{"id":10152,"date":"1999-02-05T00:00:00","date_gmt":"1999-02-05T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T03:07:33","modified_gmt":"2017-09-15T03:07:33","slug":"e-agora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/e-agora\/","title":{"rendered":"E agora&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Ano passado morri, mas este ano eu n\u00e3o morro&quot; (Belchior)<\/p>\n<p>01. Certa ocasi\u00e3o, ouvi de um amigo que outro amigo comum havia feito o seguinte coment\u00e1rio sobre os meus textos: &quot;D\u00e1 para saber exatamente a idade dele pelos autores e cita\u00e7\u00f5es que faz na coluna, como se nada de novo acontecesse sob o sol&quot;. Claro que o primeiro amigo veio correndo me contar a observa\u00e7\u00e3o, acrescentando um ar de fofocagem expl\u00edcita a situa\u00e7\u00e3o. Esperava, talvez, que eu retrucasse no mesmo n\u00edvel &#8212; coisa que, de resto, n\u00e3o fiz. Preferi sorrir e silenciar. Primeiro porque h\u00e1 um fundo de verdade &#8212; somos produto do nosso tempo, das nossas op\u00e7\u00f5es que, por vezes, nos custam trincos e rachaduras na alma. Segundo, porque verdadeiramente n\u00e3o h\u00e1 nada de novo sob o sol, ao menos no sentido de nos fazer acreditar e ter esperan\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>02. Vamos ver se consigo me explicar. H\u00e1 uma roupagem nova, valoriza-se a tal modernidade, sob a tutela madrasta da globaliza\u00e7\u00e3o. Mas, no fundo, no fundo, tudo permanece na mesma, o que significa dizer pior. Quando n\u00e3o se avan\u00e7a, s\u00e3o inevit\u00e1veis a estagna\u00e7\u00e3o e o retrocesso.<\/p>\n<p>03. Tomemos este pa\u00eds\u00e3o chamado Brasil como exemplo. Vivemos os \u00faltimos quatro anos de puro embevecimento com as verdades oficiais nos elevando \u00e0s portas do tal Primeiro Mundo. Mesmo que a voz rouca das ruas clamasse por mais emprego e menos mis\u00e9ria, a farra dos importados e da classe m\u00e9dia em Miami tapava o sol da desilus\u00e3o com a peneira da mentira, pedra de toque dos pronunciamentos de FHC, Malan e Cia. Tendo a fal\u00e1cia do Plano Real como sustent\u00e1culo, o presidente reelegeu-se. De acordo com as hostes planaltinas, o Pa\u00eds finalmente caminhava para seu grande destino, merc\u00ea das grandiosas conquistas sociais da dobrada PSDB\/PFL que, desta forma, mereceria permanecer no Poder por mais 20 anos.<\/p>\n<p>04. Bastaram trinta e poucos dias do segundo mandato para o brasileiro (aquele que sempre paga a conta das orelhadas dos governantes) tomasse na lata a verdade dos fatos. E desse atualidade \u00e0s inquieta\u00e7\u00f5es do poeta Drummond de Andrade em meados dos anos 60: &quot;E agora, Jos\u00e9? A festa acabou&#8230;&quot;<\/p>\n<p>05. A demiss\u00e3o do presidente do Banco Central, Francisco Lopes, \u00e9 uma clara evid\u00eancia da crise de autoridade que se instalou em Bras\u00edlia. Dezoito dias depois da posse, Chico Lopes perdeu o cargo porque defendeu a obrigatoriedade do BC administrar as taxas cambiais. Pol\u00edtica que n\u00e3o se afina com os desejos e planos do Fundo Monet\u00e1rio Internacional que, por sua vez, quer o c\u00e2mbio livre, leve e solto, com as varia\u00e7\u00f5es do d\u00f3lar a flanar pelas alturas. Exige mais o FMI, nosso tutor e algoz desde o tempo do militarismo: que os juros sejam aumentados a cada rodada de fuga de d\u00f3lares para o estrangeiro. O ministro Pedro Malan ouviu subserviente a cantilena dos t\u00e9cnicos. Lopes esperneou &#8212; e dan\u00e7ou. Para seu lugar foi nomeado Arm\u00ednio Fraga, que trabalhou com o megaespeculador George Soros. Dizem os entendidos que a escolha de FHC patenteia a orienta\u00e7\u00e3o de que &quot;o mercado controle o mercado&quot;. Seja l\u00e1 o que isso possa efetivamente ser, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que \u00e9 melhor apertar o cinto, pois o piloto sumiu&#8230;<\/p>\n<p>06. Os versos do cearense Belchior que encimam estas toscas linhas, na verdade, prop\u00f5em que o brasileiro n\u00e3o entregue os pontos apesar da adversidade. N\u00e3o sob o prisma do nh\u00e9m-nh\u00e9m-nh\u00e9m dos discursos, mas claramente porque s\u00f3 n\u00f3s mesmos podemos reverter esse quadro. Discutindo, participando, interferindo de alguma forma na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade melhor. Queria que os versos soassem como uma alavanca para novos sonhos e novas lutas. Se deixarmos nos abater, a\u00ed, sim, se far\u00e1 o caos&#8230;<\/p>\n<p>Um adendo: Belchior (lembra-se?) fez a can\u00e7\u00e3o no in\u00edcio dos anos 70, no tempo negro da ditadura verde-oliva e da tortura. Hoje n\u00e3o sabemos ao certo quem \u00e9 por n\u00f3s, quem est\u00e1 contra n\u00f3s, mas conv\u00e9m continuar lutando. Ou como conclui a can\u00e7\u00e3o: &quot;N\u00e3o sou feliz, mas n\u00e3o sou mudo. Hoje canto muito mais&#8230;&quot; Ah! quanto a minha idade, estou na curva dos 48, mas ainda sonho e luto, t\u00e1!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Ano passado morri, mas este ano eu n\u00e3o morro&quot; (Belchior)<\/p>\n<p>01. 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