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Título: A camisa do Faustão (íntegra)
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 22/10/2007
 

Que roubada, companheiros!

Como pude lembrar dessa história cabeluda?

Passei quinze anos tentando apagá-la da minha memória - quase consegui. Mas, agora estou prestes a registrá-la aqui e em outras memórias, a de vocês, a do computador e consequentemente na do Planeta, do Cosmo...

Ironia das ironias. Porém, não tem como não escrever.

Antes, porém, quero deixar bem claro.

Se acaso não gostarem, devo informar que a culpa, meus senhores, – toda ela, aliás – é da camisa que Faustão usou no Domingão que passou.

Ô loco, meu!

Quem viu, há de se lembrar.

Para quem não teve o privilégio, vou tentar descrever a obra. Mas, sei que ficarei bem distante da perfeição. Era toda ela em tom marinho fosco – gostaram? Com leves arabescos coloridos, em verde, vermelho quase vinho e derivações alaranjadas. Não dá para confiar na minha TV que não é lá essas coisas e já tem um tempinho. Mas, eu diria, sem medo de errar, que algum sofá foi esfolado lá pelas imediações da seção de Figurino da Globo.

Coisas que acontecem...

Por certo, a criação não passou pela consultoria de Glorinha Kalil, aquela moça que fala de moda e elegância no Fantástico. Também não tenho certeza, por isso não posso afirmar, se o apresentador aceitou de primeira. Ou se alguém o convenceu ao lhe confindenciar que, se usasse a dita-cuja, ele também se sentiria “uma grande figura humana, meu”.

O atento leitor deve estar se perguntando – se é que já não desistiu de ler esse post besteirol – que caramba eu vi naquela camisa bizarra? No mínimo, de gosto duvidoso...

Sinceramente?

Também me faço a pergunta, e com um temor maior. Pois prezo minha ilibada reputação e aclamada elegância. Mas, mesmo correndo todos os riscos de perdê-las, sou obrigado a confessar.

O motivo é simples.

Eu tive uma camisa igual aquela. Talvez até um pouquinho mais espalhafatosa, pois a dele é de manga longa. A minha – ai, ai, ai – era de manga ¾. Ou seja, as mangas terminavam uns três ou quatro centímetros abaixo do cotovelo.

Não riam, por favor.

Não riam...

É sério, gente.

Pois eu a achava linda. Diferentaça. Tanto que não tive dúvidas em vesti-la num dia em que – vejam o que é a vida, o que são as coincidências – num dia em que apareci em frente às câmeras de TV em um programa de auditório.

Não criem expectativas exageradas.

II.

Bem, aviso logo: não sei se conseguirei terminarn neste capítulo o que tenho para lhes contar. A cada momento, outros lances da história – igualmente bizarros – me vêm à mente. Por isso, é melhor começar do começo...

E o começo se deu numa dessas tardes outonais de abril de 1992. A combativa redação de Gazeta do Ipiranga trabalhava na edição especial de 35º aniversário do jornal. Estávamos todos lá no risque e rabisque das páginas quando alguém que não lembro quem entrou e sutilmente anunciou.

-- Pessoal, tem uma ‘bucha’ para vocês.

Grande novidade. Nas boas redações que se prezam, todo dia é dia de ‘bucha’, de diferentes portes e calibres. Por isso, demos de ombro. E novo alerta ressoou em tom de fiquem esperto.

-- Pessoal, tem uma ‘bucha’ aí, gente...

Um dos nossos respondeu por responder.

-- Então, desembucha, cara.

Ele desembuchou.

-- Chegou um convite para participarmos do Programa do Záccaro. Vão fazer uma homenagem ao jornal. Alguém da Redação vai ter que representar a empresa.

Foi como se alguém da Tropa de Elite tivesse dado a ordem de dispersar. Cada repórter, diagramador, fotógrafo foi para um lado como se não fosse com eles. De repente, olhei a movimentação e, da minha mesa, incauto, perguntei:

-- O que foi?

Não deu outra. O arauto das boas novas foi econômico nos gestos e nas palavras.

-- É pra você.

E me entregou um fax com o convite/intimação. Deveria estar numa manhã daquelas, no Teatro Záccaro, às 9 da manhã, para participar das gravações do programa que iria ao ar no dia 26 de abril – data precisa dos 35 anos de GI.

-- Parabéns a você, nesta data querida...

Era o pessoal da redação que voltava rindo, aliviado, para os seus afazeres.

Voltavam cantando para debochar do otário da vez.

Só aí me dei conta de que havia entrado pelo cano.

Mesmo assim, não perdi a pose. Sorri sem graça e sacramentei para todos ouvirem, como se não estivesse nem aí. Tiraria de letra.

-- Até que não é tão ruim, disse.

Mas, ninguém acreditou.

Mal sabia eu, prezados leitores, o que me esperava no dia, hora e lugar aprazados.

III.

Então, naquele dia, não me restou outra alternativa. Vesti a tal camisa, parecida com a que o Faustão usou domingo, e lá fui eu rumo ao Teatro Záccaro, participar do Programa do Záccaro, ser entrevistado pelo Maestro Záccaro...

Esperar hora e cacetada pelo início das gravações não foi tão ruim. Ser tratado como uma peça cenográfica (espere aqui, sente ali, não olhe para a câmera, sorria etc) pela produção, também não. Diria que foi uma bíblica lição de humildade. Afinal, ficou claro para mim, naquela hora, que ali éramos todos iguais – menos o pessoal da produção (que dava ordens pra lá e pra cá), o saudoso maestro, o Biquíni Cavadão, a Daniela Mercury (em início de carreira) e um misterioso senhor com ares de ‘cientista-maluco’.

Antes de continuar, devo explicar a estrutura do programa – aliás, sem nenhuma novidade. Repetia a fórmula que a dupla Aírton e Lolita Rodrigues consagraram nos primórdios da TV brasileira, com os clássicos Clube dos Artistas e Almoço com a Estrela. Nada, nada o que a Globo reviveu recentemente com a Pizzaria do dito-cujo Faustão.

O do Záccaro era assim. O cenário reproduzia um restaurante com várias mesas, onde entrevistados e figurantes ficavam à espera de um prato de macarrão frio e da entrevista conduzida por quem? Isto, amigos: pelo maestro Záccaro. O próprio e sua orquestra – uns dez músicos ou pouco mais – eram responsáveis pelos trilha sonora em italiano. Naquela inesquecível manhã, lá estavam mais duas atrações: o Biquíni Cavadão para assassinar a benjorniana “Chove Chuva” e a então promissora Daniela Mercury que, esperta, cantou seu hit e deu no pé. Tinha outros compromissos...

Desculpa que, aliás, não pude dar. Também não seria preciso. Se fosse embora, de fina, lá do fundão do cenário, ninguém notaria. Mas, não ficaria bem comigo mesmo e, principal-mente, lá na redação, não perdoariam. As gozações seriam implacáveis.

Por isso, resisti altivo no lugar que me coube no cenário. Vira e mexe um dos câmeras dava um recorte da gente. Ora em possíveis conversas animadas entre convidados e figurantes – na verdade, estávamos dublando a nós mesmos, pois não poderíamos atrapalhar o som guia do microfone do maestro-apresentador. Ora esgrimindo os talheres frente aos renitentes macarrões quase sem molho nenhum – para evitar desastres e desastrados. Ora balançando a cabeça como se estivéssemos acompanhando as canções.

Mesmo há 15 anos atrás preciso ressaltar que já tinha vivido as experiências mais diversas como repórter e também como pessoa, por isso, querem saber, deixei no automático: relaxei e fiquei na minha. Para mim, estava tudo muito bom, estava tudo muito bem...

Até que um bando de animais começou a invadir o palco...

IV.

Antes de continuar, é preciso contextualizar a trama.

E aqui vai uma informação preciosa...

Quem de vocês se recorda de uma novela da Globo em que o Fábio Júnior fazia um personagem pegador, de fazer inveja ao José Mayer, e na trama atendia pelo simpático nome de Jorge Tadeu?

Lembram?

Não lembro sequer o nome da novela. Mas, lembro que as mulheres devidamente ‘abençoadas’ pelo fotógrafo Jorge Tadeu eram identificadas nas cenas seguintes por dois símbolos. Primeiro, sentiam uma inexplicável atração por uma planta que tinha uma haste, digamos, um tanto quanto ‘reveladora’. Parecia... Bem, deixemos de lado essas obscenidades. Quando não, uma certa borboleta azul ficava a flanar em piruetas ao redor da moçoila apaixonada.

Pois então...

O tal cientista-maluco, que citei anteriormente, era o amestrador da borboleta-atriz e de outros tantos bichos, que também foram convidados a participar do programa. Ele estava lá com toda a sua turma – entre os quais, uma meia dúzia de cães. Dois deles, eu lembro bem porque não tiravam os olhos de mim. Um que parecia uma ‘salsicha’ – acho que era o mais popular porque era contratado para os anúncios de uma fábrica de amortecedores – e outro bem maior e com rosnar característico de seres que têm poucos amigos e são impacientes.

Não sei se já lhes disse. Mas, se não disse vou dizer agora. Não tenho lá grandes afinidades com cachorros – aliás, com bicho nenhum. Para ser franco, sincero mesmo, morro de medo dos tais. Fico ainda mais desarvorado quando alguém percebe e diz singelamente:

-- Que bobagem. Ele não faz nada. É tão bonzinho, manso que só...

Aí, sim, fica pior a emenda do que o soneto. Porque sempre me pergunto: como é que a txutxuca, dona do animalzinho, sabe o que se passa nos meandros daquelas cabecinhas peludas?

O santo maestro também chegou a reclamar daqueles animais todos por ali. Mas, a produção garantiu que seria rápida a entrevista com o senhor amestrador – aliás, registre-se, era só gentileza e atenção.

-- Fiquem tranqüilos. Ninguém precisa ter medo. Eles não fazem nada. São bonzinhos, manso que só...

Uma pena que o olhar daqueles dois não me passavam a menor confiança.

O rosnar também...

-- Acho que são as luzes. O calor. Eles podem estar estranhando, desculpou-se a mim -- e só para mim --, um minuto depois o senhor dos animais.

Imaginem a minha expressão ao ouvir essas palavras.

Foi quando o bom maestro cismou de vir na minha direção para a entrevista. Eu estava absolutamente desconfortável com a vizinhança. Se não me engano, o Salsicha resolveu se aninhar embaixo da minha mesa. Vi o bicho entrar, mas não o vi sair. Cutuquei com a ponta do pé algo embaixo da mesa. Se fosse ele, latiria. As figurantes que estavam ao meu lado não moveram sequer um músculo. Pareciam seres congelados. Dali, não viria qualquer ajuda, entendi logo.

O pane foi inevitável.

V.

E lá vem o maestro super animado:

-- Agora vamos falar com o jornalista...

Eu não ouvia mais nada. Na minha cabeça, passava um filminho daqueles em que é inevitável uma hecatombe. “Tubarão”, “Incêndio Na Torre”, manjam? Minha reputação rolaria ladeira abaixo. Vai que a borboleta azul escapasse de alguma daquelas gaiolas e pousasse sobre minha cabeça bem na hora do meu depoimento. Ipiranga, Cambuci e adjacências ririam da minha cara e a boatoria comeria solta.

-- Quem diria, hein, o cara da Gazeta... Ai, ai, ai...

Quando me convencia que não havia borboleta nenhuma por ali, lembrava do Salsicha. Cadê o Salsicha? E esse outro cachorrão? O está querendo que não pára de me olhar como se eu fosse uma grande peça de carne?

Alheio aos meus horrores, o maestro insistiu, uma vez:

-- Então, jornalista, como vai o nosso Ipiranga?

(E eu em pane!)

Duas vezes:

-- E a nossa Gazetinha?

(E eu calado, sorriso sem graça, sem graça)

Três vezes, quase perdendo a paciência:

-- Quer dizer, amigo, que o jornal completa 35 anos. Que beleza!

Entreguei pra Deus.

Levantei-me, peguei o microfone que estava à mesa, e comecei a falar.

-- A Gazeta é isso. O Ipiranga é aquilo. Estamos honrados em estar aqui etc etc etc. Que, modéstia a parte, sou bom nesse lero-lero.

Só voltei a mim – e ao estarrecedor mundo dos animais – quando ouvi aplausos generalizados, reforçados pelo artifício de uma gravação de palmas que os técnicos colocaram oportunamente, mas que eu achei bem merecidos. Modéstia à parte, sou bom nesse lero-lero.

O que eu disse?

Sinceramente, não guardei. Só sei que, no dia seguinte em que o programa foi ao ar, muitos vieram me parabenizar pelas belas palavras. No entanto, um número bem maior de pessoas me parabenizou por eu ser um home de fé e tão religioso.

-- Como assim?, perguntei.

-- A cada frase que você dizia, completava com o louvor...

Não entendi bem. E um gaiato imitou a minha fala:

-- A Gazeta é isso (São Roque, São Roque, São Roque). O Ipiranga é aquilo (São Roque, São Roque, São Roque). Estamos honrados em estar aqui (São Roque, São Roque, São Roque) etc (São Roque, São Roque, São Roque) etc (São Roque, São Roque, São Roque) etc (São Roque, São Roque, São Roque)...

* Nota do Autor:

É das antigas. Do tempo em que era garoto. Mas, os mais velhos ensinavam a gente a toda vez que estivéssemos com medo de algum cachorro, chamar por São Roque. Diziam que o santo tem o dom de amansar os animais, especialmente cães bravios, enxeridos ou rosnadores como aqueles dois. Eu, é que não precisava exagerar. Mas, não ficou de todo mal, não. Modéstia à parte, sou bom nesse nesse lero-lero.

[Texto publicado no livro "Meus Caros Amigos – Crônicas sobre jornalistas, boêmios e paixões"]

 
 
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