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Título: Repóteres e robôs
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 25/05/2015
 

Respondo ao Luciano, um dos meus cinco ou seis fiéis seguidores (ui!) aqui no Blog. Ele não é do ramo, mas se diz preocupado com os rumos que segue o jornalismo atualmente e, pior, com a possibilidade de robôs substituírem os repórteres nas redações.

Como diria Jack, o esquartejador, vamos por partes.

Também me preocupa o atual momento do jornalismo. Mais do que o futuro, eu diria.

E explico.

Hoje fala mais grosso a voz do Dono e quase não se ouve o que tem a dizer o
Dono da voz.

Dá para entender?

Se não tiver em sintonia (ou conivência) com a verdade ab soluta dos proprietários dos grandes conglomerados de comunicação (e, portanto, com os interesses desses), o jornalista, creiam, terá pouquíssimo espaço para viabilizar o seu trabalho.

Por isso, há uma onda, cada vez maior, de os novos jornalistas investirem em uma carreira solo, fora das chamadas “grandes redações”. O desafio dessa turma – o bem-vindo desafio – é inventar o próprio espaço.

De outro modo, não creio tanto assim na eficácia das novas tecnologias para dimensionar o futuro do jornalismo.

Mudam as plataformas, ok, mas em nada se alteram os pilares básicos, essenciais, ao que se convencionou chamar bom jornalismo. Aqueles mesmos que não canso de falar em sala de aula e, mesmo aqui, no Blog, já escrevi dúzias de vezes ou mais.

A saber:

- o respeito à verdade factual

- a postura crítica

- a função fiscalizadora

“Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, como disse lá pratrazmente Millor Fernandes.

II.

A essência de tudo, meu caro, ainda continua sendo a boa e velha REPORTAGEM (grafo em caixa alta para que não haja dúvida): o repórter na rua, apurando os fatos, ouvindo as fontes, checando suas inquietações e a verdade que levanta a cada passo que dá, a cada entrevista que faz.

O repórter como mediador das demandas sociais. A colocar o interesse comum à frente de qualquer outro interesse – inclusive, os pessoais e/ou os que ‘patrões’ defendem (e como defendem!).

Eis o verdadeiro jornalismo de ontem, de hoje e de sempre.

III.

Robôs podem ajustar este e aquele dado, fazer esta e aquela conexão e aprontar um lead correto, impessoal, legível. Mas, alguém precisará abastecê-lo com essas informações e com a interpretação contextual que advém da ocorrência do fato.

Responda-me aí, caro Luciano:

Quem fará isso, com precisão e coragem?

Quem irá pautar a máquina?

Quem vai hierarquizar essas informações?

Quem será o historiador do cotidiano?

PARTE 2

IV.

Sempre que converso sobre este assunto (a robotização dos jornalistas) me vem à mente a célebre capa do livro A Regra do Jogo, do inesquecível Cláudio Abramo.

A capa exibe uma foto do grande mestre a enfrentar a sua brava Olivetti, com a cabeça erguida, a refletir sobre o que estava escrevendo e informando.

É o retrato de uma época, de um jornalismo compromissado e algo romântico, ok; mas feito com alma, engajado na luta diária pelo bem-comum.

Estou sendo um tanto piegas, mas vá lá...

V.

Hoje, o que se vê nas redações é justamente o contrário. A rapaziada está acoplada à máquina, é quase uma extensão do computador. Ora pendura-se no telefone, ora consulta as tais redes sociais, ora volta a teclar. Muitos exibem coloridos fones de ouvidos que os ausenta da convivência com os iguais na árdua lida pela notícia em tempo real.

As jornadas são longas, e penosas.

Não os culpo, mas me preocupam.

Se não tomarem tento, logo estarão eles próprios transformados em robôs, prestes a serem descartados pelo “núcleo duro do poder” (e toda a redação tem o seu, não se iludam) assim que novos modelos saírem das fábricas – ou melhor, da universidade.

VI.

Não é um panorama dos mais alentadores, digo sempre aos meus pares, aqui, na Universidade. Mas, penso, tende a mudar. Penso também que há infinitas possibilidades de se praticar um bom jornalismo mesmo fora das redações famosas.

O empecilho é como ganhar dinheiro (monetizar, como dizem os especialistas) com essas novas possibilidades que se apresentam, seja em qual for a plataforma, digital ou não.

A questão financeira, aliás, assusta também (e, eu diria, principalmente) os grandes grupos de comunicação.

A bem da verdade, não temos certeza alguma sobre o futuro do jornalismo.

Só sabemos que não vai desaparecer.

O mundo só existe pra gente e a gente só existe para o mundo se nos informarmos sobre ele.

Parte 3

VII.

Querem um exemplo?

(Bem atual, por sinal)

Lá vai:

Ontem, pela manhã, acordei com um baticum e um vozerio, tumultuando os arredores do prédio onde moro. Achei estranho e fui à varanda do apartamento para ver o que acontecia.

Era um grupo de trabalhadores – uns 100, pouco mais, pouco menos – que se manifestavam incentivados por uma voz que dizia palavras de ordem da carroceria de um caminhão de som.

Do décimo nono andar, nada chegava com clareza aos meus ouvidos. Quando muito entendi que a bronca era com o prefeito da cidade (São Bernardo do Campo), pois toda vez que o nome dele era citado surgiam vaias e apupos.

Por mais que estivesse no palco – não tão privilegiado assim - dos acontecimentos, não tinha a noção exata do que se sucedia.

Eu não existia. Não podia sequer legitimar as reivindicações.

Tudo o que eu queria, naquele preciso momento, é que a turma se mandasse logo dali visto que o trânsito começava a se tornar caótico – e eu precisaria ir para o trabalho logo, logo.

VIII.

Só a caminho do trabalho, hora e tanto depois, soube pelo rádio do carro o que de fato se deu ali bem diante do meu nariz.

Resumo da ópera:

Eram, sim, servidores municipais que, desde fevereiro, tentam uma audiência com o prefeito Marinho para discutir questões salariais. Querem um aumento e, ao que consta, a paciência da rapaziada se esgotou.

Cheguei na Universidade e não tive tempo de ouvir a versão dos assessores da Prefeitura para o caso, mas, creio, já deu para os meus amáveis cinco ou seis leitores entender mais exatamente o que queria demonstrar.

IX.

Outro exemplo.

(Este mais positivo)

Assisto na madrugada, num desses canais de TV por assinatura, um breve e empolgante show do grupo Casuarina. É a primeira vez que vejo a rapaziada que faz um samba da melhor qualidade, no melhor estilo Rio de Janeiro.

Fico impressionado.

Lá pelas tantas o principal vocalista do grupo diz que “melhor do que trabalhar em família é divertir-se em família”. Na sequência chama ”o seu digníssimo pai”: Lenine.

E todos cantam “Eu Quero Botar Meu Bloco Na Rua”, do saudoso Sérgio Sampaio, num momento que me é inesquecível.

Fim do espetáculo, os créditos sobem na tela escura e, surpreso, constato que a gravação é de 2012 e o show reverenciava os 10 anos de carreira dos meninos.

Onde eu andei esse tempo todo?

E onde andam os bons jornalistas que não me trouxeram notícias dos caras.

PARTE 4

X.
Para encerrar minhas platitudes sobre os rumos do jornalismo, lembro a afirmação que o repórter Gay Talese fez quando esteve no Brasil há coisa de dois ou três anos.

O autor de “Fama e Anonimato” não usou exatamente essas palavras, mas em linhas gerais disse o seguinte: não é por que o sujeito abre seu notebook na cozinha e se põe a escrever sobre isso e aquilo que ele se tornou jornalista ou está fazendo jornalismo.

O profissional de Imprensa – diz Talese – deve ir além das opiniões e dos palpites. Ele tem que ir para a rua apurar, entrevistar, ouvir, contrapor as informações, recuperar o contexto em que a notícia se dá para, a partir daí, redigir uma REPORTAGEM que definitivamente ESCLAREÇA a opinião pública, sem que qualquer outro interesse (que não seja em prol do bem comum) se sobreponha à verdade dos fatos.

Portanto, meu caro amigo (que lá no início da série, estava preocupado com a questão), fique tranquilo. Apesar de os patrões e os ‘moderninhos’ de plantão torcerem pelo fim do ser humano nas redações, vai demorar um tempinho para que os robôs substituam os repórteres no fazer jornalístico.

Afinal...

... a vida merece mais do que 140 caracteres.

Por isso, termino essa matéria saudando os grandes repórteres de ontem, de hoje e de sempre: Octávio Ribeiro, Marcos Faerman, Joel Silveira, Zé Hamilton Ribeiro, Ricardo Kotsho, Bob Fernandes, Tim Lopes, Audálio Dantas, Marines Campos, Caco Barcelos, Percival de Souza, Júlio Moreno, Valdir Sanches, Eliane Brum, entre outros tantos e tamanhos.

Que o talento dessa turma abençoe os que estão por vir...

 
 
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