{"id":10009,"date":"1997-06-09T00:00:00","date_gmt":"1997-06-09T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T20:05:25","modified_gmt":"2017-09-15T20:05:25","slug":"um-jornalista-as-margens-do-ipiranga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-jornalista-as-margens-do-ipiranga\/","title":{"rendered":"Um jornalista \u00e0s margens do Ipiranga"},"content":{"rendered":"<p>(* Leila Kiyomura Moreno, Jornal da USP)<\/p>\n<p>\u00c9 uma intimidade que conquistou com o trabalho. O trabalho de escolher, pensar e publicar as palavras certas. Seus editoriais no jornal Gazeta do Ipiranga (conhecido como Gazetinha) passaram a entrar nas casas do bairro. Compartilhar dos sonhos e protestos das fam\u00edlias. E despertar o debate e a reflex\u00e3o dos oper\u00e1rios, empres\u00e1rios e pol\u00edticos. Foi nesse cotidiano que Rodolfo Carlos Martino viu o rep\u00f3rter de 24 anos completar 46, quase sem dar conta de que o tempo voa entre as not\u00edcias. <\/p>\n<p>&#8212; Ser jornalista \u00e9 t\u00e3o emocionante quanto massacrante, observa. Voc\u00ea vive mecanizado e n\u00e3o percebe que est\u00e1 esquecendo de registrar a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. <\/p>\n<p>Nessa busca de si mesmo, Martino acabou se encontrando nos arquivos da reda\u00e7\u00e3o. E se deparou com as reportagens do idealista da d\u00e9cada de 70, querendo acabar com as enchentes da avenida do Estado, da Vila Carioca; que sonhava com o Brasil das Diretas-J\u00e1; se contagiava com o ritmo de Jorge Ben (o atual Benjor); o sorriso de Elis Regina e a emo\u00e7\u00e3o do futebol de Ademir da Guia. <\/p>\n<p>Um reencontro luminoso n\u00e3o s\u00f3 do jornalista. Mas entre o leitor e o seu bairro, a sua cidade e Pa\u00eds. Martino tirou desse ba\u00fa de mat\u00e9rias pensadas em laudas de papel e m\u00e1quinas barulhentas o melhor de sua trajet\u00f3ria. O resultado \u00e9 o livro \u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga que re\u00fane textos que refletem o Brasil dos \u00faltimos 20 anos. Editado pelo pr\u00f3prio autor, est\u00e1 sendo lan\u00e7ado hoje (dia 9), \u00e0s 19 horas, no Museu Paulista da USP.  <\/p>\n<p>Uma vida de trabalho  <\/p>\n<p>O dia-a-dia que o jornalista foi pontilhando na sele\u00e7\u00e3o dos textos contou com o olhar de outro colecionador de hist\u00f3rias: Jos\u00e9 Sebasti\u00e3o Witter, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas e atual diretor do Museu Paulista da USP. \u00c9 ele quem prefacia o livro. <\/p>\n<p>&#8212; Martino teve a feliz id\u00e9ia de reunir seus escritos, observa Witter. \u00c9 o resultado de uma vida de trabalho. Com isto, ele permitiu ao leitor que o acompanhou pela Gazeta do Ipiranga rever e compreender a sua maneira de pensar. <\/p>\n<p>Witter lembra que o jornalista conseguiu compor um harmonioso exemplar com o toque m\u00e1gico do Ipiranga, local onde come\u00e7ou a se firmar a id\u00e9ia de uma na\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&quot;\u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga traz o vivenciar das gentes de carne e osso que povoam suas casas modestas ou suntuosas e d\u00e3o um colorido especial \u00e0 cidade da qual este bairro singular \u00e9 parte. E uma obra que olha o mundo pela \u00f3tica dos moradores do Ipiranga. Pois foi dentro do jornal independente dessa vila da Independ\u00eancia que o autor foi bradando pela sua pr\u00f3pria liberdade como escritor. Creio que conseguiu o objetivo a que se prop\u00f4s e o resultado surge com esta obra. \u00c9 livro de se ler de uma vez s\u00f3&#8230;&quot;  <\/p>\n<p>Sem manuais de reda\u00e7\u00e3o  <\/p>\n<p>Martino formou-se no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70, na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP. Tempo nublado pela repress\u00e3o, pelo AI-5. Mas de muitos sonhos e esperan\u00e7as. Era a ECA da sabedoria e \u00e9tica do professor Wladimir Herzog, que morreu tragicamente em um domingo, 25 de outubro de 1975. &quot;O jornalista n\u00e3o deve temer chegar ao fundo do po\u00e7o na busca dos fatos, da verdade. \u00c9 preciso encarar de frente todos os sacrif\u00edcios que esta verdade imp\u00f5e. N\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil. Mas se n\u00e3o for assim, \u00e9 melhor procurar outra profiss\u00e3o&#8230; &quot;<\/p>\n<p>Essa li\u00e7\u00e3o de Wlado \u00e9 lembrada por Martino em seu livro. Uma li\u00e7\u00e3o que o orientou em seu cotidiano e na decis\u00e3o de fazer o melhor jornalismo na pequena, mas \u00e1gil reda\u00e7\u00e3o da Gazela do Ipiranga, onde \u00e9 diretor desde 1978. <\/p>\n<p>&#8212; Na \u00e9poca da repress\u00e3o, os jornais de bairro eram os \u00fanicos porta-vozes da comunidade, lembra. Incentivavam a forma\u00e7\u00e3o das sociedades amigos de bairro, das associa\u00e7\u00f5es, clubes, valorizando a quest\u00e3o da cidadania. <\/p>\n<p>Quando Martino come\u00e7ou a exercitar a responsabilidade diante dos fatos, n\u00e3o existiam os manuais de reda\u00e7\u00e3o para limitar pensarnentos e padronizar os textos. Da\u00ed ter descoberto a for\u00e7a das palavras e a import\u00e2ncia da reflex\u00e3o. Transformou suas mat\u00e9rias, que tamb\u00e9m tem publicado nas sess\u00f5es de cultura de diversos jornais e revistas, e editoriais em uma conversa com o leitor. <\/p>\n<p>De cidad\u00e3o para cidad\u00e3o. <\/p>\n<p>Nesse clima, Martino registra em \u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga toda a seq\u00fc\u00eancia dos movimentos e da luta das Diretas-J\u00e1 at\u00e9 a morte de Tancredo Neves. Lembra, ainda, do dia em que o mundo assistiu estarrecido \u00e0 explos\u00e3o da nave Challenger, da paix\u00e3o de carnaval do presidente Itamar Franco, da dor da morte de Ayrton Senna entre outras noticias que movimentaram o Pa\u00eds. <\/p>\n<p>&#8212; Creio n\u00e3o ser imodesto dizer que participei de um conjunto de inquestion\u00e1veis avan\u00e7os e conquistas da emergente imprensa comunit\u00e1ria, diz Martino.<br \/>\nAli\u00e1s, estou certo de que se pode fazer o melhor jornalismo tanto na chamada grande imprensa como em qualquer um dos respeit\u00e1veis jornais de bairro da capital. Entendo mesmo que os valores morais, \u00e9ticos e mesmo profissionais se equivalem para todos os jornalistas, seja qual for o \u00f3rg\u00e3o em que atue e propague o leg\u00edtimo direito do homem \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Rodolfo Carlos Martino \u00e9 paulistano do Cambuci. Nasceu no dia 4 de dezembro de 1950. Cresceu \u00e0s margens do Ipiranga, apaixonado por futebol. Estudou pelos col\u00e9gios da regi\u00e3o e casou-se com Maria In\u00eas que morava no bairro. Tem um filho, Rodolfo, de 17 anos, goleiro do juvenil de Santo Andr\u00e9, com quem divide tamb\u00e9m a paix\u00e3o pela m\u00fasica de Benjor, ou Jorge Ben. <\/p>\n<p>&#8212; Foi vivendo e trabalhando nesse bairro que entendi a grandiosidade do legado de Dostoievisky: Para ser universal, basta falar de sua aldeia, reflete esse jornalista. Observador do mundo.   (09\/06\/1997)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(* Leila Kiyomura Moreno, Jornal da USP)<\/p>\n<p>\u00c9 uma intimidade que conquistou com o trabalho. O trabalho de escolher, pensar e publicar as palavras certas. 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