{"id":10251,"date":"1999-02-19T00:00:00","date_gmt":"1999-02-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T03:06:57","modified_gmt":"2017-09-15T03:06:57","slug":"alegorias-cotidianas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/alegorias-cotidianas\/","title":{"rendered":"Alegorias cotidianas"},"content":{"rendered":"<p>A mo\u00e7a bonita, que j\u00e1 foi Hilda Furac\u00e3o numa minis\u00e9rie, me diz como est\u00e3o acess\u00edveis as tarifas telef\u00f4nicas. Ela est\u00e1 mais bonita nesse an\u00fancio de TV, e tamb\u00e9m mais persuasiva: &quot;Est\u00e1 esperando o qu\u00ea? Vai, liga, vai&#8230;&quot; N\u00e3o passa pela minha cabe\u00e7a desobedec\u00ea-la. Em segundos, estou discando&#8230; Do outro lado da linha, a voz impessoal do gravador faz desmoronar todos os meus anseios: &quot;Esta caixa postal est\u00e1 repleta de mensagens. Por favor, tente outra vez, mais tarde&quot;. Entendo que este &quot;mais tarde&quot; pode tamb\u00e9m significar &quot;tarde demais&quot;, quase sempre \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Volto ao meu Carnaval na TV e a mesmice que as emissoras programaram. \u00c9 certo que a exibi\u00e7\u00e3o das escolas revelam o paradoxo deste Brasil de fim de mil\u00eanio. Ostentam um luxo inexed\u00edvel que se contrap\u00f5e \u00e0s mis\u00e9rias nossas de cada dia. Apesar da minha rabugice, reconhe\u00e7o que \u00e9 melhor que assim seja. Imagine como estaria a frustra\u00e7\u00e3o do brasileiro sen\u00e3o houvesse essa v\u00e1lvula de escape, travestida de ilus\u00f5es e fantasias? Mas, toquemos nosso enredo solit\u00e1rio diante da telinha. Eis que em outro comercial surge um senhor at\u00e9 que bem apessoado que nos ensina: &quot;Essa crise passar\u00e1&#8230;&quot; Antes, por\u00e9m, faz l\u00e1 seus c\u00e1lculos e com jeito de sabich\u00e3o explica: &quot;quem tem mais de 40 anos j\u00e1 passou por oito planos econ\u00f4micos&#8230;&quot; e subtende-se sobreviver\u00e1 a mais este momento de asperezas sociais.<\/p>\n<p>Subtendo, tamb\u00e9m &#8212; e, parece-me, assim desejam os marqueteiros oficiais &#8212; que os brasileiros devem reclamar menos (ou seja, nada de pertuba\u00e7\u00f5es sociais: greves, passeatas, manifesta\u00e7\u00f5es, essas bobagens), trabalhar mais (desemprego? que desemprego, cara, arrume algo para fazer, vamos, anda), abrir m\u00e3o de alguns luxos (exemplo: para que caf\u00e9 com leite? vai s\u00f3 de caf\u00e9 ou s\u00f3 de leite, ou jejue; \u00e9 bom para o esp\u00edrito. Idem para o arroz com feij\u00e3o, fil\u00e9 com fritas etc) e seguir em frente sem reclamar do governo que, ali\u00e1s, vem fazendo o seu melhor. E \u00e9 nessa batida, com algum sacrif\u00edcio, que vamos superar mais este momento ruim. A\u00ed est\u00e3o o presidente, o Malan, o ACM, o FMI e at\u00e9 os des\u00edgnios do semi-deus chamado &quot;Mercado Financeiro&quot; que olhar\u00e3o por n\u00f3s&#8230; N\u00e3o quero ferir o coro dos contentes (e significativa parcela da m\u00eddia), mas algo me diz que n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed. <\/p>\n<p>O brasileiro que enfrenta a barra do dia-a-dia sabe que a hora n\u00e3o \u00e9 de discursos, palavr\u00f3rios e quetais. O Governo esperou muito para mexer no Real e Itamar Franco n\u00e3o tem nada a ver com a degringolada de nossa Economia. FHC, tucanos e pefelistas pensaram unicamente em reeleger-se, depois voltaram-se para o que restou do Pa\u00eds com jeito de foli\u00e3o que caiu do carro-aleg\u00f3rico. Deslumbraram-se com o Poder, agora mesmo entre plumas e lantejoulas sabem que nada podem fazer. Deixaram para &quot;mais tarde&quot;, o que infelizmente para n\u00f3s, meros carregadores das alegorias cotidianas, pode significar &quot;tarde demais&quot;. Quase sempre \u00e9 assim, t\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mo\u00e7a bonita, que j\u00e1 foi Hilda Furac\u00e3o numa minis\u00e9rie, me diz como est\u00e3o acess\u00edveis as tarifas telef\u00f4nicas. 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