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AnunciaÁ„o
17/03/2009
 

Quando lhe perguntei o nome da crianÁa que me disse esperar, um sorriso iluminou o rosto de linhas delicadas:

- Se for menina vai se chamar Laura...

Gostei tanto da escolha que sequer a deixei concluir a frase. N„o me interessei em ouvir a opÁ„o escolhida caso fosse menino.

Rebati de pronto:

ďOlha, que bonito. Me lembra uma mķsica antiga, lŪndissima", respondi t„o ou mais entusiasmado que tive vontade de cantŠ-la (a canÁ„o, n„o a moÁa que ť minha amiga).

Soube me controlar. Mas, n„o sei se ela entendeu meu espanto.

Minha jovem amiga Ė que adora mķsica e tem um gosto refinado, de sensŪvel pianista que ť Ė jamais ouvira falar na dolente canÁ„o de Accyr Pires Vermelho e Jo„o de Barro (codinome do velho e bom e saudoso Braguinha), gravada por Jorge Goulart nos idos de 1957.

II.

Dia desses a encontrei nos corredores da Universidade. Notei que estava mais feliz, mais plena. Educado que sou, perguntei como estava a gravidez.

Ganhei outro sorriso e uma incumbÍncia.

-- Estamos ůtimas. … menina Ė e vai se chamar Laura. AliŠs, quero tanto ver a letra da canÁ„o que vocÍ disse conhecer. Arranja pra nůs?

Desejo de mulher , vocÍs sabem, ť uma ordem - grŠvida, ent„o... Como ela brincou de falar por si průpria e por Laura, que logo virŠ, trato de atendÍ-las solenemente hoje aqui em nosso modesto blog.

III.

AŪ vai:

O vale em flor...
A fonte,
O rio cantando,
O sol banhando a estrada,
Frases de amor.

Laura...
Um sorriso de crianÁa.
Laura,
Nos cabelos uma flor.


‘ Laura,
Como ť linda a vida.
‘ Laura,
Como ť grande o amor.

Depois o adeus, o lenÁo,
A estrada, a noite,
O bar, as taÁas de dor.

Laura,
Quťde a rosa no cabelos.
Laura,
Quťde o vale sempre em flor.

‘ Laura,
Como ť linda a vida.
‘ Laura,
Como ť grande o amor.

‘ Laura...
‘ Laura...

‘ Laura,
Como ť linda a vida.
‘ Laura,
Como ť grande amor...

IV.

Poderia encerrar o post por aqui. Que jŠ daria minha miss„o por cumprida.
Mas, permitam-me uma divagaÁ„o.

O Brasil do fim dos anos 50 vivia um momento ķnico. De esperanÁa e fť no amanh„.

EsclareÁa-se: em todos os segmentos sociais.

Era o Brasil de JK, da polŪtica desenvolvimentista do 50 anos em 5. A construÁ„o de BrasŪlia, a consolidaÁ„o da indķstria automobilŪstica, o projeto PaŪs do Futuro. A soberania da espernÁa.

Mas, auspiciosos horizontes se abriam tambťm para os esportes (fomos campeűes mundiais de futebol em 1958, de basquete em 1959, bicampe„o de tÍnis em Wembley com Maria Ester Bueno no inŪcio dos 60), a comunicaÁ„o (o boom da TV, da publicidade) e as artes -- o teatro Oficina, a chanchada no cinema, a bossa nova.

AliŠs, se atentarmos para a canÁ„o, a delicadeza dos versos sincopados, a analogia da mulher amada ŗs belezas naturais (como o vale em flor, a fonte, o rio cantando, o sol banhando a estrada, entre outras) jŠ anunciavam o novo momento da mķsica popular brasileira.

A bem da verdade, tudo no Brasil daquele anos dourados prenunciava uma nova era...

Um tempo que se cumpriu atť a ruptura, do Golpe em 64.

V.

Sou otimista, meus caros.

Desconfio que aprendemos a liÁ„o.

Toda vez que sei da chegada de Lauras, Bias, Sabrinas, AntŰnios, Renatos, Ilyas, Cacaus, Gabrielas...

Em toda a anunciaÁ„o, acredito piamente que esse pessoalzinho irŠ alťm de onde fomos - e, me conforta a doce certeza: eles, sim, saber„o construir o novo tempo.

* FOTO no blog: JŰ Rabelo

 
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