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Título: Encontro: Jair Rodrigues
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 08/11/2007
 

Uma ensolarada terça-feira de agosto de 2000.

Eu e o repórter-fotográfico Anísio Assunção estamos diante de um grande portão de madeira numa estreita estrada em Cotia, município da Grande São Paulo.

Pontualmente, nove horas.

Desço do carro e me identifico pelo interfone:

-- Estou fazendo uma matéria para o Jornal da Tarde e tenho uma entrevista marcada com o Jair Rodrigues.

Do outro lado, a voz avisa que devo esperar.

Minutos depois, o portão se abre e podemos entrar. Um amplo terreno se apresenta diante de nós até chegarmos à residência. Somos recebidos por uma espécie de governanta:

-- O seo Jair já já vem atender vocês.

Um rápido olhar pelo interior da casa em que se destaca o estilo rústico a combinar simplicidade e bom gosto. Parece que fizemos alguma travessura. Ao menos, é o que entendo pela expressão do Anísio que anda pra lá e pra cá.

Pergunto:

-- Que cara é essa, Anísio?

Ele me responde com outra pergunta.

-- Quer apostar que acordamos o homem?

Dou a tréplica da pergunta.

-- Não era para estarmos aqui às nove?

Não há tempo para resposta.

Um sonoro e sorridente “bom dia” ressoa pela casa – e comprova o que o Anísio previu.

-- Querem um café?

Decididamente Jair pulou da cama para nos atender.

Ele se acomoda num espaço entre a cozinha e a sala, onde há uma grande mesa. E lá mesmo começamos nossa conversa sobre os festivais TV Record e os bastidores do showbizz. O cantor de Disparada foi personagem central daquele importante momento da nossa História. E percebo, agora, um justificável prazer em sua fala ao recordá-los.

Usei parte da entrevista para a reportagem que o Jornal da Tarde publicou em 13 de agosto daquele ano, com o título “Ainda há novos Chicos, Vandrés, Caetanos, Gils e Miltons por aí?” (também postado no ícone Leia Esta Canção). Outro tanto do muito que Jair nos disse naquele dia permaneceu em meus arquivos pessoais. Foi exatamente esse material que transformei em posts e venho abastecendo nosso blog/site desde domingo:

• Jair Rodrigues e Disparada, dia 4
• Jair Rodrigues e os Festivais da Record, dia 5
• Jair Rodrigues e Mílton Nascimento, dia 6

Creio que, antes de encerrar essa modestíssima série, devia ao meu caríssimo leitor esse esclarecimento. Não sei se, de um modo efetivo, os meios de comunicação e mesmo a opinião pública fazem a justiça merecida a Jair Rodrigues.

Sei que ele é referência em termos de MPB ao lado de outros contemporâneos como Benjor, Simonal, Gil, Caetano, Chico e outros raros. Afinal, os anos 60 foram o grande filtro para tudo o que ouvimos ainda hoje.

Mas, pensando bem, não cabe aqui tal discussão.

Cabe, sim, contar mais uma historinha do alegre Cachorrão.

É a seguinte.

Ainda no ano santo de 1965, Jair viajou para o Rio de Janeiro a convite do radialista César de Alencar, um dos grandes nomes do rádio brasileiro. Àquela época, os principais programas de rádios eram transmitidos ao vivo, direto de um auditório, com orquestra e garantia de enorme audiência.

O cantor ficou feliz, muito feliz. Além de levantar um troco sempre bem-vindo, tratava-se de uma chance imperdível para alguém, como ele, em começo de carreira. Estava tão entusiasmado com a oportunidade que, do aeroporto Santos Dumont, foi direto para a emissora.

Na coxia, enquanto esperava a hora de se apresentar, Jair foi abordado por um rapaz que disse ser compositor e lhe passou a letra de um samba. Era Alberto Paes, parceiro de Edson Menezes num samba, à primeira vista, bem esquisito. Havia uma parte falada e só bem depois entrava a melodia.

Jair ouviu o autor cantarolar. Estranhou. Mas, resolveu topar o desafio. Não disse nem sim, nem não.

No outro dia, já em São Paulo, resolveu ‘passar’ a música junto com os músicos da boate Djalma, onde se apresentava. Aproveitaria para ‘testar’ se a coisa era boa ou ruim. Chamou o pianista Hermeto Pascoal para acompanhá-lo. Deu as coordenadas e começou o fraseado:


"Deixa que digam
que pensem
que falem...
Deixa isso pra lá
Vem pra cá
O que é que tem."

Hermeto ficou assim embasbacado.

Que ritmo era aquele?

Para socorrê-lo, Jair involuntariamente começou a gesticular para marcar o ritmo. Fez um vaivém com uma das mãos. A cada movimento, alternava a palma da mão para cima e para baixo. Hermeto, ao piano, entendeu a cadência e começou a brincar com as teclas no ritmo. Pronto: estava criada a coreografia que marcou toda a carreira de Jair Rodrigues.

"Eu não estou
fazendo nada.
Você também.
Faz mal bater
um papo assim
gostoso com
alguém..."

Os músicos e Jair se divertiram muito no ensaio. Tanto que à noite, durante o show, o forçaram cantá-la na primeira oportunidade. Foi a mesma festa entre eles. Tanto que, quando Jair deu por si, estava de costa para a platéia a marcar o ritmo com as mãos e de frente para os músicos. Percebeu o deslize e, de imediato, virou-se a tempo de ver que o público todo o imitava e caiu deliciosamente na gandaia quando começou a segunda parte.

"Vai, vai por mim.
Balanço de amor é assim.
Mãozinha com mãozinha pra cá.
Beijinhos com beijinhos pra lá".

Fechou questão ali. A música seria um sucesso.

"Vem balançar
amor é balanceio, meu bem.
Só vai no meu balanço quem tem
carinho para dar".

Pode ser um exagero. Mas, faz todo sentido.
Há quem diga que Jair é o primeiro rapper brasileiro.

II.

“Ali, no Festival de 1966, praticamente começou a minha carreira. Tudo o que havia lutado e estava esperando, aconteceu. Veja bem, eu vinha da noite, era um cantor da noite. Cantava de tudo, desde aquelas músicas fortes da época de Orlando Silva, Carlo Galhardo, Francisco Alves ao que pedisse a platéia. Tinha um repertório assim variado e vastíssimo que me garantia como cantor.

Quando fiz o meu primeiro sucesso em 1964, foi com “Deixa Isso Pra Lá”, que não exigia uma grande interpretação. “Deixa que digam, que pensem, que falem. Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem. Eu não estou fazendo nada, você também...”

Então, ouvia da crítica que eu era cantor de uma música só, que não passaria daquilo.

Quem é que gosta de crítica?

Aceito uma crítica, mas quando é uma coisa verdadeira. Ali, eu sentia que não era.

Precisei provar o contrario. Afinal, queria ser considerado um interprete da música popular brasileira. Queria ouvir as pessoas falarem bem. Até que falavam. Mas, do Jair Rodrigues, menino extrovertido, o “Cachorrão”, sempre alegre e tal. Mas, na hora de me botar entre os da música popular, falavam que não tinha nada ver. Que era cantor de uma música só.

Quando me juntei a Elis para fazer o Fino da Bossa, pensei que ia mudar um pouco essa história. Mesmo assim, continuou. As glórias eram quase todas para Elis. Eu não passava de um partner, o que me deixava de pé quebrado.

Quando apareceu a música do Geraldo Vandré e do Théo de Barros, e o Solano Ribeiro me indicou como intérprete, aí o negócio mudou tudo. Lembro que veio alguém lá de cima (da TV Record) e disse:

-- Crioulo, é a hora de mostrar o que sabe!

Vamos embora, respondi.

É uma das músicas mais difíceis de se cantar. Aí, sim, provei o que sabia e era capaz. E deu tudo certo. A partir daí, vivi uma fase muito bonita, de “liberou geral” em todos os setores da minha carreira. Por isso, até hoje, eu tenho a música “Disparada” como meu carro chefe.

Naquele ano, ainda a platéia não era agressiva. Não aconteciam vaias. Vinha de uma experiência, para mim, interessante. No Festival d 65, aina na TV Excelsior, cantei uma música chamada “Moça na Janela”, do saudoso compositor do Recife. Era um samba sem nenhuma pretensão. A música era bonita, mas não tinha força para um festival.Era só para participar. Se classificasse, tudo bem. Se não classificasse, tudo bem também. Só que ela não ficou entre as finalistas. Mas, a mim, me deu uma certa bagagem.

A bem da verdade, o festival da Excelsior foi todo meio assim. Uma experiência que tanto poderia dar certo ou não. Já o da Record foi feito com aquela parafernália toda. Sentiram o que a beleza que foi o festival da Excelsior e mandaram ver. A Record era a Globo da época. Entrou com tudo. Tanto é que esse festival da Record colheu músicas de todo o Brasil.

Não dá para negar o belo momento, digamos, cultural que o Brasil vivia. Parece que a gente era mais focada. A própria situação do país era - época de recessão - uma coisa fortíssima. Parece que os compositores se aplicavam mais. Davam tudo de si. Há muito tempo que a gente não vê uma música de sucesso como as de um Paulinho da Viola, um Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil. Nos anos 60, quando uma música era lançada, era um acontecimento. Havia todo um zum-zum-zum. Você ouviu a nova do Gil? Olha o que Chico disse na naquela música? E assim ia. Eram outros tempos...”

III.

"Ainda em 66, defendi duas músicas. Uma foi do Paulinho da Viola, que ficou em quarto lugar e chamava-se Canção para Maria. A outra foi Disparada que empatou em primeiro lugar com A Banda de Chico Buarque, cantada por ele e pela Nara Leão. Em 67, defendi a música chamada O Combatente, de Valter Santos e Tereza Souza. A canção ficou entre as finalistas e aí já achei estranho porque todo mundo que entrava no palco era recebido com vaias de todos os lados. Enquanto estava cantando, eu olhava para o público. Só escutava:

- Uuuuuuuhhhhh!

- Fora, fora, fora...

- Sai daí. Fora! Sai daí!

Cantava e pensava comigo:

-- Que diabo é isso? Estão aplaudindo ou estão vaiando.

Foi neste ano que o Sérgio Ricardo quebrou o violão. A música era difícil. Uma homenagem ao Garrincha, de nome Beto Bom de Bola. As pessoas sequer quiseram ouvir, já vaiaram. Falaram que a música era ruim demais. Mas, que se deixasse ele cantar para ver. Eu não sei. As vaias não deixaram o Sérgio cantar. Ele se descontrolou. Quebrou o violão e jogou no auditório. O apresentador Blota Júnior ainda tentou contê-lo, mas não deu tempo...

Isto foi já na final – e Beto Bom de Bola foi desclassificada. Mesmos assim, nós, artistas, nos unimos para ficar ao lado do Sérgio Ricardo.

Durante as eliminatórias, esperava no corredor a hora de apresentar O Combatente e escutei de alguém da alta cúpula:

-- Puxa vida, não está acontecendo nada nesse festival. Está uma merda.

Depois que aconteceu aquilo com o Sérgio Ricardo, ouvi da mesma pessoa:

-- Graças a Deus. Até que enfim o festival está salvo.

Então pensei comigo mesmo.

-- É isso. Virou uma guerra. Tem que ser guerra mesmo. É o que estavam esperando acontecer.

Desde então, perdeu a graça. Por mim, não mais participaria de festival nenhum. O Chico Buarque e outros compositores e intérpretes também não queriam. Mas, éramos contratados e tínhamos obrigação de participar.

Pedi para o meu empresário, o falecido Corumba, da dupla Venâncio e Corumba, se eu poderia sair.

Ele disse:

-- Você não pode sair. Você é contratado e tem de participar de todos os eventos musicais. E eu participei de todos e foi bravo.

Em 68, cantei a música do Vinicius de Moraes, Samba de Maria. Só cantei uma. Faltou uma nota de um jurado para eu ganhasse como melhor interprete. Já era unanimidade. Entrei como favorito ao melhor intérprete, mas os jurados não deram o prêmio para mim. Não ganhei nada. Em 69, teve a Bienal do Samba, uma espécie de preparação para esperar o festival. A fórmula estava dando sinais de desgaste e quiseram dar uma força. Defendi “Canto Geral” que ficou em quarto lugar e a Elis ganhou com Lapinha, de Baden Power. Mas, a coisa estava brava.

Tanto que no festival de 69 as ‘feras’ já não participaram. Chico, Gil, Caetano, Elis – todos ficaram de fora. Quem venceu foi Paulinho da Viola, com a música Sina Fechado. Assim se encerrou o ciclo dos festivais da TV Record. Foi uma parte bonita da nossa história."

IV.

Já havia escutado a história da voz do próprio Milton Nascimento, mineiro de Três Pontas. Depois de alguns anos, a ouvi de novo. Desta feita, quem me contou foi o paulista de Igarapava, Jair Rodrigues – e esta segunda versão que passo a vocês.

Foi lá nas quebradas de 1965. Jair ainda cantava na noite para defender uns trocados, mas já tinha um certo nome na praça, disco gravado, convites para shows, essas coisas de início de carreira. Certa manhã, o amigo Nino, que dividia com ele o palco da famosíssima boate Djalma, lhe telefonou para fazer um pedido. Coisa de irmão mesmo.

-- Olha, Jair, tem um rapaz que divide a pensão comigo lá na Marques de Itu. Ele é bom pra caramba. Canta, compõe, veio de Minas e está à procura de uma chance. Tenho ajudado no que posso. Só que meu quarto já é pequeno. E não está dando para segurar o cara lá. Mas, ele tem músicas maravilhosas. Você não poderia ouvi-lo e hospedá-lo por uns tempos.

Jair sabia bem as dificuldades de vir do Interior para começar a vida numa cidade como São Paulo. Por isso, não titubeou. Sempre ouviu dizer que uma mão lava a outra. Com ele, também foi muito parecido. Era hora de retribuir.

-- Traz a fera aqui.

Foi assim que ele conheceu o Bituca, um certo Milton Nascimento. Logo, no primeiro encontro, Milton mostrou todas as músicas, inclusive a tocante Morro Velho que depois, bem depois, Elis gravou. Por uns tempos, o novato morou com num quarto na casa do cantor. Moço de hábitos simples, era de uma timidez de assustar para quem sonhava ser artista de palco e TV.

Para Jair, a vida seguia uma trilha natural de sucesso. No rádio e começava aparecer também na TV.

-- Quase não o via porque eu já tinha uma vida atribulada. Fazia shows, cantava na noite. Mas, sempre que o encontrava, ele estava com o violão e um caderno em que rabiscava as letras de suas canções.

Nessa época, Jair era muito amigo de outro grande cantor negro, Agostinho dos Santos. Toda quarta-feira eles se encontravam para jogar futebol. Jair era lateral-esquerdo. Agostinho, um bom zagueiro central. Diziam que repetia no campo o estilo elegante que o consagrou como um cantor pré-bossa nova.

Jair não lembra se numa dessas idas à sua casa para o futebol Agostinho conheceu Milton. É provável, mas não tem certeza. Certo mesmo é que Agostinho encantou-se com as músicas do Bituca. Tanto que por conta e risco as inscreveu no Festival Internacional da Canção, que a Globo realizou no Rio de Janeiro. O tímido Bituca jamais cometeria tal ousadia. Resultado: a belíssima “Travessia” ecoou soberana no Maracanãzinho. Versos concisos, melodia que a todos envolveu. Não venceu. Ficou em terceiro lugar, mas Milton foi escolhido como melhor intérprete. A partir daí, é a história que todos conhecemos.

Fala Jair:

-- Quando era solteiro vivia mudando de casa. Não parávamos. Não tínhamos aquela coisa de guardar coisas. Íamos deixando tudo pelo caminho. Muda daqui, muda dali. Num desses vaivém, lembro que, certa dia, achei o caderno do Milton com os rascunhos da letra de Travessia. Que beleza. Também encontrei umas partituras do Ivan Lins que fez, lá em casa, o arranjo de não sei que música. Guardei por uns tempos. Mas, outras mudanças vieram e sei lá onde foi parar. Se eu os tivesse guardado, hein? Seria uma relíquia inestimável daqueles tempos. Mas, tudo bem, valeu a lembrança de conviver com esse pessoal, de um talento extraordinário.

 
 
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