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Título: Você já leu este homem
Autor: Rodolfo C. Martino e Clovis Naconecy - publicado em 28/01/1978
 

Na opinião do publicitário Neil Ferreira, ele é um dos mais lúcidos cérebros de nosso tempo. Para os jornalistas em geral, ele faz parte de uma seleta casta de homens de imprensa que, ao lado do trabalho sério, procuram avidamente o novo, a criação. Sem se satisfazer com o pré-estabelecido, de forma alguma.

Para o público em geral, no entanto, ele é apenas um nome a mais, sem muito significado. (Isso faz parte de sua filosofia: o fato deve ser conhecido, não o jornalista). Com certeza, vocês já devem ter lido algo transcrito por sua Olivetti. Nas páginas da Quatro Rodas, do Jornal da Tarde, da Veja ou da Isto é. Foi ele quem as criou.

Os repórteres Clovis Naconecy de Souza e Rodolfo Carlos Martino, do Jornal da Mooca, conversaram durante uma hora e meia com esse pioneiro das rotativas. Esse papo, que por razões de espaço continuará no próximo número, merece ser lido:


JM – Como surgiu seu interesse por jornalismo e por quê?

Mino- Meu pai era jornalista, e eu comecei logo a ouvir a conversa em torno de jornalismo. Naturalmente porque os jornalistas costumam muito conversar sobre a atividade, talvez mais do que outros profissionais. Eu comecei desde menino a ouvir falar de jornalismo, fato este aliás que me levou inicialmente a pensar que eu jamais seria jornalista, eu não queria ser jornalista. De mais a mais, impressionado pelas brigas que caracterizavam a vida familiar, nas quais a minha mãe recriminava o meu pai pelos horários malucos que tinha, voltas para casa de madrugada, etc, etc, etc. E eu no fundo, no fundo, teria desejado uma vida mais mansa do que meu pai, de tal sorte que o meu começo é realmente de pensamentos voltados para outra atividade que não o jornalismo. Depois, por volta de 1950, quando eu tinha 15 anos, aconteceu no Brasil o campeonato mundial de futebol, e eu tive a chance de entrar numa equipe que ia cobrir este campeonato. Entrei nela fascinado pela perspectiva de ganhar algum dinheiro. Ai, logo surgiram possibilidades de colaboração em alguns jornais e revistas, sempre em função da perspectiva de ganhar algum dinheiro, sendo que eu, afoito e infeliz, evidentemente pretendia casar-me cedo (idéias malucas típicas da juventude de vinte ou trinta anos atrás) aí eu comecei a topar essas colaborações e coisa e tal. Aos poucos, eu fui deslizando para a profissão. Lá pelos 18, 19 anos já estava trabalhando com jornalismo.

JM – Qual sua conceituação de jornalismo moderno?

MC – Eu não acredito que exista, ah, eu tenho certa implicância com a palavra moderna porque não sei precisamente o que significa. Acho que jornalismo é um fenômeno sociológico, como enfim todas as manifestações humanas. Ele corresponde a um estágio cultural, é técnico num determinado momento, num determinado país. Eu acho que a gente está praticando um jornalismo atualizado – não chegamos ainda aos níveis de tecnologia aplicada ao jornalismo que os norte-americanos atingiram por exemplo; mesmo em relação a Europa talvez estejamos um pouco atrasado tecnicamente, mas no fundo, no fundo, estamos vivendo no nosso tempo , em termos técnicos. Os nossos problemas são de outro gênero, são problemas políticos e limitações políticas. São os mesmos problemas que, de uma forma ou de outra, assoberbam este país hoje.

JM – Cada lançamento lhe revele suma carga inovadora, seja na apresentação da notícia, ou na maneira de se expor o conteúdo. O moderno foi colocado nesse sentido?

MC – Olha, eu não sei. Acho que tive sorte de não cair jamais dentro do tédio na profissão, porque desde 1960 eu sou chamado a dirigir equipes que vão criar um órgão de imprensa novo, quer dizer, não me ocorreu de ter que dirigir alguma coisa que já existisse antes de mim. Sempre dirigi órgãos que não existiam antes de mim e, portanto, tinham de ser criados. Por isso, eu repito: é uma sorte. As circunstancias da vida fizeram com que isso acontecesse. Isso naturalmente, em todas as ocasiões, desde 1960 quando eu fui chamado para dirigir uma revista que se chamaria 4 rodas. Depois, em 1964, quando fui chamado para dirigir a Edição de Esportes de O Estado. Em 1966, quando dirigi a equipe lançadora da revista Veja, e agora na Isto É eu sempre fui espicaçado por uma situação nova, por algo que tinha que ser criado. Isto, acredito, deve ser muito estimulante. Então você, efetivamente, tem de necessariamente sair com uma fórmula diferente. Veja o caso de Isto É que é muito exemplar e sintomático. Eu dirigi a primeira equipe de Veja. Na Editora Abril eu tinha recebido a incumbência de fazer uma revista que se inspirasse num modelo norte-americano de revista semanal de informação. Aludo, evidentemente ao Time e ao Newsweek. A idéia de revista semanal é realmente fascinante. Então, quando eu acabei de sair de Veja, eu levei comigo esta idéia – fazer outra revista semanal de informação. Evidentemente, não poderia fazer algo igual à Veja por uma série de infindável de razões. Embora ficando dentro dos limites da revista semanal de informações, eu teria – eu e a equipe que dirijo – nós teríamos de criar uma revista nova, uma forma nova – se quiséssemos vingar. Então, digamos, Isto É é diferente realmente de Veja, mas isso em função da necessidade de sobrevivência.

JM – Dessas experiências com o Jornal da Tarde, com a Veja, agora com a Isto É, qual foi a mais compensadora?

MC - No Jornal da Tarde eu tenho uma autonomia técnica total, uma autonomia política mínima – praticamente nada. Então acho que o Jornal da Tarde, de alguma forma, exprime o meu tempo. Eu diria que exprime até hoje esta situação. Eu acho que o Jornal da Tarde foi inovador em termos de forma. Então eu acredito que ele tenha inovado do ponto de vista da paginação, do ponto de vista da forma do texto. Agora, em termos de conteúdo, o Jornal da Tarde não difere do Estadão, a linha política do Jornal é a mesma. No caso da Veja, eu recebi uma autonomia tecnicamente menor no sentido de que eu tinha que seguir um modelo pré-estabelecido que é o modelo norte-americano da revista semanal de informação, que era o pedido expresso, desejo deliberado da empresa – porém tinha uma autonomia politicamente ilimitada, então isso me levou a cuidar mais do conteúdo da Revista Veja do que da forma embora ela possa ter tido também experiências formais interessantes. Então a experiência com o Jornal da Tarde foi boa mas de alguma forma mais limitada do que a experiência em Veja, que em outros jornais o conteúdo é mais importante do que a forma. Agora, eu diria que a experiência de longe mais interessante é de Isto É. Não digo porque estou fazendo no momento, estou vivendo esta experiência. Eu falo realmente no caso de termos objetivos, a experiência que me custa muito mais esforço, somos uma equipe mínima e trabalha-se brutalmente. Aqui estou trabalhando mais do que em Veja , mais do que no Jornal da Tarde. Tive que dar uma dedicação a Isto É muito maior.

Ocorre porém que Isto É tem a enorme vantagem de ser uma revista nossa. Pela primeira vez na minha vida profissional eu não tenho um dono. Então, realmente eu não tenho de dar satisfações a ninguém. A única satisfação que temos de dar é a nossa consciência. Isso num ponto de vista. Num outro ponto de vista, o que nós estamos fazendo, e eu não tenho a menor dúvida de isso acabará aparecendo com clareza rigorosamente solar, estamos fazendo uma revista de informação brasileira, no sentido de que embora haja um modelo que é a revista semanal de informação, estamos fazendo uma coisa que não tem semelhança com nada. A revista Veja é uma mistura de Time com Newsweek, adaptadas às condições brasileiras, falando com grande destaque evidentemente da nossa situação.

Mas ela é rigorosamente uma cópia, talvez bem feita, da Time e de Newsweek. Uma mistura. Graficamente, ela é igual a Newsweek.Você praticamente não vê diferenças. E em termos de texto ela realmente acompanha essa idéia americana de que o texto de ser pasteurizado, ele tem que parecer ser escrito pela mesma pessoa de fio a pavio. A primeira à última nota, com exceções talvez do Millor Fernandes ou dos críticos de arte, literatura, etc e tal que assinala as matérias. O resto parece escrito e tem de parecer escrito – esse é o propósito – pela mesma pessoa. Nós estamos fazendo uma revista que não se compara a nenhuma, pode ser melhor ou pior, mas ela é realmente uma experiência nossa, e portanto brasileira. Em termos formais, todas as matérias assinadas, cada um tem seu estilo, cada um tem sua opinião, e tem direito a ela inclusive em termos de conteúdo.

JM – No início existiram críticas à Isto É mensal, identificando semelhanças com a Esquire americana. Houve procedência?

MC- Realmente, Isto É mensal era muito menos independente com relação a modelos já consagrados do que Isto É semanal. Mas isso é normal. Nós achamos que convinha antes fazer uma experiência mensal por uma série longa de razões. E a mensal, no fundo estava mais ligadas a alguns modelos, não apenas a Esquire que já tem larga aceitação em muitos países do que a Isto É semanal.
A Isto É semanal realmente é muito difícil de se comparar a algo que já existe. Talvez você possa, de alguma forma, encontrar algum parentesco mais com revistas européias que com revistas americanas.

JM – Onde se difere os objetivos da Isto é mensal e da semanal?

MC- Eu acho que os objetivos de uma revista se dividem basicamente em duas áreas. Há os objetivos políticos, que levam em conta, o propósito de contribuir para um esclarecimento da opinião pública. O outro objetivo diz respeito à necessidade de se sobreviver, tornar o negócio rentável. Pelo menos, de equilibra-lo. Agora, para nós a Isto É semanal é muito mais satisfatória exatamente porque ela pode mais rapidamente realizar os seus objetivos do que a mensal , lógico. Agora, aí, sei lá, tem um papo sobre qual é função do jornalismo. Eu acho que a função primeira do jornalismo – existem aí algumas definições que o jornalismo deve informar e formar ou informar formando, estas coisas, claro, são mais ou menos óbvias. Eu diria que o fundamental na tarefa jornalística é exercer realmente um papel crítico e fiscalizador. Isso, para mim, é a base de tudo. E nesse sentido, realmente, prestar um esclarecimento vital à opinião pública e contribuir para que a verdade seja preservada. Aí talvez a gente acabe enveredando pela filosofia, uma discussão em torno do é a verdade. É uma discussão complexa.

JM- Como conseguiu montar a equipe que hoje forma a Isto é? São somente, digamos assim, dissidentes da Veja?

MC – Bem, há aqui várias pessoas que saíram da Veja no mesmo momento em que eu sai; em sinal de protesto contra uma prepotência que estava sendo praticada contra minha pessoa. É verdade que fui colocado numa situação... fui chamado pelos donos da casa para demitir Plínio Marcos. Eu não quis demitir Plínio Marcos, e...

(Continua no próximo número)



* texto publicado no Jornal da Mooca

 
 
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