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Título: Para reverenciar Herzog e rever os limites do ensino de jornalismo
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 25/10/2005
 

-- Então, naquele tempo, a União Soviética...
-- Conclua, meu queridíssimo Duque, conclua...
-- Mas, estou respondendo, a pergunta da estudante, Mino...
-- Sim, mas faz meia-hora...E ela só lhe pediu uma orientação de como enfrentar o mercado de trabalho e olha onde você já está, na Rússia...


Os amigos e jornalistas, Mino Carta e Duque Estrada, riram do inusitado da situação. Afinal, não estavam na mesa de um restaurante – para eles, o lugar ideal para finalizar a noite – ou mesmo nas dependências da revista Carta Capital, onde trabalham desde 1994. Eram, sim, o centro das atenções de centenas de jovens estudantes que se reuniram, no auditório Sigma do campus Rudge Ramos, para participar da primeira noite de palestras da IV Semana de Jornalismo, promovida pela Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo.
O tom politicamente correto e cerimonioso, habitual desses encontros em universidades, resistiu apenas alguns minutos às ironias de Mino e à retórica de Duque. Com a verve dos velhos jornalistas, que adoravam uma polêmica, ambos transportaram para o palco do Sigma as acaloradas – e deliciosas – discussões típicas das redações dos anos 70. Àquela época, mais do que colegas de trabalho, os jornalistas eram amigos. E, se me permitem registrar, os sonhos de salvar o mundo flanavam, soltos e vivos, por aquelas paragens esfumaçadas tendo como trilha sonora, para o inevitável debate de todo o dia, o batucar irritadiço das máquinas de escrever.
Ao fim do encontro, lá se foram Mino e Duque para um restaurante em São Paulo. Já à entrada do táxi começavam outra polêmica: o presidente Ernesto Geisel teria colocado o cargo à disposição dos seus pares, os militares, durante o episódio Vladimir Herzog?
-- Só você acredita nisso, Duque. O Geisel renunciar, ora...
-- Mas eu tenho informações seguras, Mino...

*

A bem da verdade, este era um dos propósitos da Semana de Jornalismo. Trazer para a Academia um pouco da história do jornalismo brasileiros nos últimos 30 anos. Não por outro motivo, a Semana reverenciou a memória do jornalista Wladimir Herzog, assassinado pela ditadura em 25 de outubro de 1975.
A partir desta singela homenagem – que acabou por involuntariamente inaugurar um ciclo de eventos que lembraram o jornalista, às vésperas dos 30 anos de seu trágico desaparecimento --, a proposta da Semana completou-se com a discussão de uma temática que propunha ir ampliar os limites do ensino de jornalismo.
Muito além dos planos educacionais e da adjetivação que hoje caracteriza “o novo jornalismo” de novo -- literário, investigativo, institucional etc etc --, a proposta queria, sim, revelar quem eram os jornalistas daquele período, quais os sonhos, as propostas profissionais e de vida? E quem somos hoje, nós, jornalistas? Os caminhos que percorremos e que temos a percorrer? Quais os nossos compromissos, as conquistas, as derrotas, os projetos individuais e coletivos? Ainda somos uma categoria profissional? O quanto de sonhos resta em nosso alforje de historiador do cotidiano?
Para jogar luz sobre essas questões, a Fajorp convidou doze jornalistas que se revezaram durante três dias – 20, 21 e 22 de setembro – em nove palestras e uma oficina. No momento em que o País vive outra de suas crises políticas e institucionais, quando o desalento grassa em todas as áreas, não seria exagerado dizer que o encontro resgatou – ao menos para aquela platéia de futuros jornalistas -- um bom naco das esperanças perdidas em âmbito profissional. Diria mais: ficou claro que a avenida entre mercado de trabalho e universidade precisa mesmo ter mão dupla, em que todos os interessados possam trafegar harmoniosa e decisivamente em nome da cidadania e de uma sociedade mais justa e contemporânea.
*

Uma significativa parcela de tudo o que aconteceu na Semana estamos registrando agora nesta edição do XXXXXXX, graças a uma parceria entre Fajorp e Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (é isto???). A publicação, feita pelos alunos de jornalismo da Metodista, traz a participação dos jornalistas convidados, a história de vida de Wlado e
Os XXX anos de atuação do Sindicato em defesa do direito dos trabalhadores e pela redemocratização do País.
Mais do que um referendo de fatos históricos, vitórias ou de discussões etéreas, creio que o resultado final, tanto da Semana como deste jornal, é o desafio de continuarmos atentos na defesa de um Brasil verdadeiramente de todos os brasileiros – desafio este que passa, inevitavelmente, por diversos caminhos, mas tem no jornalismo um de seus pilares de sustentação.
Tudo ainda estar por ser feito, por ser conquistado. Se vale uma acertiva, fiquemos pois com a do repórter José Hamilton Ribeiro, outro ilustre participante do encontro. Do alto de seus 50 anos de reportagens, deixou um recado final para os estudantes e, de quebra, para todos nós: “As únicas certezas que tenho na vida são: primeiro, que a azeitona escura é tingida. Segundo, que geralmente a torneira da esquerda é a que tem água quente. De resto, minha gente, é preciso apurar”.


* Herzog Especial - Suplemento especial editado pela Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universida Metodista de São Paulo. (Texto de apresentação)

 
 
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