{"id":10170,"date":"2002-06-28T00:00:00","date_gmt":"2002-06-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:26:12","modified_gmt":"2017-09-14T17:26:12","slug":"jogai-por-nos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jogai-por-nos\/","title":{"rendered":"Jogai por n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Existe algo mais importante do que a l\u00f3gica: \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o&quot; (Hitchcock)<\/p>\n<p>01. Gostei muito da fala do t\u00e9cnico da sele\u00e7\u00e3o, Luiz Felipe Scolari, ap\u00f3s a vit\u00f3ria sobre a Inglaterra na madrugada de sexta, dia 21. Ele falou que os brasileiros deveriam acreditar mais no Brasil, e n\u00e3o apenas no futebol: em todos os sentidos. Bom isso. Ver que na hora em que exarcebamos nosso sentido de brasilidade na mais importante competi\u00e7\u00e3o esportiva do mundo, o art\u00edfice dessa vitoriosa jornada chama a aten\u00e7\u00e3o de que este \u00e9 um Pa\u00eds vi\u00e1vel em todos os sentidos. E que, se nos dermos ao trabalho, poderemos reconstruir essa Na\u00e7\u00e3o que hoje anda em cacos pela in\u00e9pcia dos governantes e pol\u00edticos, sim. Mas tamb\u00e9m e principalmente pela letargia de uma sociedade que habituou-se ao deixa estar pra ver como \u00e9 que fica.<\/p>\n<p>02. N\u00e3o estou, como muitos, a contar com os ovos da vit\u00f3ria antes do tempo. Sei que nossa sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um time imbat\u00edvel e a Alemanha \u00e9 uma tradicional\u00edssima tricampe\u00e3 mundial. Portanto, uma camisa de respeito. Ademais, essa foi uma Copa do futebol pragm\u00e1tico em detrimento do espet\u00e1culo. Mas escrevi acima que foi uma jornada vitoriosa porque assim considero a surpreendente campanha do &quot;incr\u00edvel ex\u00e9rcito brancale\u00f4nico&quot; que Felip\u00e3o levou \u00e0 Cor\u00e9ia e ao Jap\u00e3o. Claro que todos queremos o penta, mas pelo que j\u00e1 fez e conquistou a sele\u00e7\u00e3o, desde j\u00e1, s\u00f3 merece aplausos.<\/p>\n<p>03. A sele\u00e7\u00e3o nos legou algumas li\u00e7\u00f5es preciosas. De solidariedade, por exemplo. Quando trabalhamos em grupo, o bem comum deve ser o objetivo de todos. Para isso, \u00e9 que as individualidades convergem. Outra li\u00e7\u00e3o: a supera\u00e7\u00e3o. O grupo saiu do Brasil absolutamente desacreditado, motivo de piadas dos jornais argentinos e descaso dos jogadores franceses, sem falar na execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos pr\u00f3prios jornalistas brasileiros. Havia at\u00e9 uma campanha em prol do salvador da p\u00e1tria, Rom\u00e1rio. At\u00e9 porque dois dos principais nomes da Fam\u00edlia Scolari (como pejorativamente a Imprensa passou a chamar a sele\u00e7\u00e3o) estavam com s\u00e9rios problemas f\u00edsicos, Ronaldo e Rivaldo. O trabalho conjunto da equipe m\u00e9dica e dos fisicultores e a vontade dos atletas de participar dessa Copa foram fundamentais. Vale lembrar que esse pessoal todo est\u00e1 h\u00e1 dois meses longe de casa.<\/p>\n<p>04. Foi fundamental a transpar\u00eancia com que os problemas foram tratados. E, neste ponto, destaca-se a humildade de se colocar na condi\u00e7\u00e3o de aprendiz e pleiteante. Ronaldo Fen\u00f4meno, Rivaldo, Roberto Carlos e Cafu s\u00e3o jogadores reconhecidos internacionalmente. N\u00e3o precisam provar mais nada a ningu\u00e9m. Mesmo assim, enfrentaram as eliminat\u00f3rias e o mundial com desprendimento e, n\u00e3o raras vezes, toleraram cr\u00edticas e mais cr\u00edticas com a certeza de quem est\u00e1 com a raz\u00e3o. O Cafu \u00e9 bom exemplo. \u00c9 o jogador que mais vezes vestiu a camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira. Foi campe\u00e3o em todos os times que defendeu. S\u00e3o Paulo, Palmeiras e Roma. Faz neste domingo sua terceira final consecutiva de Copa do Mundo, proeza que nenhum outro atleta conseguiu na Hist\u00f3ria do Futebol. Mesmo assim, \u00e9 comum ouvir que ele s\u00f3 joga na sele\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o apareceu outro&#8230;<\/p>\n<p>05. Ali\u00e1s, neste quesito humildade, e aqui um m\u00e9a-culpa, a pr\u00f3pria imprensa esportiva poderia aprender com os garotos da sele\u00e7\u00e3o. Muitos dos nossos mais ilustres cronistas poderiam agora vir a p\u00fablico e dizer: erramos todos os nossos progn\u00f3sticos. N\u00e3o entendemos nada de futebol. Prestamos um desservi\u00e7o pois desinformamos voc\u00eas em nome do nosso clubismo, do nosso bairrismo, das nossas paix\u00f5es. O exemplo mais not\u00f3rio dessa incompet\u00eancia se deu no jogo de quarta. Durante o intervalo da partida, o ex-jogador Casagrande afirmou que Luiz\u00e3o deveria ter entrado no lugar de Ronaldinho. Afirma\u00e7\u00e3o que de pronto foi corroborada por Zagallo e S\u00e9rgio Noronha&#8230; Quatro minutos depois, o gol de puro talento de Ronaldinho entre tr\u00eas zagueiros e a retifica\u00e7\u00e3o constrangida do boleiro:<br \/>\no Felip\u00e3o errou, mas acertou deixando Ronaldinho em campo.<\/p>\n<p>06. Uma outra li\u00e7\u00e3o dessa turma \u00e9 a de unir alegria com seriedade. A garotada se livra da press\u00e3o com rodas de pagode e ax\u00e9 m\u00fasic, al\u00e9m de muitas brincadeiras. Uma cena na TV reverenciou a brasilidade e me cativou de vez. Roque J\u00fanior e Ronaldinho Ga\u00facho dividiam o fone do mesmo walk-man e desceram do \u00f4nibus da delega\u00e7\u00e3o, depois do jogo, cantando e suingando &quot;Espelho&quot;, do saudoso Jo\u00e3o Nogueira. S\u00e3o garotos de vinte e poucos anos, origem humilde e o peso de redimir uma Na\u00e7\u00e3o sofrida que ousa sonhar em ser o Pa\u00eds do Futuro no presente. Um mora em Paris e outro em Mill\u00e3o, ruim n\u00e9? Estavam ali brincando de ser feliz, lembrando o velho Nogueira e logo em seguida saudando o povo brasileiro no melhor estilo Zeca Pagodinho: &quot;Deixa a vida me levar. Vida leva eu.&quot; \u00c9 isso a\u00ed garotada, jogai por n\u00f3s!!!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Existe algo mais importante do que a l\u00f3gica: \u00e9 a imagina\u00e7\u00e3o&quot; (Hitchcock)<\/p>\n<p>01. 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