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Passaredo

Porque às vezes a vida pede e precisa de uma pausa – assim ensinou o poeta Drummond -, as postagens no Blog serão mais espaçadas neste mês de julho.

Espero que me entendam.

Explico.

Me dou ao desfrute de uma invernada na pacata São José do Barreiro, ao pé da Serra da Bocaina, nos confins do Vale do Paraíba, ainda no Estado de São Paulo.

É neste histórico rincão – dizem que em tempos esquecidos, D. Pedro andou por aqui com sua tropa e fez pousada na Fazenda do Pau D’Alho – onde me esqueço de mim e dos dissabores que estão pela aí a toldar a luz deste imprevisível 2019.

II.

Serei sincero.

Estava no luscofusco do vir ou não vir quando, na quarta passada, recebo a triste notícia do falecimento do jornalista Paulo Henrique Amorim, a quem sempre admirei pela coragem e independência.

Uma perda irreparável para o jornalismo e para o Brasil desses tempos sombrios.

Bateu um enorme desconsolo.

Se faltava algo para que eu me decidisse, nada mais, então,  se interpôs à partida.

E foi assim, corpo doído e espírito combalido, que cheguei sem pressa de voltar ao cotidiano dos dias iguais.

III.

Por aqui, confesso, há outra rotina.

Aplaina a alma, arrefece o desconsolo.

É tudo muito calmo.

IV.

Olho as montanhas, impávidas e serenas.

Caminho  um tantinho – e só um tantinho que o joelho reclama.

Tomo sol no banco de madeira da pracinha da igreja e, vez ou outra, me encanto com a movimentação da passarada a bulir nas árvores do quintal de casa.

Neste ano, os pés de ameixas se puseram carregadinhos da frutinha amarela que, entre o doce e o azedo, faz a festa dos bichos.

Há uma acirrada disputa para abocanhar (ou bicar) os mais vistosos.

V.

Sou um urbanóide por natureza – e até por convicção.

Mas deixo que meus olhos fatigados se deliciem com a movimentação da turma.

Os sanhaços vêm pela manhã. Não são muitos, cinco ou seis. Revezam a brincadeira com os pardais – em extinção nas metrópoles -, os miúdos canarinhos da terra e os bem-te-vis que já chegam chegando. A provocar desconforto em quem estiver por perto.

Só não se metem com os sábias-laranjeiras que são comuns na região. E, vez ou outra, aparecem, solenes, por ali. Desconfio que preferem frequentar o abacateiro que fica próximo.

VI.

No meio da tarde, chegam as aves de porte maior.

Os tucanos, vistosos, a equilibrar a fruta no longo bico.

E os jacus, de cauda longa, que se assenhoram dos galhos e abrem passagem entre as folhas e quem mais estiver por perto.

Chegam em grupos de três ou quatro.

Em bando mesmo quem aparece são as maritacas, ruidosas e estridentes. Mais pro fim da tarde.

Avançam esfomeadas sobre as frutinhas.

A ameixeira balança toda. Um generalizada bagunça. Que dura alguns minutos.

Satisfeitas, e ainda barulhentas, batem em retiradas numa imprevisível revoada.

VII.

Ô meu Pai do Céu…

Vi a cena e não sei porque lembrei os nossos ilustres parlamentares votando a favor da Previdência, esta mesmo que vai punir os trabalhadores mais humildes.

Estão arregaçando nossos direitos mais elementares. De olho guloso nas poupudas verbas das emendas parlamentares.

Olaiá…

Volta o desconsolo.

Sei que as maritacas verdinhas, verdinhas, não têm culpa de nada.

Eu é que não consigo me desligar das trombadas da vida real…

 

 

 

 

 

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1 Response
  • clarice falasca
    15, julho, 2019

    Só mesmo montanhas impavidas e serenas e a bagunça da passarada, pra nós tirar da triste realidade que nos assola. Vamos pagar caro a conta das poupudas verbas parlamentares. Ahhh o egoísmo…

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