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Título: Eu era feliz e não sabia...
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 28/01/2007
 

É gostosamente difícil permanecer concentrado no trabalho mais do que alguns instantes nessas tardes de sol.

Creio que, como eu, você também, amigo leitor, já se surpreendeu a olhar o horizonte por mais cinzento que seja, com pensamento a viajar por plagas nem nunca dantes imaginadas pelo seu imediatamente superior chefe. Na mesa ao lado, ele esbraveja e nada entre ondas e rodamoinhos de papéis a despachar.

E resmunga e bufa e tem piripaques...

II.

Mal sabe ele que você agora invade o túnel do tempo e aporta num ancoradouro do lago de águas então serenas do Parque da Aclimação. Calça rancheira Far West (calção por baixo, para eventuais mergulhos), conga azulzinho e camisa esgarçada, pronto para o que der e vier. A aula no Grupo Escolar Oscar Thompson já ficou para trás (pela manhã, o tempo passa mais rápido), almoço bom e agora só espera chegar o resto do pessoal para um "racha" no barrancão.

Alguém falou que o Orelhano tem uma bola de capotão. Um luxo inimaginável para a garotada pobre da Muniz de Souza e arredores. Três times, no mínimo. Quem ganha, fica. Quem perde, espera vez.

É preciso sorte para cair no melhor time e jogar até se estourar. Todo mundo descalço, não há "tampa" de dedão que resista intacta, ralando até escurecer... Ô jeito bom de levar a vida...

III.

À noite, banho tomado, roupa limpinha, era hora de ficar perambulando pelas ruas, de tênue iluminação. Ouvir o Bilex contar os causos que na hora inventava e nos transformava em super-heróis, capazes de proezas e feitos mirabolantes.

Melhor: podíamos escolher a própria namorada que, nesses enredos fantasiosos, era apaixonada por aquele que primeiro falasse seu nome. "Eu quero a Lígia" - gritavamos quase ao mesmo tempo.

Cabia a imponderável jurisprudência do Bilex a sentença final: a quem pertenceria a bela Lígia naquela noite.

IV.

Pura imaginação...

Nunca sentimos sequer o perfume infanto-juvenil da menina que aprendia piano com a professora Antonia e, aos domingos, suprema magia, dançava no programa da TV Record, Grande Gincana Kibon.

E a mais triste das tristezas: ela, aos 11 anos, namorava -- e de verdade, aos beijos sugados que nos matavam de inveja -- o Dalton, de 16. O que para nós que mal tínhamos feito 12 era o absurdo dos absurdos.

V.

Mas, nem por isso sofríamos.

Havia sempre uma venturosa aventura a ser vivida na próxima esquina. Podia ser a estrepitosa estréia do filme Help dos Beatles no cine Riviera. Ou mesmo os empolgantes "pegas" de carrinho de rolemã, ladeira abaixo na Dom Duarte Leopoldo. Alguns preferiam as intermináveis "família" na mesa de ping-pong (acho que tênis de mesa não existia) na sede do glorioso Santos Futebol Clube do Cambuci.

Outra alternativa – para dias de bobeira generalizada - era ir a pé até a Praça da Sé, cabeça baixa a procurar carteira de cigarros estrangeiras. Malboro, Lucky Strike, Chesterfield, Camelot, Parlyament, Pall Mall eram raridades disputadíssimas por nossos atentos e sonhadores olhares.

VI.

Particularmente, gostava de ficar nas proximidades do Malocão da Muniz de Souza. Era ali que, duas ou três vezes por semana (domingo era certeza), os batuqueiros da Império do Cambuci reuniam-se para cantar velhos e inesquecíveis sambas de Ataulfo Alves e outros autores da mesma estirpe.

Faziam um baticum mais cadenciado que sei lá por onde e porque tocava fundo minhalma e coração. Havia um encanto, algo acima do bem ou do mal, acima dos Beatles ou dos emergentes Rolling Stones.

Foi por essa época que, pela primeira vez, senti a garganta embargada por um nó ao ouvir uma canção dolente que levou às lágrimas o vô Carlito, aposentado da seção de chapelaria do Ramenzzoni.

Os versos falavam em "jogo de botão pela calçada" e numa pungente saudade da professorinha que lhe "ensinou o bê-á-bá". Só hoje, quase quase meio século depois, sou capaz de entender a genialidade do velho Ataúlfo ao lembrar de sua infância na pequenina Miraí.

"Eu era feliz e não sabia..."

[Texto publicado no livro “Volteios - Crônicas, lembranças e devaneios"]

 
 
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