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Título: A caminho da Redação
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 06/09/2001
 

"Não sou quem me carrega/ Quem me carrega é o mar/ É ele quem me carrega/ Como nem fosse levar..." (Paulinho da Viola)

01. Manhã de ontem. Como de hábito, saio atrasado da Universidade Metodista, em Rudge Ramos. Passam alguns minutos das 9 horas, e eu já devia estar na Redação de Gazeta do Ipiranga para o bate-final da edição que agora está em suas mãos. Embico o carro pela marginal da via Anchieta e, embalado pela música de Milton Nascimento, nem me dou conta do tamanho do congestionamento que vou enfrentar nos próximos 50 minutos até passar em frente ao Colégio Modelo, já no trecho urbano da Anchieta, onde uma viatura da Polícia Militar sinaliza que algo de errado aconteceu por ali -- um acidente talvez -- mas, já não resta o menor vestígio. E, seja o que for que tenha acontecido, consagra-se a velha máxima: e a vida continua...

02. Conviver com a rotina dos congestionamentos, é sempre bom lembrar, não é novidade para quem vive em São Paulo e, como eu, ganha o suado sustento na rota São Bernardo/Ipiranga; vez ou outra indo dar com os costados em outras paragens. Lembro que no primeiro semestre, a propósito de participar do seminário "Dialogando com a Sociedade", topei com duas horas de trânsito congestionado até chegar à Universidade de São Paulo. Foram outras duas horas e trinta para retornar à São Bernardo, onde os alunos, pela primeira vez, chegaram antes que o professor. Não preciso dizer que, com a irreverência que lhes é saudavelmente peculiar, saudaram a minha chegada com vaias, apupos e comentários do tipo assim-não-dá, vai ficar com falta...

03. De volta ao presente e na busca de tentar recuperar o tempo perdido, dou jeito de mentalizar os assuntos que poderiam pautar o Caro Leitor de hoje. Mas, uma cena me rouba a concentração. Um pouco depois do prédio da Uniban (a antiga Ford), vejo dois carros emparelhados à minha frente. Os motoristas buzinam, gesticulam, se falam... Imagino: vem confusão por aí. O anda-e-pára está insuportável. O que me falta agora é ver dois marmanjos se pegando por alguns milimetros a mais de asfalto rodado...

04. Ai, ai, ai...O senhor do Civic vai para o acostamento, no que é imediatamente seguido pelo moço da caminhonete que, perdoe-me leitor, não consigo identificar. Também é só um detalhe que não importa. Importa, sim, o grande abraço que ambos trocam sob os olhares surpresos de todos que passam. Dá para entender que são velhos amigos que há tempos não se viam. Reparo que o semblante de felicidade de ambos destoa profundamente da expressão dos outros motoristas que, cada qual com seu justo motivo, maldizem o engarrafamento (ainda hoje não entendi essa palavra para de descrever um trânsito lento) que atrasa e confunde compromissos pelo resto do dia.

05. Não consigo retomar o prumo dos assuntos que fizeram o noticiário da semana -- amplamente dominado, diga-se, pelas cenas cinematográficas vividas pelo apresentar Silvio Santos na vida real. A coluna não pode ficar sem assunto. Mas, rever velhos e bons amigos é sempre um raro privilégio. Tenho uma lista deles que, justamente, esses dias enredados em obrigações e trabalho acabaram por afastar, mesmo contra nossa vontade. É a roda-viva que Chico Buarque consagrou em forma de canção nos idos dos efervescentes anos 60. Não é vergonha confessar que, apesar de todos nossos ideais, não tínhamos nitidamente clara o tipo de sociedade que estávamos construindo e o custo que teria para nossa qualidade de vida...

06. Ali, pelas imediações da Vila Arapuá, outra cena insólita. Um Ka parado no meio da pista complica ainda mais o que já não anda bem. Ao redor, um policial rodoviário empunha o bloco de multa e, com imponência, configura a infração. O motorista tenta inultimente defender-se. Pelo que pude entender -- e a linguagem dos gestos felizmente é universal -- o rapaz vinha pelo acostamento, pois iria entrar à direita; ali onde existe uma fábrica/loja de lustres. Mas, qual o quê, não me venha com jurumelas. Tome multa! Tome pontos perdidos na carteira! Tenho certeza: o motorista pode argumentar o tempo que quiser que dessa ele não escapa. Nos rigores da lei, embora um pouco de bom-senso ali não seria pedir demais.

07. Não sei por que. Mas, acho que tomei as dores do rapaz do Ka e o meu humor virou tal e qual a temperatura em São Paulo. Essa indústria da multa está de lascar. Já começo a ruminar eternos rancores. A fala do presidente. As contas no exterior do Maluf. As CPIs, a violência urbana, o futebolzinho ruim que se vê na TV, o dólar na estratosfera, o desemprego, a vida pelo avesso... Ainda bem que trânsito começa a fluir e, para sua alegria, caro leitor, o espaço da coluna acabou...

 
 
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