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Crônicas de Viagens – Tomar

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Foto: Arquivo Pessoal

55 – Incidente na cidade dos Templários

Decididamente, não esperávamos viver em TOMAR o mais divertido dos incidentes provocados pelas idiossincrasias que existem entre o idioma português que praticamos e aquele que falam nossos patrícios de Além-Mar.

Ora pois pois…

Thomar é uma pequena cidade da região central de Portugal.

À primeira vista, não tem lá grandes atrações, além do Castelo dos Templários e de um histórico aqueduto. Como manda a boa tradição, há também um rio que corta a aldeia e dá um charme especial ao lugar. Foram, no entanto, as suntuosas acomodações de um hotel cinco estrelas que nos convenceram a ali permanecer por mais alguns dias. Acomodações – diga-se – com diárias a preços consideravelmente abaixo do que enfrentávamos naquela temporada.

Lá se vão quase 20 anos desse passeio. Mas, não esqueci

Andamos por Lisboa, Évora, Fátima, Coimbra, Porto, Braga, e arredores. Mas, eu particularmente gostei demais da cidade dos Templários – e não me perguntem o porquê, pois não saberei responder.

Bem, mas o motivo deste post não é exatamente o que eu acho ou deixo de achar desta ou daquela cidade. É, sim, uma bela atrapalhada que nos proporcionou o idioma pátrio.

Vou contar.

Assim que chegamos em Thomar, procuramos um restaurante.

Estávamos famintos.

Os garçons em mangas de camisa preparavam-se para encerrar o expediente da tarde. Que, diga-se, é hábito lá deles fechar a casa logo após o almoço e só reabrir lá pelas 19 horas ou 19h30.

Faço a referência para que imaginem a expressão dos gajos quando viram aboletar-se restaurante adentro um grupo de barulhentos brasileiros.

Mesmo assim, educadamente, dois deles (re)colocaram os jalecos e vieram em nossa direção.

Claro que demoramos na escolha dos pratos.

Olha o cardápio daqui, olha dali.

Confere o prato na coluna da esquerda – bom, muito bom.

Analisa a coluna da direita, a dos preços – ah!, não, salgado demais.

Vira e mexe. Põe e tira. Chega-se a conclusão natural dessas horas incertas.

Escolheríamos um prato para dividir entre duas pessoas.

Foi então que veio a pergunta inevitável:

— Ô amigo, o prato é bem servido?

Vimos a bochecha do garçom avermelhar, a testa franzir. Mas, só percebemos a bobagem que lhe dissemos quando ouvimos a resposta que veio em tom atravessado:

— Senhores, estou nesta casa há mais de 30 anos e não vou tolerar suspeitas ao meu trabalho. Quem sabe do servir aqui sou eu. Posso lhes garantir – e invoco o testemunho dos meus pares – que nunca houve qualquer reclamação às minhas corretas maneiras de fazer a casa.

Foi um sufoco para que ele nos desculpasse (“por nada!”) e entendesse: só queríamos saber se o prato dava para duas pessoas.

— Mas, o que os senhores estão a dizer? Como assim? O prato não oferece, nem dá nada a ninguém. É apenas um prato, uma louça, um objeto…

— É que queríamos dividir, repartir a comida…

— Ora, cada um se alimenta do jeito que lhe convier. Não vamos impor aos nossos fregueses que comam de uma vez só ou em partes… Não estou a entender.

Alguém pensou em arriscar a comunicação em inglês – o idioma universal.

Outro se dispôs a fazer mímica.

Desconfiei que o cara estava de gozação.

Mas, deu para perceber que ele próprio não se via confortável na situação.

Só não esperávamos que a confusão aumentasse – e para pior.

Uma senhora dotada de “suculentas carnes” saiu da cozinha e veio em direção às mesas. Carregava uma bandeja recheada de doces de ovos – ou “dóvos”, como dizem por lá. Lindos, avantajados, tentadores, os doces.

Ao passar, um dos nossos levantou-se e arregalou os olhos naquela fartura toda Provavelmente atarantado pela fome, não mediu as palavras ao indagar sobre o destino daquelas preciosidades.

— Para onde vão essas coisas gostosas?

Claro que não obteve resposta.

Claro que reinou um silêncio absoluto na casa.

Claro que deu confusão — e da grossa.

A senhora era cônjuge do nosso obtuso garçom. Que mais uma vez fez a leitura que quis do episódio.

— Olha que eu te parto as fuças, seu abusado.

Por sorte, também em Portugal existe a turma do “deixa pra lá”. Foram os tais que seguraram a fera ferida. Por mais que invocamos inocência e que o brasileiro se referia aos doces, o portuga urrava:

— Chamar de gostosa, vá lá. Até faço gosto, pois gostosa o é de fato e, aliás, me farto bem dessas gostosuras. Mas, não vou permitir. Ah!, nunca permitirei que coisifiquem nada do que é meu. Defini-la como coisa? Isto não admito…

Aliás, ainda hoje não sabemos se o lusitano despirocou de ciúmes da senhora ou do que estava sobre a bandeja. De qualquer forma, naquele dia, preferimos trocar o almoço por um café em uma leiteria – mas isto é uma outra história que fica para uma próxima vez.

* Baseado em texto originalmente publicado em 20/09/2007

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