona Yolanda, minha mãe, filha do chapeleiro Carlito, aquele que começou o texto e que o encerraria agora com a célebre recomendação:

-- Olha, não se meta a fazer cortesia com o chapéu alheio...

E, para dar um toque de modernidade e graça, o bom Carlito arrepiaria uma frase que a moçada de hoje consagrou, sempre que surge uma bola dividida:

-- Piccino, me inclua fora dessa...

 
 
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