{"id":10321,"date":"1999-02-26T00:00:00","date_gmt":"1999-02-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T03:06:41","modified_gmt":"2017-09-15T03:06:41","slug":"o-homem-que-so-dizia-ta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-homem-que-so-dizia-ta\/","title":{"rendered":"O homem que s\u00f3 dizia t\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Tudo certo como dois e dois s\u00e3o cinco&quot; (Caetano Velloso)  <\/p>\n<p>&#8212; T\u00e1 tudo certo, com voc\u00ea? T\u00e1. Tudo certo. Como foi l\u00e1 na cabine indevass\u00e1vel? Votou no homem? T\u00e1. Votei&#8230; Ele n\u00e3o teve coragem de dizer o contr\u00e1rio ao amigo. A bem da verdade, nem sabia ao certo porque agira assim. Ele com ele, diante da urna eletr\u00f4nica, n\u00e3o vacilou. Digitou o n\u00famero do candidato de Oposi\u00e7\u00e3o. Lembrou que houve um tempo no Pais que se grafava Oposi\u00e7\u00e3o com letra mai\u00fascula, tempo das Diretas-J\u00e1, da redemocratiza\u00e7\u00e3o, da Nova Rep\u00fablica. Tempo em que era poss\u00edvel sonhar. Mas, n\u00e3o foi por isso que votou contra quando a imensa maioria, devidamente insuflada pela m\u00eddia, se mostrava simp\u00e1tica \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o. Mesmo com seu jeit\u00e3o simples de dizer t\u00e1 bom para tudo, sabia que havia algo de inconsistente na suposta verdade absoluta.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria polemizar t\u00e1 certo? Mas o que via nos notici\u00e1rios da TV, o que lia nos jornais, o que diziam os pronunciamentos oficiais, nada disso batia com a voz rouca das ruas, com o que sentia andando pelas esquinas de uma cidade nervosa chamada S\u00e3o Paulo. Vai da\u00ed que estava convencido: o caminho n\u00e3o era esse. Sabia-se um tanto tosco nas quest\u00f5es da pol\u00edtica. O compadre podia saber at\u00e9 mais que ele. Mas, na hora do voto, nem pestanejou. Foi de Oposi\u00e7\u00e3o mesmo antevendo a derrota no primeiro turno. <\/p>\n<p>O Brasil tem jeito. T\u00e1. Mas, n\u00e3o do jeito que t\u00e1 &#8212; confabulou aos seus bot\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 hora de polemizar. O amigo pensa de um jeito &#8212; e eu de outro. Ali\u00e1s, muito mais gente acha o que ele acha. Mas, na hora do voto, e cada um por si e Deus por n\u00f3s, t\u00e1. Antes do dia das elei\u00e7\u00f5es chegaram a discutir feio. O amigo usava todos os argumento para lhe convencer da necessidade de se preservar o Real como moeda forte, da import\u00e2ncia do Brasil se incluir entre as na\u00e7\u00f5es do primeiro mundo, que a globaliza\u00e7\u00e3o era uma conquista &#8212; e ponto. Aos poucos, essa grande marcha se espalharia pelos quatro cantos do Pa\u00eds e os brasileiros, todos eles, teriam acesso \u00e0s benesses do mundo contempor\u00e2neo. E seguia falando, e meio que atordoado ele respondia: T\u00e1, t\u00e1, t\u00e1, t\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Mas, ainda acho que o povo t\u00e1 sofrendo demais. V\u00e3o devia ser assim. Se o cidad\u00e3o \u00e9 eleito pra cuidar da gente, \u00e9 com a gente que ele deve se preocupar em primeiro lugar. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9? T\u00e1 ou n\u00e3o t\u00e1? O compadre n\u00e3o concordava e dava a r\u00e9plica, a tr\u00e9plica e por a\u00ed seguia at\u00e9 acabar o f\u00f4lego. Com o \u00faltimo arzinho que lhe restava nos pulm\u00f5es, resmungava: E pare de falar t\u00e1. Homem. T\u00e1 bom, mas vamos mudar de assunto, t\u00e1.<\/p>\n<p>Agora, com a roda-viva de incertezas descendo ladeira, preferia n\u00e3o questionar o amigo, por si s\u00f3 triste pois acabara de perder o emprego. Os \u00edndices de viol\u00eancia batendo recordes, as chuvas alagando as marginais e parando a maior cidade do Pa\u00eds, o caos do servi\u00e7o p\u00fablico, as empresas e o com\u00e9rcio fechando as portas, o desemprego, o d\u00f3lar na casa dos 2 reais, a infla\u00e7\u00e3o comendo pelas beiradas, nada disso fazia bem a sua alma. <\/p>\n<p>\u00c9, a\u00ed vem o arrocho e o salve-se quem puder. Olhava o flanelinha empenhado em arranjar uns trocos no cruzamento. O garoto de movimentos espertos singrava por entre os carros parados e abordava os motoristas que, assustados, tratavam de fechar o vidro e ignor\u00e1-lo. Tinha uma express\u00e3o de desapontamento o garoto, de 12 anos quando muito. A mesma que hoje seu rosto vincado revelava: ser\u00e3o necess\u00e1rias muita paci\u00eancia e uma dose cavalar de criatividade pra virar esse jogo, t\u00e1. Foi nesse momento que apareceu o rep\u00f3rter para lhe perguntar se o Pa\u00eds tinha jeito. T\u00e1, tem, quer dizer, n\u00e3o sei&#8230; E preciso acreditar no amanh\u00e3, t\u00e1, mesmo sem ter nada em m\u00e3os que nos permita acreditar. De resto, \u00e9 escolher melhor nossos governantes, distinguir entre o falso e o verdadeiro, t\u00e1. Acho que na vida, de repente, tudo \u00e9 assim, t\u00e1. S\u00f3 isso? E (apontando o flanelinha) o que senhor acha do menor abandonado? O que eu acho? Bem, eu acho que todo garoto triste parece um pouco comigo, t\u00e1. Hoje pelo menos, t\u00e1. Houve \u00e9poca que n\u00e3o era assim, t\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Tudo certo como dois e dois s\u00e3o cinco&quot; (Caetano Velloso)  <\/p>\n<p>&#8212; T\u00e1 tudo certo, com voc\u00ea? T\u00e1. Tudo certo. Como foi l\u00e1 na cabine indevass\u00e1vel? Votou no homem? 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