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Título: A arte de tecer o presente
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 19/05/2000
 

"Sê o que quiseres, mas procura sê-lo totalmente" (Tomás More)

Hoje é a edição especial do nosso jornal. Por isso, quero abrir esse espaço para dois ipiranguistas especiais, os alfaiates Toninho e Irineu, que aliás dão exemplos de cidadania a cada nova manhã. Um exemplo de verdade, sensatez e simplicidade. Assim, como nós de GI, embora em funções distintas, eles também alinhavaram, com seu trabalho diário e determinado, o Ipiranga que hoje conhecemos. Um bairro que é uma cidade que, em última análise, começa e termina em nós mesmos. Começaram meninos na profissão, assim que saíram do Grupo Escolar já entraram na alfaiataria da rua Lord Cockrane. Na verdade, como era hábito no início dos anos 40. Os pais queriam os garotos fora da algazarra das ruas e encaminhá-los para o aprendizado de um ofício era a solução...

Quem não ia para as alfaiatarias como nós virava ajudante de farmácia, varria o salão de barbeiros, trabalhava no armazém de secos e molhados, na tinturaria... Com 10, 11 anos todo mundo já pegava no batente e se iniciava numa profissão. Era assim que tínhamos o nosso dinheirinho para as matinês de domingo, o baile nos salões da época... Ainda hoje penso que era um bom jeito de levar a vida e dar responsabilidade ao moleque que, assim, não tinha tempo para ficar pensando e fazendo bobagens por ai...

Enquanto Irineu passa com um pesado ferro dos antigos o tecido de uma calça recém-terminada, Toninho recorta um fino tecido azul para um dos 52 ternos que um ilustre cliente encomendou para a dupla. Ele continua a falar em tom pausado de quem vê com naturalidade os dias atuais de tantas esquisitices. -- A gente vai atendendo as encomendas aos poucos. Chegamos cedo, dividimos as tarefas e lá pelas 5 horas da tarde o Irineu vai embora e eu fico aqui até às oito da noite jogando sueca com uns amigos. Tem gente que vem lá de São Bernardo... Gosto de levar a vida assim. Não somos ricos, mas não passamos necessidades. Nunca damos um prazo para entregar o serviço... Quem vem aqui sabe que esse é o nosso jeito e não há como mudar. Fazemos as roupas com gosto. Posso dizer com orgulho que temos encomendas até o próximo século. Posso lhe adiantar também que vamos fechar na semana do ano novo e no Carnaval, e, de resto, estaremos aqui trabalhando e atendendo aos amigos. Nada de diferente nos últimos 47 anos...

Não resisto à tentação da pergunta: Por que não colocam mais gente aqui, compram um maquinário moderno e atendem todos os pedidos no menor prazo de tempo possível? Olha, só desse senhor o quanto vocês não vão faturar... A resposta e a lição: somos felizes assim. Apesar das dificuldades que a vida muitas vezes nos impõe sempre há um amigo por perto... Um rápido olhar sobre a velha alfaiataria de móveis antigos, pesados; pouca iluminação e com o rádio à válvula a tocar música orquestrada dá a sensação de um oásis de tranqüilidade nesse deserto de quereres em que vivemos e onde nos complicamos por um único motivo: o jeito sem jeito de tocar a vida, a qualquer custo... Nesta sexta pela manhã, Irineu e Toninho vão se surpreender ao receber Gazeta do Ipiranga e ver o cotidiano dos dois transformado em crônica. Nada lhes disse sobre a coluna. Foi a forma que encontrei para homenageá-los e também de homenagear os leitores que nos acompanham ao longo dessa jornada. Vale também para mostrar o quanto vocês, leitores, são imprescindíveis e nos ensinam, a cada semana, a verdadeira arte de tecer o presente...

 
 
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