{"id":10211,"date":"2001-09-28T00:00:00","date_gmt":"2001-09-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:58:00","modified_gmt":"2017-09-14T17:58:00","slug":"o-que-se-convencionou-chamar-saudade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-se-convencionou-chamar-saudade\/","title":{"rendered":"O que se convencionou chamar saudade"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Devemos ter velhas lembran\u00e7as e novas esperan\u00e7as&quot; (Hossayeu)<\/p>\n<p>01. Pertence ao leitor Ant\u00f4nio Bernardino a foto que ilustra nossa se\u00e7\u00e3o de hoje. O flagrante &#8212; como escreviam os jornais de antigamente &#8212; mostra a cena comum nos finais de semana na lagoa do Sacoman, onde se situava a sede social e, pasmem, nautica do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga no transcorrer dos anos 40. Ao fundo se v\u00ea o imponente Castelo dos Samaronne cercado por palmeiras e ampla vegeta\u00e7\u00e3o. Hoje, por essas bandas, temos o Complexo Vi\u00e1rio Escola de Engenharia Mackenzie e o in\u00edcio da avenida Tancredo Neves. Coisas do que se convencionou chamar de desenvolvimento&#8230;<\/p>\n<p>02. Bernardino n\u00e3o sabe dizer quem s\u00e3o os personagens da foto. Mas, os que t\u00eam a\u00ed por volta de 50 ou um pouco mais podem reconhecer alguns tipos comuns \u00e0 vida de todos n\u00f3s naqueles idos tempos: o pai orgulhoso com o filho no colo, o primo com porte atl\u00e9tico e pose de gal\u00e3, o tio brincalh\u00e3o que, com tr\u00eas ou quatro n\u00f3s, transformava qualquer len\u00e7o em bizarro gorro contra o sol e outros tantos boas vidas que sempre apareciam nessas horas de puro prazer e amizade. Ah!, claro, que mesmo fora do barco, apesar da roupa de marinheiro, o primo menor teria que aparecer no inst\u00e2ntaneo que depois a nona veria orgulhosa&#8230;<\/p>\n<p>03. Mais do que qualquer toque de nostalgia, h\u00e1 um consider\u00e1vel desconforto em contrapor essa cena\/lembran\u00e7a com a dura realidade de nossos dias, especialmente com o p\u00f3s 11 de setembro de tantas amea\u00e7as, incertezas e estupidez. A sensa\u00e7\u00e3o que temos ao despertar, a cada manh\u00e3, \u00e9 que outra extraordin\u00e1ria bobagem &#8212; da qual, a humanidade vai se arrepender por s\u00e9culos e s\u00e9culos &#8212; est\u00e1 prestes a ser realizada tenha l\u00e1 nome, raz\u00e3o e justificativa que tiver.<\/p>\n<p>04. Um triste exemplo, que pode se transformar em outra trag\u00e9dia hist\u00f3rica com milhares e milhares de mortes, \u00e9 a fuga desesperada de milh\u00f5es de afeg\u00e3os que tentam sair do pa\u00eds diante da possibilidade dos bombardeios americanos e se atropelam nas fronteiras dos pa\u00edses vizinhos, especialmente o Paquist\u00e3o. Enquanto a poderosa armada americana movimenta-se estrategicamente pelos arredores e aguarda a ordem para o ataque, o mundo assiste igualmente at\u00f4nito &#8212; e omisso &#8212; a cenas que fazem despencar qualquer possibilidade de que algum dia homem v\u00e1 mesmo tomar vergonha na cara e n\u00e3o expor o seu semelhante a tamanhos absurdos.<\/p>\n<p>05. Acho que vale a pena retomar o tempo da foto. Viv\u00edamos um impreciso p\u00f3s-guerra que, queiramos ou n\u00e3o, foi entendido pelos povos como um per\u00edodo de reconstru\u00e7\u00e3o. Entendeu-se logo que todos perdemos com a II Grande Guerra e as barbaridades que se cometeu contra judeus e os povos subjulgados pela for\u00e7a do Reich. Havia &#8212; pode parecer ingenuidade &#8212; a esperan\u00e7a de que homens de boa-vontade tomassem a frente sempre que um grande cataclisma fosse iminente, algo que fosse contra o interesse do que tamb\u00e9m se convencionou chamar bem-comum.<\/p>\n<p>06. Era um tempo de conven\u00e7\u00f5es, \u00e9 certo. De alguma ingenuidade, tamb\u00e9m. Com homens de chap\u00e9us, s\u00f3brios nos gestos e contidos nas palavras. Ainda os vejo, na parede da mem\u00f3ria. No ir e vir de seu trabalho que, \u00e0quele tempo, tinha hora para terminar. Desciam do bonde em movimento em plena rua Silva Bueno, alinhavam o la\u00e7o da gravata como se estivessem reprumando a pr\u00f3pria dignidade e recompunham o passo. Tinham o olhar certo no futuro. Pensavam em algo para si, estudos para o filho e, nas cerim\u00f4nias religiosas dominicais, rezavam no fundo da igreja para que o mundo seguisse em paz. Este era o bem maior de todos n\u00f3s. Se nos faltasse, lembro meu pai dizer em sua simplicidade, os outros todos &#8212; riqueza, poder, bens, fama, saber &#8212; de nada adiantariam, pois n\u00e3o alcan\u00e7ar\u00edamos outro bem supremo, chamado felicidade. N\u00e3o h\u00e1 felicidade plena enquanto houver uma pessoa infeliz no mundo &#8212; ensina o velho.<\/p>\n<p>07. Nesta manh\u00e3 chuvosa de quinta, 27 de setembro, mesmo assim, ainda vale a pena dizer: Feliz Aniver\u00e1rio, Ipiranga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Devemos ter velhas lembran\u00e7as e novas esperan\u00e7as&quot; (Hossayeu)<\/p>\n<p>01. Pertence ao leitor Ant\u00f4nio Bernardino a foto que ilustra nossa se\u00e7\u00e3o de hoje. 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