{"id":10313,"date":"1998-05-01T00:00:00","date_gmt":"1998-05-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T04:01:51","modified_gmt":"2017-09-15T04:01:51","slug":"a-voz-o-mito-a-lenda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-voz-o-mito-a-lenda\/","title":{"rendered":"A voz, o mito, a lenda"},"content":{"rendered":"<p>O s\u00e9culo acabou. Se precis\u00e1vamos de um sinal concreto de que chegou ao fim um belo ciclo da humanidade, a morte do cantor Frank Sinatra n\u00e3o deixa mais d\u00favidas. J\u00e1 estamos com um p\u00e9 fincado no s\u00e9culo XXI. Convenhamos. O mundo n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo sem o fascinante The Voice. De pronto, achei um exagero do apresentador de TV que, visivelmente contristado, iniciou seu programa de fim-de-noite, com a not\u00edcia do passamento do mais importante cantor popular deste s\u00e9culo. Firmei quest\u00e3o no exagero. Mas, n\u00e3o deixei de pensar na frase. E certo que, com Sinatra, desaparece todo um jeito rom\u00e2ntico e charmosamente cafajeste de ser.<\/p>\n<p>A bem da verdade, de algum tempo para c\u00e1, j\u00e1 havia notado que o Planeta azulado j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Anda pouco afeito \u00e0s sutilezas do cora\u00e7\u00e3o. Endureceu e, globalizado demais, perdeu a ternura e muito de seus priscos encantos. O infarto parece iminente. Mesmo n\u00e3o estando na casa dos 50\/60 (que \u00e9 verdadeiramente o pessoal que viveu o jeito Sinatra de ser) entendi desde os tenros anos que, mais do que suas can\u00e7\u00f5es (primorosas quase sempre), Francis Albert Sinatra foi uma das mais representativas influ\u00eancias comportamentais durante duas d\u00e9cadas. Era o inveterado conquistador, sempre envolvido com belas mulheres (em especial por Ava Gardner), de eleg\u00e2ncia despojada (ternos de corte perfeito e o indefect\u00edvel chap\u00e9u) que os rapazes de ent\u00e3o gostavam de imitar. A vida no p\u00f3s-guerra (at\u00e9 meados dos anos 60) era assim, digamos, mais previs\u00edvel, f\u00e1cil de entender ao senso do cidad\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Para tudo, havia um pre\u00e7o. Um pre\u00e7o justo, diga-se. At\u00e9 entre os gangsters existia um c\u00f3digo de \u00e9tica. Nunca soube de um mafioso pianista, por exemplo. As pessoas se diziam de boa \u00edndole. N\u00e3o eram de todo m\u00e1, como se dizia \u00e0 \u00e9poca. Respeito e honra se distinguiam como palavras de ordem. Associo as can\u00e7\u00f5es e o swing de Sinatra \u00e0 modesta S\u00e3o Paulo dos anos 50. Um cen\u00e1rio l\u00fadico e inesquec\u00edvel aos meus olhos de garoto: ruas de paralelep\u00edpedos ou ainda terra batida, bonde camar\u00e3o, namoros furtivos no escurinho do cinema, homens engravatados e de chap\u00e9u, a rivalidade eleitoral entre J\u00e2nio e Adhemar, o in\u00edcio da ind\u00fastria automobil\u00edstica, as f\u00e1bricas de tecidos, a concha ac\u00fastica do Pacaemb\u00fa, o radinho Speek, as conversas de fim-de-tarde na cal\u00e7ada, os amigos do peito, a esperan\u00e7a e o sonho de construir uma vida melhor, com nosso suor e trabalho. Lembro que \u00e9ramos pobres. Mas, n\u00e3o nos faltava o p\u00e3o de cada dia, o abrigo de uma casa (por menor que fosse) e alguma roupa limpa para vestir, ainda que desbotada e com algum remendo.<\/p>\n<p>O ser humano n\u00e3o vivia assim t\u00e3o aviltado pelas chagas da mis\u00e9ria que hoje se v\u00ea pelas ruas, sob os viadutos, nas favelas e mocambos&#8230; Tamb\u00e9m, registre-se, n\u00e3o precis\u00e1vamos de tanta tralha. Os valores mudaram. O tal progresso n\u00e3o trouxe a felicidade que almej\u00e1vamos. Fez dos ricos mais ricos. O celular virou moda. Mas, as pessoas se encontram cada vez menos. Nossas prioridades se embaralharam. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ver uma pessoa comprando microondas sem ter o que comer em casa. Temos, via TV a cabo, uma janela para o mundo e sequer conversamos com quem mora ao lado. A cada esquina, a dura realidade de nossas crian\u00e7as estampa um futuro de desesperan\u00e7a e mis\u00e9ria. Quanto aos nossos pol\u00edticos e governantes, bem!, a\u00ed \u00e9 um caso \u00e0 parte. Ele se profissionalizaram, denominam-se neoliberais e s\u00f3 nos reconhecem em per\u00edodos pr\u00e9-eleitorais. Pioraram consideravelmente. Mas, n\u00e3o abrem m\u00e3o do folclore e de se anunciarem acima do bem e do mal. Conta-se que, em certa ocasi\u00e3o, o doutor Adhemar de Barros entusiasmou-se em meio a um de seus memor\u00e1veis discursos. Desabotoou o jaquet\u00e3o e, apontando para os bolsos, lascou solene e convicto: Nesses bolsos nunca entrou um dinheiro desonesto&#8230; L\u00e1 do fundo da multid\u00e3o, ouviu-se a voz de um gaiato rebate: &#8212; Roupa nova, hein, doutor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O s\u00e9culo acabou. Se precis\u00e1vamos de um sinal concreto de que chegou ao fim um belo ciclo da humanidade, a morte do cantor Frank Sinatra n\u00e3o deixa mais d\u00favidas. 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