{"id":10296,"date":"2003-09-01T00:00:00","date_gmt":"2003-09-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:45:29","modified_gmt":"2017-09-13T19:45:29","slug":"um-brasileiro-que-vive-em-israel","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-brasileiro-que-vive-em-israel\/","title":{"rendered":"Um brasileiro que vive em Israel"},"content":{"rendered":"<p>O paranaense \u00c9lio Passaneto, irm\u00e3o da Congrega\u00e7\u00e3o dos Padres do Sion, mora em Israel desde 1987. Viajou para o long\u00ednquo pa\u00eds, pela primeira vez, para um per\u00edodo de estudo, depois se envolveu tamb\u00e9m com a doc\u00eancia. Sua proposta inicial era pesquisar a introdu\u00e7\u00e3o ao juda\u00edsmo para crist\u00e3os. A partir deste projeto, foi convidado para ensinar a interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica judaica da Idade M\u00e9dia.<br \/>\n&#8220;Tamb\u00e9m desenvolvo um estudo neste contexto e leciono a rela\u00e7\u00e3o entre juda\u00edsmo e cristianismo nos primeiros s\u00e9culos da igreja&#8221;, ressalta em entrevista a O Carpinteiro na sua recente passagem pelo Brasil.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uma influ\u00eancia muito grande nos dois lados&#8221;, acrescenta. A proposta do trabalho hoje \u00e9 intr\u00ednseca a melhor compreens\u00e3o do cristianismo. Para tanto, ele revela, \u00e9 fundamental estudar o juda\u00edsmo contempor\u00e2neo. &#8220;Para compreender o juda\u00edsmo tem de estudar e entender o cristianismo daquele per\u00edodo. Ent\u00e3o, o padre da igreja tem de estudar os fatos de Israel para entender os fatos da igreja, completa&#8221;.<\/p>\n<p>A \u00edntegra da entrevista:<\/p>\n<p>&#8211; Como o sr. ressaltaria, para o nosso leitor m\u00e9dio, a import\u00e2ncia do inter-relacionamento com o juda\u00edsmo?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8211;O cristianismo nasceu no contexto judaico. Todo o elemento fundador do cristianismo \u00e9 um elemento judaico. Jesus viveu inteiramente num contexto judaico, viveu a judaicidade do seu per\u00edodo. Ent\u00e3o, quando se trabalha o Novo Testamento, algumas coisas n\u00e3o s\u00e3o claras. Imagina-se que tudo \u00e9 novidade. Quando se entra em contato com a literatura do juda\u00edsmo desse per\u00edodo, descobre-se que as mesmas coisas est\u00e3o no Novo Testamento. E melhor: de maneira mais explicada porque o trabalho liter\u00e1rio foi muito mais amplo no juda\u00edsmo. Neste momento, descobre-se que o Novo Testamento n\u00e3o \u00e9 falso, mas que, muitas vezes, n\u00e3o est\u00e1 utilizando os meios normais com a leitura correta. Ent\u00e3o a leitura correta sup\u00f5e conhecer o contexto, e s\u00f3 se conhece o contexto quando se v\u00ea realmente que se conhece a l\u00edngua e se convive com \u00e0quela realidade. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 lendo teoricamente os textos, mas convivendo com os judeus, no seu lugar. Eles guardam a seq\u00fc\u00eancia desse per\u00edodo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o h\u00e1 muito em comum?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8211; Sim. Hoje, os acad\u00eamicos que trabalham no Novo Testamento dizem: \u00e9 um texto judaico. E \u00e9 verdade. Foi escrito num contexto judaico e grande parte por judeus. Foi deles todo um trabalho, que vem dos gregos, visando j\u00e1 uma igreja para os gentios. E mais: o material fundamental em torno a Jesus \u00e9 judaico. Temos uma originalidade crist\u00e3 que \u00e9 o acreditar que esse Jesus \u00e9 Deus, \u00e9 filho de Deus e veio para nos salvar. Toda essa afirma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 a originalidade crist\u00e3. No entanto, o contexto dessa afirma\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel no contexto judaico. Deus, reden\u00e7\u00e3o, ressurrei\u00e7\u00e3o, a vida futura s\u00e3o constata\u00e7\u00f5es de um contexto judaico.<\/p>\n<p>&#8211; Fora o contexto judaico, n\u00e3o havia essas afirma\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8211; N\u00e3o no mundo n\u00e3o judaico. S\u00f3 o contexto judaico pode dar a chave da compreens\u00e3o. Ent\u00e3o esse \u00e9 o meio, o mesmo meio que vamos ver, mais tarde, com uma certa identidade a Igreja se formar. Portanto, a\u00ed depois falamos j\u00e1 de Igreja, a partir do final do primeiro s\u00e9culo, mais acentuadamente no segundo s\u00e9culo e seguintes. Esse grupo que segue Jesus vai criando a pr\u00f3pria identidade e vai progressivamente marcando a diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao juda\u00edsmo. Mas, num primeiro momento, voc\u00ea tem uma conviv\u00eancia normal. Os ap\u00f3stolos iam ao templo e faziam suas ora\u00e7\u00f5es tr\u00eas vezes ao dia. Portanto apenas possu\u00edam a afirma\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o espiritual baseada em Jesus. Mas era um mundo onde eles faziam circuncis\u00e3o e festejavam as festas judaicas.<\/p>\n<p>&#8211; E qual \u00e9 o papel que a Congrega\u00e7\u00e3o desempenha?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8212; \u00c9 um lugar de acolhimento e reflex\u00e3o para o crist\u00e3o adaptar-se ou conviver com aquela realidade. Seria uma maneira de pesquisar o juda\u00edsmo num local mais prop\u00edcio. \u00c9 uma proposta da Congrega\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos uma casa &#8212; era um grande centro, hoje diminuiu um pouco, mas ainda \u00e9 um espa\u00e7o grande. Somos conhecidos tradicionalmente. Portanto \u00e9 um espa\u00e7o que temos l\u00e1 e \u00e9 tamb\u00e9m uma fonte para n\u00f3s de refer\u00eancia muito importante.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 para um brasileiro conviver naquela realidade?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8212; \u00c9 diferente. Eu j\u00e1 tinha uma inicia\u00e7\u00e3o aqui. Muda n\u00e3o s\u00f3 o clima. Muda a natureza, sobretudo Jerusal\u00e9m, na regi\u00e3o des\u00e9rtica e seca. A montanha de Jud\u00e1 \u00e9 intensamente seca. Se n\u00e3o chove, voc\u00ea chega a ter saudade da chuva. Mas, h\u00e1 um per\u00edodo que chove e faz frio, muito frio; \u00e0s vezes, neva. Isso \u00e9 de dezembro a mar\u00e7o. Depois, voc\u00ea pode tirar o telhado da casa que n\u00e3o chove. Outro ponto: o idioma n\u00e3o tem nada a ver com a nosso. Tem de aprender a l\u00edngua inteira e n\u00e3o tem em que se basear. \u00c9 tudo novo. O homem \u00e9 um homem acolhedor. Israel \u00e9 um povo acolhedor porque uma grande parte \u00e9 imigrante. Mas o brasileiro tem de se adaptar. N\u00e3o \u00e9 normal. N\u00e3o tem o samba, a m\u00fasica, a cultura brasileira&#8230; Agora, depois de tantos anos, posso dizer que me sinto em casa l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Qual a primeira impress\u00e3o?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8212; A primeira experi\u00eancia \u00e9 como brasileiro, \u00f3bvio, e depois como cat\u00f3lico. De imediato vem \u00e0 mente que, pela primeira vez, vivemos num contexto minorit\u00e1rio. Ent\u00e3o l\u00e1 a maioria \u00e9 de judeus, o pa\u00eds \u00e9 um pa\u00eds judeu. Depois uma outra parte, uma outra fac\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m mu\u00e7ulmana que \u00e9 a parte \u00e1rabe e convive em Israel. O mundo crist\u00e3o \u00e9 uma minoria e, entre os crist\u00e3os, o catolicismo \u00e9 uma pequena por\u00e7\u00e3o, muito pequena.<\/p>\n<p>&#8211; E a quest\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8212; A\u00ed \u00e9 complexo. Israel teve sempre o direito \u00e0 sua terra. H\u00e1 um processo lento. O Estado foi concebido em 48, com a oposi\u00e7\u00e3o total dos pa\u00edses \u00e1rabes e teve de se afirmar nesse contexto. Mas o conflito n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande quanto \u00e0 imprensa mostra. Quem segue de maneira correta a imprensa pode ter uma vis\u00e3o clara, mas quem segue somente algumas fotos fica com a impress\u00e3o de que ali s\u00f3 existe guerra ou s\u00f3 tem bombas. Mas, para quem est\u00e1 l\u00e1, a vida continua normal. Existe o perigo, mas o perigo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande como se pode imaginar, n\u00e3o. Diria que, hoje no Brasil, a viol\u00eancia \u00e9 um perigo muito maior. O dia-a-dia do brasileiro tamb\u00e9m \u00e9 arriscado. Mas, \u00e9 claro, uma bomba pode explodir e j\u00e1 explodiu e explodem muitas. Mas em lugares diversificados, agora pelos jornais a impress\u00e3o que se tem \u00e9 que em Israel todo lugar tem uma bomba que explode a cada dia.<\/p>\n<p>&#8211; A paz est\u00e1 mais distante l\u00e1 do que aqui?<\/p>\n<p>-Ir. \u00c9lio &#8212; L\u00e1 \u00e9 uma quest\u00e3o de interesse tamb\u00e9m internacional que joga no problema do conflito e produza talvez o conflito. O conflito n\u00e3o \u00e9 tanto das pessoas que est\u00e3o entre o povo. Elas convivem sem problemas, eu diria. L\u00e1 h\u00e1 uma cultura de vida social que, diria, est\u00e1 mais evolu\u00edda. A primeira coisa \u00e9 imaginar que l\u00e1 temos uma sociedade menor do que aqui. Somos 170, 180 milh\u00f5es de brasileiros, l\u00e1 voc\u00ea tem uma popula\u00e7\u00e3o de 6 ou 7 milh\u00f5es. Digamos que a dimens\u00e3o \u00e9 grande, mas n\u00e3o se compara ao Brasil. \u00c9 for\u00e7oso reconhecer que temos muito que evoluir. Se o trabalho de educa\u00e7\u00e3o come\u00e7ar hoje \u00e9 uma grande coisa e temos de considerar que vai demorar algumas gera\u00e7\u00f5es para que tenhamos bons resultados. L\u00e1 eu n\u00e3o diria que isso tome esse tempo, apesar de o conflito, a causa do conflito continuar. Eu acho que, nesses \u00faltimos meses, j\u00e1 t\u00ednhamos isso, uma conviv\u00eancia muito mais tranq\u00fcila. O processo de paz pode acontecer muito mais r\u00e1pido l\u00e1 do que o processo de conscientiza\u00e7\u00e3o no Brasil, que vai tomar um certo tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Qual a grande li\u00e7\u00e3o de Israel para o Brasil?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8212; Acho que, primeiro, se voc\u00ea vai num pa\u00eds como Israel \u00e9 bom entender que a grande maioria do pa\u00eds \u00e9 pedra ou deserto. Que a fonte de \u00e1gua do pa\u00eds \u00e9 um pequeno c\u00f3rrego. Ent\u00e3o voc\u00ea v\u00ea que todo o pa\u00eds \u00e9 irrigado, toda a planta\u00e7\u00e3o \u00e9 irrigada. N\u00e3o h\u00e1 uma crise de \u00e1gua. Fica claro que isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque h\u00e1 uma consci\u00eancia de povo. Neste ponto \u00e9 necess\u00e1rio que se fa\u00e7a um sacrif\u00edcio. Todos devem fazer esse sacrif\u00edcio. A colabora\u00e7\u00e3o entre um e outro torna poss\u00edvel a exist\u00eancia de Israel. H\u00e1 uma cultura de povo secular ou milenar que sustentou tudo isso e continua. Isso n\u00f3s n\u00e3o temos. Esse rigor se originou de um efeito que vem da forma\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio que o seu povo viveu. A cidade de Jerusal\u00e9m fala 73 l\u00ednguas, ent\u00e3o necessariamente voc\u00ea tem reflexos de culturas diferentes e sabedorias diferentes. Mas, h\u00e1 um denominador comum na cidade que a tudo permeia e orienta. N\u00e3o d\u00e1 para se exigir isso brasileiro, do povo brasileiro. N\u00e3o temos essa tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos ter ainda tamb\u00e9m. \u00c9 evidente que h\u00e1 o peso de uma cultura milenar que eles trazem, guardam, conservam e passam de pai para filho.<\/p>\n<p>&#8211; Um tra\u00e7o que poderia melhorar para n\u00f3s aqui?<\/p>\n<p>Ir. \u00c9lio &#8211; Uma coisa simples que poderia ajudar muito o Brasil \u00e9 a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o da terra, fazer a terra produzir. L\u00e1, o deserto produz. Aqui o nordeste produz com dificuldade. Voc\u00ea n\u00e3o tem \u00e1gua l\u00e1 e produz. Aqui a gente tem e n\u00e3o produz. Tudo \u00e9 irrigado l\u00e1, aqui voc\u00ea tem uma abund\u00e2ncia de \u00e1gua de rios e a irriga\u00e7\u00e3o tem um custo enorme. Tamb\u00e9m o Brasil tem condi\u00e7\u00e3o de se desenvolver tecnicamente. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O paranaense \u00c9lio Passaneto, irm\u00e3o da Congrega\u00e7\u00e3o dos Padres do Sion, mora em Israel desde 1987. Viajou para o long\u00ednquo pa\u00eds, pela primeira vez, para um per\u00edodo de estudo, depois se envolveu tamb\u00e9m com a doc\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10296","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10296"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10296\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13867,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10296\/revisions\/13867"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}