{"id":10284,"date":"1986-09-12T00:00:00","date_gmt":"1986-09-12T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T20:01:31","modified_gmt":"2017-09-13T20:01:31","slug":"ao-vivo-e-sem-cores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/ao-vivo-e-sem-cores\/","title":{"rendered":"Ao vivo e sem cores"},"content":{"rendered":"<p>A TV Cultura de S\u00e3o Paulo mostra um teleteatro exatamente como se fazia nos anos 50, quando ainda n\u00e3o havia v\u00eddeo-teipe nem cor.<\/p>\n<p>&#8220;Faz\u00edamos uma televis\u00e3o sem modelos. A emo\u00e7\u00e3o era a base de tudo. Valia a espontaneidade de nossos 20 e poucos anos, a ousadia e a liberdade para criar tamanhas loucuras&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Mesmo revelando um medo enorme da nostalgia (&#8220;Essa coisa de ficar falando s\u00f3 do passado me apavora&#8221;), o roteirista Walter George Durst mostrava-se muito \u00e0 vontade na noite de segunda-feira, 8, nos est\u00fadios de TV Cultura de S\u00e3o Paulo. Ele l\u00e1 estava para assistir ao ensaio geral do teleteatro Calunga, que a RTC (R\u00e1dio e TV Cultura) leva ao ar nesta quarta-feira, 17, \u00e0s 22h20, no melhor estilo do hist\u00f3rico TV de Vanguarda. Ou seja: inteiramente ao vivo, sem grava\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo-teipe e em preto e branco.<\/p>\n<p>Ao lado de Dion\u00edsio Azevedo e de Cassiano Gabus Mendes, Durst foi um dos idealizadores e realizadores do programa que, exibido na velha TV Tupi, de 1952 a 1963, formou toda uma gera\u00e7\u00e3o de atores, como Lima Duarte, Henrique Martins, Lu\u00eds Gustavo, o pr\u00f3prio Dion\u00edsio Azevedo, Lia de Aguiar, Laura Cardoso, David Neto e Jos\u00e9 Parisi, entre outros. &#8220;O TV de Vanguarda era nossa vida. Havia uma entrega total. Acredit\u00e1vamos naquela utopia&#8230;&#8221;, lembrava Durst. &#8220;Preferi nem reler o texto que adaptei para TV em 1956 e que se transformou num dos teleteatros mais significativos da s\u00e9rie. Acho que n\u00e3o resistiria \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de reescrev\u00ea-Io &#8211; o que, por certo, roubar-lhe-ia toda a autenticidade&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A id\u00e9ia desta remontagem, na verdade, n\u00e3o chega a comover Durst; roteirista de recentes sucessos como as miniss\u00e9ries da Globo, Rabo de Saia, Grande Sert\u00e3o: Veredas e Mem\u00f3rias de um Gigol\u00f4, embora, para ele, a iniciativa seja sugestiva. Sobretudo pela forma inusitada de se homenagear os 36 anos da implanta\u00e7\u00e3o da televis\u00e3o no Brasil, que se comemoram dia 18 de setembro. De resto, vale pela participa\u00e7\u00e3o de atores como Tony Ramos e Jofre Soares, que encabe\u00e7am o elenco, e tamb\u00e9m porque Calunga \u00e9 um texto excelente, de uma incr\u00edvel atualidade&#8221;.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o diretor da nova vers\u00e3o, Henrique Martins, preferiu dar uma import\u00e2ncia apenas simb\u00f3lica \u00e0 encena\u00e7\u00e3o. Reiterou que \u00e9 &#8220;uma merecida homenagem \u00e0queles que criaram, sem quaisquer condi\u00e7\u00f5es, uma escola de interpreta\u00e7\u00e3o que persiste ainda hoje&#8221;. E assinalou: &#8221; O novo TV de Vanguarda, deve ser visto como uma fotografia sem retoques e valorizado pela contribui\u00e7\u00e3o que pretende legar \u00e0 cultura nacional&#8221;.<\/p>\n<p>MEM\u00d3RIA &#8211; O aspecto documental \u00e9 um dos principais objetivos do rec\u00e9m-criado N\u00facleo de Fic\u00e7\u00e3o da TV Cultura de S\u00e3o Paulo, coordenado por Helo\u00edsa Castellar e Ant\u00f4nio Carlos Assump\u00e7\u00e3o. Reviver Calunga aos moldes antigos \u00e9 uma forma de resgatar para a mem\u00f3ria da TV brasileira um de seus momentos mais preciosos &#8211; quando ainda n\u00e3o havia v\u00eddeo-teipe. Segundo Helo\u00edsa, outra pioneira da TV, &#8220;basta isso para saber que n\u00e3o foram em v\u00e3o os dois meses de trabalho que o n\u00facleo desenvolveu&#8221;.<\/p>\n<p>O que se pretende &#8211; completou Assump\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 recriar, com precis\u00e3o, todo o ambiente da televis\u00e3o naquele per\u00edodo e a forma como era realizado o TV de Vanguarda. Por isso, o programa ser\u00e1 todo feito em est\u00fadio, ao vivo, em preto e branco, com a mesma marca\u00e7\u00e3o e com alguns atores, como Tur\u00edbio Ruiz, Bentinho e Batucada, que revivem personagens da vers\u00e3o original.<\/p>\n<p>Na primeira montagem de Calunga, os protagonistas eram Lima Duarte (Bernado) e Dion\u00edsio Azevedo (coronel Tot\u00f3). Agora, nesses pap\u00e9is, est\u00e3o Tony Ramos e Jofre Soares &#8211; ambos absolutamente entusiasmados com o projeto. &#8220;Nem hesitei em aceitar o convite&#8221;, dizia o global Tony Ramos. &#8220;Tive o privil\u00e9gio de trabalhar na Tupi durante 12 anos, cheguei mesmo a fazer alguns TV de Vanguarda. Era uma escola de interpreta\u00e7\u00e3o. Achei esta remontagem uma oportunidade \u00fanica de homenagear aquelas pessoas que tanto me ensinaram. O ator, segundo Tony, \u00e9 &#8220;um bicho sempre pronto para fazer explodir a emoc\u00e3o&#8221;. Por isso, ele n\u00e3o v\u00ea maiores problemas em representar ao vivo. Ali\u00e1s, uma das li\u00e7\u00f5es que aprendeu na velha Tupi foi a de nunca perder a sensa\u00e7\u00e3o de que est\u00e1 representando ao vivo, mesmo quando h\u00e1 grava\u00e7\u00e3o em teipe.<\/p>\n<p>&#8220;Na realidade, os recursos da tecnologia&#8221;, diz Tony Ramos, &#8220;devem estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do autor. Servem para que se melhore a composi\u00e7\u00e3o do personagem, que se burilem suas caracter\u00edsticas. Mas, s\u00f3. O ator deve sempre se sobrepor ao teipe e preservar a impress\u00e3o que, ao vivo, est\u00e1 fazendo teatro na TV.&#8221;<\/p>\n<p>\u00danico a se apresentar no ensaio de segunda-feira com as falas decoradas, o veterano Jofre Soares concordou &#8220;em g\u00eanero, n\u00famero e grau&#8221; com as opini\u00f5es de Tony Ramo.&#8221; O importante&#8221;, acrescentou, &#8220;\u00e9 que se passe a verdade do texto, a verdade do personagem e a\u00ed independe se \u00e9 grava\u00e7\u00e3o ou ao vivo.&#8221;<\/p>\n<p>O desgaste na pr\u00f3xima quarta-feira &#8211; ele reconhece &#8211; vai ser bem maior. Mas sobra, segundo ele, a grata satisfa\u00e7\u00e3o de saber que se est\u00e1 abrindo um novo espa\u00e7o de trabalho no restrito mercado para atores e autores nacionais. &#8220;Esta conquista, avalia, &#8220;merece todo e qualquer sacrif\u00edcio. At\u00e9 mesmo o de representar o ambicioso coronel Tot\u00f3, um fac\u00ednora pior que bicho, um verdadeiro dem\u00f4nio em forma de gente.&#8221; Revista Afinal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A TV Cultura de S\u00e3o Paulo mostra um teleteatro exatamente como se fazia nos anos 50, quando ainda n\u00e3o havia v\u00eddeo-teipe nem cor.<\/p>\n<p>&#8220;Faz\u00edamos uma televis\u00e3o sem modelos. 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