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Título: A micareta e o "efeito rodízio"
Autor: Rodolfo C. Martino - publicado em 30/03/2008
 

A moça chega com ares de vitoriosa.

Mostra a primeira página da Ilustrada de sexta a me desafiar.

Lá está a reportagem sobre a axé-music. Uma indústria em plena ascensão, diz a matéria e comprova: é a música que mais se ouve no País, a mais lucrativa do mundo dos espetáculos, a mais isso, a mais aquilo, a mais mais em tudo.

Nas turbulências dos vinte anos, não entende como alguém (eu, por exemplo) pode ser feliz neste mundo sem se deixar embalar por Ivetes, Claudinhas, Chiclets e afins.

Acho que ouviu a minha estranheza ao gênero em alguma palestra sobre jornalismo e mpb.

Falo demais às vezes. Ou quase sempre.

Enfim...

II.

Nenhuma novidade no que diz a reportagem.

Ou melhor uma constatação óbvia, feita por um dos empresários do ramo.

A axé uniu o entretenimento ao beijo na boca.

As palavras do moço:

"A música baiana conseguiu algo único: ela vende beijo na boca. No show de rock, fica todo mundo olhando para o palco e ninguém pega ninguém. No axé, pode estar a Ivete tocando, mas o cara está interessado é em beijar, e está cheio de garotas para beijá-lo".

III.

Eis aí, menina, um assunto polêmico.

Talvez fosse mais conveniente eu parar aqui. No simples registro.

Mas, sei lá, não me seguro. Vontade lhe fazer algumas provocações.

Gentil moça de shorts, mini-blusa e sandálias, me é impossível reconhecer a tal grandeza musical do axé. No fundo, sei bem, ninguém perde nada com isso. Nem eu, nem você; muito menos o milionário negócio made in Bahia.

Até porque, convenhamos, sou um cara do século 20 e sei de toda uma geração de baianos que considero bem mais inspirados, verdadeiramente representativos para essa tal de MPB. De pronto, lembro Caymmi, João Gilberto, Caetano e Gil e Novos Baianos, estes que seguraram uma barra legal nos chumbados anos 70.

Por outra, sei também que, em termos artísticos e culturais, é assim mesmo. Desde que o mundo é mundo, vive-se a rotina da roda-gigante. Altos e baixos, altos e baixos...

Por isso, até me conformo em esperar tempos mais encantados.

Sou um otimista inveterado.

IV.

Agora, é a questão comportamental que me preocupa.

E não é nem pela tal beijação, vou logo explicando.

Que coisa pior – ou melhor? – gerações passadas também fizeram e desfizeram.

Não sou eu que vou embaçar a dos mais jovens – e alguns nem tanto, que também aproveitam a onda, é bom que se diga.

O que me preocupa, digo logo, é o “efeito rodízio”.

V.

Como assim, garota, não sabe o que é “efeito rodízio”?

Nunca foi a uma churrascaria?

Então, vou lhe explicar.

Em todo rodízio é assim...

Você entra na casa no maior “desespero” a fim de comer todas as carnes possíveis e imagináveis. Depois da terceira picanha com alho, repare, pode vir até um bife de sola de sapato que você traça na maior, achando lindo maravilhoso.

É capaz até de dizer.

-- Na boa, passa o vinagrete.

Instantes depois, vem o fastio e, na boca, aquele gosto esquisito de alho e gordura.

A partir daí, não há o que segure.

Só de ver os indefectíveis garçons a trafegar serelepes com aqueles espetos, vem o calafrio.

Sentimos os olhos saltarem, o estomago marear.

Daríamos qualquer coisa para estar na sua casa dormindo, de barriga para cima, no sofá da sala...

VI.

Então, voltemos às minhas elucubrações sobre micaretas.

Peguemos a calculadora, minha cara.

Façamos as contas e as projeções.

A moça “fica” com cento e quatorze numa só noite.

Exagerei?

Só um pouquinho, diz você.

Ok.

Mas, agora preste atenção.

Vai que o homem da vida dela, o príncipe encantado como se dizia na antigüidade, pegue a senha e apareça ali pela casa do 98 ou 99. Bermudão, camisa regata e boné com a aba virada para trás.

Presumo que, certamente, ela não vai saber identificá-lo.

E aí, deixo claro para não me acusarem de machista que sou...

... aí vale o vice-versa.

Ambos perderam a chance única.

VII.

Uma pena, não?

Os dois podem passar o resto da vida procurando um ao outro.

E, quer saber, pode soar antigo.

Mas, o certo sem mentira, a verdade muito verdadeira, é que não há nada que se compare na vida à chance, por vezes, irrecuperável, de viver um grande amor...

Por isso, moça bonita, fique esperta.

 
 
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