{"id":10241,"date":"2002-02-22T00:00:00","date_gmt":"2002-02-22T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T17:40:58","modified_gmt":"2017-09-14T17:40:58","slug":"quando-o-brasil-vai-demarrar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/quando-o-brasil-vai-demarrar\/","title":{"rendered":"Quando o Brasil vai demarrar?"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Tudo o que pe\u00e7o \u00e9 um c\u00e9u sobre mim e um caminho a meus p\u00e9s&quot; (Stevenson)<\/p>\n<p>01. A declara\u00e7\u00e3o do deputado me deixou surpreso. N\u00e3o pelo conte\u00fado da informa\u00e7\u00e3o. Mas, pelo uso de um verbo pouco comum em nosso dia-a-dia. A frase era mais ou menos essa que escrevo a seguir: se a candidatura de um certo ministro n\u00e3o demarrar at\u00e9 junho etc etc&#8230;. Como nunca havia ouvido &#8212; e sequer sonhava com a exist\u00eancia de tal palavra &#8211;, fui aos dicion\u00e1rios para desvendar o mist\u00e9rio. Confesso que cheguei at\u00e9 mesmo a duvidar da exist\u00eancia do tal verbo. Mas eis que, num dos comp\u00eandios, surge o significado de demarrar: desatar, cortar ou soltar amarras (referindo-se a embarca\u00e7\u00f5es), ir adiante&#8230; De origem francesa (demarr\u00e8), \u00e9 comumente substitu\u00eddo por deslanchar, decolar&#8230;<\/p>\n<p>02. Sei a quem o tal deputado estava se referindo, e o leitor tamb\u00e9m. Est\u00e1 evidente o esfor\u00e7o do Pal\u00e1cio do Planalto para alavancar a candidatura do ministro Jos\u00e9 Serra. At\u00e9 o programa do Gugu faz parte da agenda do candidato Serra que, segundo pesquisas recentes, estancou na faixa dos 7 por cento. Com esse \u00edndice \u00ednfimo, freq\u00fcentemente os advers\u00e1rios pol\u00edticos fazem ironias \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es do ministro. Lula, h\u00e1 algumas semanas, rebateu a proposta tucana de debate sobre planos de governo, com chiste. Disse que, com os n\u00fameros atuais, o ministro s\u00f3 poderia debater com o sempre candidato En\u00e9as. Roseana, que rapidamente deixou de ser a queridinha da m\u00eddia, n\u00e3o fez diferente. Para ela, Serra tem que crescer no m\u00ednimo 15 pontos nas pesquisa de inten\u00e7\u00e3o de votos para, s\u00f3 depois, arvorar-se a critic\u00e1-la&#8230;<\/p>\n<p>03. Mas deixemos as pendengas eleitorais de lado, e voltemos ao verbo que tanta estranheza me causou. Demarrar. Fiquei pensando em tantas e tantas coisas boas que, no Brasil, amea\u00e7aram, mas por fim n\u00e3o deslancharam. A democracia, por exemplo. Pens\u00e1vamos que, ao elegermos nossos governantes, ter\u00edamos enfim um pa\u00eds contempor\u00e2neo e justo. Mas, desde as quebradas dos anos 80, o Pa\u00eds foi um n\u00e3o-demarrar s\u00f3: a elei\u00e7\u00e3o de Tancredo Neves, o Plano Cruzado, o governo Sarney e seus fiscais, a Constituinte, Collor e o fim dos maraj\u00e1s, o p\u00f3s-Impeachment, o Plano Real, FHC, a sele\u00e7\u00e3o de 98, FHC 2, as CPIs,o basta aos pol\u00edticos corruptos com a den\u00fancia de uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos envolvendo nomes de medalh\u00f5es como Maluf, J\u00e1der, Lalau, ACM, entre outros&#8230;<\/p>\n<p>04. \u00c9 uma lista que n\u00e3o tem fim. Ficamos sempre no agora vai e acabamos n\u00e3o indo. Invariavelmente, comprometemos o que deveria ser o objetivo final de nosso empenho, a tal justi\u00e7a social. A constru\u00e7\u00e3o de um Brasil para todos os brasileiros.<\/p>\n<p>05. Uma hist\u00f3ria local que j\u00e1 devo ter contado aqui, mas volto a contar porque serve de alerta: a expans\u00e3o da favela de Heli\u00f3polis.<\/p>\n<p>06. At\u00e9 in\u00edcio dos anos 70, toda aquela \u00e1rea entre Ipiranga e S\u00e3o Caetano era uma sucess\u00e3o de campos de futebol e terrenos vazios. O saudoso professor Francisco Teodoro Mendes idealizou para o lugar a constru\u00e7\u00e3o de um conjunto poliesportivo. Posteriormente, quando surgiu o primeiro N\u00facleo Habitacional Tempor\u00e1rio, o ent\u00e3o vereador Almir Guimar\u00e3es alinhavou um projeto de um p\u00f3lo habitacional com preserva\u00e7\u00e3o das \u00e1reas verdes. Esse projeto ganhou contornos mais n\u00edtidos quando o deputado federal Arnaldo Madeira era secret\u00e1rio da Habita\u00e7\u00e3o do prefeito M\u00e1rio Covas, em 83\/84. J\u00e2nio Quadros assumiu a Prefeitura e o projeto n\u00e3o decolou. Os janistas ent\u00e3o prepararam outro que n\u00e3o foi em frente na gest\u00e3o seguinte, da prefeita Erundina. Assim Heli\u00f3polis (na tradu\u00e7\u00e3o, a cidade do sol) virou o que hoje \u00e9: a maior favela da cidade.<\/p>\n<p>07. Claro que motivos pol\u00edticos levaram uns e outros a criar e a vetar projetos para o local. Poucos pensaram no bem-estar social que, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 objetivo final de todo trabalho p\u00fablico. Ali\u00e1s, ontem, na sala de aula, ao comentar a not\u00edcia com os alunos, ouvi de um deles o atual retrato do Brasil: professor, por aqui, pelo jeito a \u00fanica coisa que pode demarrar \u00e9 a epidemia de dengue.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Tudo o que pe\u00e7o \u00e9 um c\u00e9u sobre mim e um caminho a meus p\u00e9s&quot; (Stevenson)<\/p>\n<p>01. A declara\u00e7\u00e3o do deputado me deixou surpreso. 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