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Título: Das coisas simples, sensatas e sinceras...
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 24/09/2006
 

"Na primeira manhã que te perdi,
acordei mais cansado que sozinho"
Alceu Valença



- Quem?

Eu.

- O quê?

Não sei.

- Como?

Não sei

- Quando?

Também não sei.

- Onde?

No auditório do programa do Jô.

- Por quê?

Por que, o quê? Não faço a menor idéia. Estou me beliscando para ver se é verdade. Recorro ao tradicional esquema do lead (para os leigos, uma explicação: trata-se do primeiro parágrafo dos textos ditos jornalísticos) para ver se entendo o que está acontecendo. O tal do lead resolve tudo, professam em tom cerimonioso nas escolas de jornalismo e mesmo nas redações cada vez mais estressadas.

- Qual é o lead, meu rapaz...Vamos desembucha... O lead, o lead...

Pois é, não tenho lead. Ou qualquer outra explicação. Sei que estou sentado na primeira fila do auditório do programa do Jô Soares. Do meu lado direito, está ninguém menos que o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. Do lado esquerdo, Benjor. Isso mesmo dois caras que eu admiro e ambos, cada qual com sua obra, embalaram os trôpegos passos que dei vida afora.

Mas o que estou fazendo aqui? Será que vou ser entrevistado. Acho que todo mundo, ao assistir o programa do Jô, já pensou nessa possibilidade. Aparecer todo vistoso, bem trajado, para falar com sapiência e bom humor sobre um assunto qualquer na TV. Importante essa história de fazer a platéia rir, divertir-se. Faz parte do script. Deixa a gente com cara de bem resolvido.

É, já passou pela minha cabeça, confesso. Mas, juro, não era nada sério.
Olho para cá, o Cony está na dele. Batuca com os dedos sobre a capa de um exemplar do novo/velho livro A Tarde da Sua Ausência – diga-se de passagem, faz um tempão que anunciaram o lançamento e até hoje nada. Perdi as contas das vezes que entrei na livraria e pedi: “Saiu o novo livro do Cony?”. O vendedor todo sorridente dizia que não e, de quebra, tentava me empurrar um exemplar de auto-ajuda. Pensando melhor, deveria ter aceitado. Hoje teria uma solução para essa enrascada. O Benjor vai lançar um novo cd ou se apresentar numa mega casa de espetáculos das tantas que hoje existem em São Paulo. Pô, o cara tem sessenta e tralalá e está inteiraço. Só para sacanear, acho que vou perguntar quantos anos tem.

Não, melhor, não. Ídolo não tem idade.

Ai, minha Santa Catarina... Melhor sair de fina. Devo ter sentado em lugar errado. Sou desligado. Fui entrando, entrando e nem vi o aviso de reservado. Vou sair daqui, e já.

- Senhor, por favor, volte ao seu lugar. O programa vai começar. Sua entrevista é a primeira.

Moço educado. Só que me deixou mais desesperado. O que estou fazendo aqui? Vou falar sobre o quê? Sobre o livro que não escrevi. Ou que desafino até para respirar. Sobre a revolução que não fiz. O gol que não marquei.

E se me confundiram com algum gringo – e o Jô, que fala não sei quantos idiomas, danar-se no inglês, alemão, francês...

O vexame vai ser tamanho que nunca mais saio de casa. Estou até vendo. O auditório explode em gargalhadas e ele aproveita para zoar ainda mais.

- Quer dizer que o senhor veio ser entrevistado, é? Willi, põe o homem no telão. O pessoal precisa ver a expressão de espanto do nosso emérito bicão. Como você chegou aqui?

Se eu tentar explicar o inexplicável vai ser tragicômico. Ai, olha eu nas TVs do estúdio (estão testando a aparelhagem). Até que esse terno escuro combina perfeitamente com a camisa azul. Bem que minhas irmãs diziam que qualquer trapinho em mim fica bem. Ops, ficou escuro, a música começou, é agora... Luzes no Jô que aparece lá do outro lado do palco (ao menos, está longe de mim), com uma cornetinha na mão. Vem dançando. Hum, não sei, não, esse Jô. Olha, o absurdo que estou dizendo. Deixa de ser preconceituoso, Rodolfo. Olha a confusão em que se meteu, cara.

- Boa Noiteeeeeeeee! Um beijo do gordo!

...

Como assim? O que foi. O que estou fazendo? Outra vez, não. Dormi com a televisão ligada. É dia claro. 26 de junho de 2003. Depois de 24 anos, é a primeira vez que acordo numa quinta sem o compromisso de escrever a coluna Caro Leitor para o jornal Gazeta do Ipiranga. Lembro que, quando meu filho nasceu, era quinta-feira também. 20 de março de 1980. Antes de seguir para a maternidade, ainda alinhavei a coluna daquela semana. Outra quinta, 2 de setembro de 1999, não consegui escrever. Estava no velório do meu pai, o velho Aldo. Hoje, não estou triste, nem feliz.

Talvez fosse esse o motivo da entrevista do Jô, quer dizer do sonho. Não teria muito a dizer. Ou teria? Apenas que aprendi nesse tempo todo a respeitar, cada vez mais, quem está aí, do outro lado, com olhos pregados no papel. É para você que agora escrevo, via telinha, nesse novo ponto de encontro, a coluna Parangolés. Não há uma linha editorial definida. Como disse lá em cima, são histórias que cismei de contar - vividas, observadas, ouvidas, imaginadas, pressentidas, requentadas, pensadas e criadas a partir de um olhar, de uma emoção. Até mesmo de uma invencionice qualquer. Quero apenas que me leiam e se entendam. Ou vice-versa. Prefiro as coisas simples, sensatas e sinceras.

Taí. Gostei. Ficou legal. Um tanto formal, parece ensaiado. Mas, é verdadeiro. Já sei. Vou dormir de novo. Quem sabe não dá tempo de aparecer no programa de hoje...

* (Escrito em 27/06/2003)

 
 
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