{"id":10320,"date":"1998-11-27T00:00:00","date_gmt":"1998-11-27T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T03:10:14","modified_gmt":"2017-09-15T03:10:14","slug":"era-uma-vez-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/era-uma-vez-2\/","title":{"rendered":"Era uma vez&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>01. Naquele pa\u00eds long\u00ednquo, t\u00e3o long\u00ednquo que a mem\u00f3ria sequer consegue registrar o nome, existia um soberano que, antes de assumir o trono, era tido e havido como um dedicado estudioso das car\u00eancias e necessidades do povo.<\/p>\n<p>02. O candidato a pr\u00edncipe sempre teve bons amigos. Que, como ele, freq\u00fcentaram academias das Letras, Artes, Ci\u00eancias e N\u00fameros (intu\u00edam algo&#8230;) e deram a volta ao mundo ensinando e aprendendo tudo o que de bom havia para ser ensinado e aprendido. Outro aspecto do ilustre personagem era a simpatia, o que colaborava para novas e inexplic\u00e1veis amizades, mesmo com aqueles que de antanho n\u00e3o concordavam com suas teorias.<\/p>\n<p>03. De posse de tantos galard\u00f5es, n\u00e3o foi por outro motivo que o Tempo, que n\u00e3o p\u00e1ra no porto, n\u00e3o apita na curva e n\u00e3o espera ningu\u00e9m, resolveu chamar o Destino para tirar do sufoco a simp\u00e1tica aldeia, aquela mesma long\u00ednqua, pra l\u00e1 de n\u00e3o sei onde. Se havia tamanha reserva de moral e idoneidade, por que n\u00e3o deix\u00e1-lo conduzir o reino rumo ao grande destino? O Destino, ele pr\u00f3prio, n\u00e3o gostou da refer\u00eancia ao seu nome. Achou que o Tempo estava se precipitando e precipita\u00e7\u00f5es do Tempo quase sempre complicam a vida dos alde\u00f5es. Argumentou que talvez o candidato a pr\u00edncipe e os seus vivessem em outro mundo, em outro tempo (A\u00ed foi a vez do Tempo fazer cara feia. E olha que tempo feio n\u00e3o convence ningu\u00e9m). De nada adiantaram as pondera\u00e7\u00f5es do Destino. O Tempo e os alde\u00f5es precipitaram-se e fizeram o homem soberano, com plenos poderes. Mas, s\u00f3 por algum tempo, a t\u00edtulo de teste, digamos assim. Ele merecia uma chance. E toda corte comemorou como s\u00f3 os cortes\u00e3os sabem comemorar e bajular. Enfim, todos (eles) viveriam melhor&#8230;<\/p>\n<p>04. O novo mandat\u00e1rio come\u00e7ou a governar viajando para reinos mais desenvolvidos. Seu objetivo era divulgar que, enfim, o Reino de N\u00e3o Sei Onde, mesmo distante, tinha um soberano da mais fina estirpe. Sempre sorridente, sabia que as coisas n\u00e3o andavam bem. Mas, preferia falar em dentaduras e eletrodom\u00e9sticos, pr\u00eamios no Exterior e que sua cozinheira podia, gra\u00e7as as suas conquistas e realiza\u00e7\u00f5es, viajar para a Europa.<\/p>\n<p>05. Ali\u00e1s, era a obsess\u00e3o. De tanto cultuar o estrangeiro, acabou abrindo portas, porteiras e portos para toda esp\u00e9cie de badulaque que vinha de fora. Dizimou as reservas industriais da aldeia. E, na mesma propor\u00e7\u00e3o, o desemprego espalhou-se em \u00edndices e conseq\u00fc\u00eancias implac\u00e1veis. Entre um tr\u00edduo momesco e um torneio de ludop\u00e9dio entre reinos, quando toda a aldeia ficava euf\u00f3rica, convenceu o Tempo a lhe dar mais tempo para terminar o que nem havia come\u00e7ado. O Tempo condescendeu&#8230; O Destino achou que n\u00e3o era por a\u00ed. Os alde\u00f5es nem perceberam o logro. Chegaram a vice-campe\u00f5es inter-reinos de ludop\u00e9dio. E isso, sim, era uma afronta de parar o Pa\u00eds, quer dizer a aldeia, aquela t\u00e3o distante que nem nome tem.<\/p>\n<p>06. Mal come\u00e7ou o segundo mandato, revelou planos mirabolantes de<br \/>\namplitude social al\u00e9m das tais mudan\u00e7as gerais. Os mais sensatos desconfiaram de que ele j\u00e1 havia prometido isso antes. Mas, agora diante de uma crise planet\u00e1ria, que j\u00e1 derrubara outros reinos t\u00e3o distantes quanto, teria que agir com rigores emergenciais.<\/p>\n<p>07. Estava decidido, passaria para m\u00e3o de mercadores internacionais alguns dos patrim\u00f4nios do Reino de N\u00e3o Sei Onde. Assim iriam a leil\u00e3o a Usiminas do Rei Salom\u00e3o, o Jardim Supremo da TeleBabil\u00f4nia, as Pir\u00e2mides El\u00e9tricas (\u00f3timas para explora\u00e7\u00e3o de temas esot\u00e9ricos), as Muralhas da Conchinchina que separam o Nada do Lugar Nenhum, todos tombados e requebrados pelo Condephaat l\u00e1 deles&#8230; Com essa transa\u00e7\u00e3o, o Reino j\u00e1 teria por onde e faturaria o que n\u00e3o estava escrito, lavrado e sacramentado. Tudo em nome do povo&#8230;<\/p>\n<p>08. Para gerir tais neg\u00f3cios, uma pl\u00eaiade de amigos do poderoso. Experts em n\u00fameros e \u00edndices (lembra?) e bons lucros \u00e0 vista. Ou a prazo&#8230; O neg\u00f3cio era arrumar grana&#8230; Ah! tamb\u00e9m eram propriet\u00e1rios com familiares pr\u00f3ximos de corretores que poderiam intermediar o leil\u00e3o. E influir e refluir&#8230;<\/p>\n<p>09. Esses h\u00e1beis senhores, querendo insuflar as negocia\u00e7\u00f5es, puseram-se a trocar papiros repletos de meias verdades e insinua\u00e7\u00f5es que os escribas ficaram com calo no dedo de tanto escrever&#8230; Havia palavras, como direi, suspeitas e at\u00e9 a possibilidade de favorecimento deste ou daquele interessado ou de todos os envolvidos. E d\u00e1-lhe papiros. Tantos que se acumularam uns sobre os outros&#8230;<\/p>\n<p>10. Um vacilo do Tempo e o Destino interviu. Fez soprar um p\u00e9 de vento que espalhou as anota\u00e7\u00f5es por todo o Reino. E foi uma aberra\u00e7\u00e3o. Todos souberam de tudo, ou quase tudo&#8230; O soberano considerou um absurdo. Chamou oficiais da guarda e, indignado, deu ordens expl\u00edcitas de&#8230; prender os culpados. Ou seja, o vento e todas suas corruptelas, inclusive o irrespons\u00e1vel p\u00e9 que jogou pelos ares tanto trabalho&#8230;<\/p>\n<p>11. Diante do descalabro, Destino e Tempo concordaram. S\u00f3 que j\u00e1 n\u00e3o havia mais tempo. Nem dava para corrigir o destino da triste aldeia feliz, cada vez mais distante do resto do mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01. 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