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Título: Você já leu este homem (Parte 2)
Autor: Rodolfo C. Martino e Clovis Naconecy - publicado em 18/02/1978
 

Neste número, a segunda e última parte da entrevista de Mino Carta ao Jornal da Mooca, em que o idealizador do Jornal da Tarde, Quatro Rodas, Veja e Isto É, expõe seus pensamentos e opiniões que espelham nitidamente o momento atual. O bate-papo recomeça no instante em que Mino Carta completava a pergunta sobre formação da equipe que hoje forma Isto É e explicava a sua saída da revista Veja.

MC – É verdade que fui colocado numa situação... fui chamado pelos donos da casa para demitir Plínio Marcos, e acabei saindo com ele, evidentemente. É claro que a empresa para qual eu tinha trabalhado antes – na “4 Rodas” por quatro anos e depois na “Veja” por oito anos – sabia perfeitamente qual seria minha reação. Conhecia-me suficientemente para saber qual seria minha reação. Na verdade, se tratou de uma manobra que a empresa urdiu para me forçar a sair, acreditando com isso salvar as aparências. Quer dizer, eu saía porque queria sair. Na verdade, estavam cedendo às pressões que vinham de cima, porque a revista estava censurada e a minha presença lá era digamos assim, uma garantia de que a censura continuaria. Quando saí, a censura saiu. Então, eles prefiram a revista sem censura. A redação portou-se mal, evidentemente.

JM – Por quê?

MC – Não porque as pessoas tenham ficado em seus lugares. Enfim, há pressões financeiras, problemas econômicos; têm filhos, mulher; têm famílias para serem sustentadas, etc, etc, etc. Nem eu poderia, ao sair da “Veja”, oferecer emprego para todo mundo. Agora, a redação cedeu miseravelmente. É um episódio lamentável que se encaixa no quadro de um país que vive uma hora lamentável, um país amedrontado, assustado. Alguns, porém, saíram. Por mais incerto que poderia parecer o futuro naquele momento, eles acharam que a dignidade do homem está acima de todas as coisas. Então saíram comigo. E os que saíram comigo estão comigo.

JM – Apesar de distintos entre si, percebe-se, o estilo de cada redator redigir as matérias parece seguir a mesma linha de orientação. Seria alguma imposição de cima para baixo na feitura das matérias de “Isto É”?

MC – Evidentemente há alguns denominadores comuns. Há um entendimento de base em torno de algumas idéias. Há também uma preocupação nossa de dizer as coisas mais claramente do que dizíamos em “Veja”. Também, com alguma justificativa, pois em “Veja” tínhamos censura, etc e tal. Havia necessidade de partir às vezes para uma linguagem, por vezes, mais contorcida, mais trabalhada, mais difícil. E aqui realmente nós temos essa preocupação de dizer coisas mais diretamente. Não sei se chegamos ainda num ponto certo, eu acho que precisamos trabalhar muito. A revista pode melhorar bastante, eu espero que a gente sempre ache que não chegamos ao ponto ideal ou num ponto que poderíamos julgar como bastante bom. Estamos a caminho. Existe uma preocupação de dizer as coisas mais claramente, mais diretamente. Por outro lado, as idéias que a gente tem são parecidas, ao menos têm um pequeno de idéias comuns. Donde evidentemente essa impressão de que há uma certa unidade. De outro modo, um debate absolutamente díspar dentro da revista talvez acabasse por confundir os leitores. O mínimo de entendimento entre as pessoas que fazem uma revista é importante: é um órgão de imprensa, é fundamental.

JM – Quer dizer que, no caso, a “Isto É” nunca sofreu qualquer censura prévia? Se quando na “Veja”, Mino Carta era muito visado, na “Isto É”...

MC - As situações são muito diferentes, e de alguma forma, evoluíram. Eu não sou, evidentemente, um subversivo. Sou uma pessoa que tenta defender algumas idéias nas quais acredito. E que resiste contra idéias que lhe parecem ruins. A censura prévia se instalou em “Veja” no tempo do governo Médici. O governo Geisel herdou essa situação. Agora, a censura lá pelas tantas saiu de “Estado”, do “Pasquim”, tanto quanto saiu da revista “Veja” e não voltou. Hoje realmente não faria sentido visar a revista “Isto É” isoladamente. Acho que isto é, inclusive, um crédito que tem de ser reconhecido ao governo Geisel. A censura à imprensa acabou. Existe apenas em alguns órgãos. Realmente, lá permanece. Mas, de um modo geral não existe. Não se pode dizer que existia censura à imprensa – falo da imprensa escrita, evidentemente, por que ela existe em rádio e televisão – num país onde apenas três órgãos, um deles o jornal do cardeal (“O São Paulo”), outro é a “Tribuna da Imprensa”, o terceiro é o “Movimento”. Pode-se dizer que existia, existindo apenas em três órgãos? Claro, existe. Mas é muito isolada e não chega – me parece – a abalar o quadro em relação à grande imprensa e tal. Há o problema da autocensura, e pode ser até gravíssimo. Enfim, nós não fazemos autocensura. Ou pelo menos não fazemos mais do que faríamos em qualquer circunstância como todos nós fazemos de resto em nossa vida cotidiana. Eu, nas relações com minha mãe, faço muito autocensura.

JM – Como é feita, em linhas gerais, a revista “Isto É”?

MC – É muito trabalho. A equipe é pequena. Trabalha-se muito, varam-se noites. Hoje (N. da R.:dia posterior ao do fechamento) eu saí daqui às onze da manhã, voltei quando vocês me viram (N. da R.: por volta das seis da tarde). A revista fecha na noite de sexta, vai para as bancas em São Paulo no sábado. No momento, está circulando no resto do país às segundas. Mas há planos, para um curtíssimo espaço de tempo, de circularmos já no domingo nas capitais brasileiras. Em Brasília talvez passemos a circular ainda no sábado.

JM – Vocês, com esta reduzida equipe, não podem dedicar-se à especialização editorial, isto é, um redator que hoje escreve sobre música, amanhã pode incursar, por exemplo, na política...?

MC – Claro, é o estilo holandês. É o futebol holandês. Todo mundo em todas as posições pra correr atrás da bola, em bloco.

JM – Qual a distinção fundamental entre jornalista repórter, redator? Qual deveria ser a postura de um reporte?

MC – Isso é outro fato complexo. No Brasil, a profissão de repórter foi muito ocultada. É verdade! Nas redações, há uma casta de cultores da língua: editores, redatores, que são os donos das palavras. O verdadeiro “stablishment” das redações dos jornais. Quanto ao repórter, nesta visão, seria um pesquisador, um relator. Se você aceita esse esquema, a preocupação de textos não deve existir para o repórter. A “Isto É” realmente pretende, gostaria de reabilitar o repórter, a partir da idéia de que todo o jornalista é um repórter. Então, há uma tentativa de se reabilitar esse repórter vilipendiado, humilhado. Se aceitarmos então que todo jornalista é um repórter, eu diria que o primeiro problema é o da compostura moral, antes de qualquer outro. Supõe-se que ele seja uma pessoa talentosa, como algumas que fazem jornalismo, e devidamente equipado tecnicamente. Então, eu diria que, a primeira preocupação deveria ser a compostura moral. Quer dizer que está contando a verdade irremediável, definitiva. Porque realmente não há mesmo jornalismo objetivo. E acho que a pessoa exprime até mesmo na colocação da pontuação sua formação, seu modo de vida, seus problemas pessoais, suas leituras... Mas, ao mesmo tempo, ela deve ser rigorosamente honesta ao fornecer suas informações. Deve contar exatamente o que viu, como viu. Quero dizer, que esse é o ponto: nenhuma pretensão de objetividade. E a definitiva disposição para a honestidade. Em primeiro lugar, a questão moral. Agora, em termos de texto, acho que realmente o texto, quer dizer, a forma está sempre a serviço da informação. Em jornalismo, o importante não é escrever bem, é realmente a capacidade de se transmitir a informação com clareza e de uma forma acessível ao público ao qual a informação se destina. Claro que não se deve partir da idéia de que o público é idiota. Esse também é um dos enganos, ao meu ver, cometidos pelo jornalismo brasileiro. Sendo que o público é idiota, então vamos baixar o nível. Eu acho que o público não é idiota. Portanto, deve-se sempre partir de um nível razoável e tentar prezar os leitores para trazer o melhor a eles.

JM – Você tem conhecimento de jornais de bairro?

MC – Olha, só tenho visto esse de Pinheiros. “Gazeta de Pinheiros”, né? Conheço e acho um filão muito interessante. Muito bom. Realmente, um caminho muito bom esse do jornal de bairro, Aliás, por enquanto só existe em São Paulo, não é? Mas é um caminho interessante para imprensa. Contribui para a permanência da imprensa escrita. Mas, confesso que nunca parei para pensar como seria o jornal de bairro se fosse chamado para fazer um. Acredito que isso dependa um pouco do bairro. Eu adoro a Mooca, é um dos melhores bairros da cidade.

JM – Sobre a viabilidade de um novo veículo...

MC – Evidentemente todo e qualquer empreendimento tem que ter garantia da sobrevivência, né? Tem que ter a garantia de que o negócio poderá ser rentável. Caso contrario, não dá para fazer.

JM – Que problemas um jornal de bairro teria que enfrentar?

MC – Acho que o problema do jornal de bairro não deve ser diferente do problema de qualquer jornal. Você reduz simplesmente a área de atuação. Sua hegemonia de vôo é teoricamente menor do que a de um jornal como “ O Estado”, um jornal do estado, do país. Quanto ao jornal da cidade, acredito que no fundo, no fundo, é o “Jornal da Tarde”. São as duas maiores tiragens da cidade. Não sei, depende do bairro né?

JM – O que faria se fosse chamado a criar um jornal na Mooca?

MC – Para o bairro da Mooca, creio que alguma coisa mais aberta seria interessante. A composição socioeconômica da Mooca deve ser muito diversificada, né? No fundo, deve haver uma representação razoável de vários segmentos sociais. Então, em vista disso, me parece, que uma abertura para um noticiário mais geral, mais diversificado, não se prendendo apenas às informações locais, seria mais razoável, mais conveniente. A partir dessa linha você pode fazer realmente um bom jornal, trabalhando inclusive com informações inéditas para os leitores.

JM – Então não deveria se restringir somente a notícias locais?

MC – Uma coisa aberta. Teoricamente, é isso aí. Como leitor, confesso, detesto notícias locais. Mas você pode extrair mesmo delas reportagens interessantes. Que valham a pena. Depois, me parece que foi Shakespeare quem disse – hoje Plínio Marcos repete de quando em vez: “ para conhecer o mundo basta contar a história da sua aldeia”.

* texto publicado no Jornal da Mooca

 
 
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