{"id":10328,"date":"2000-05-19T00:00:00","date_gmt":"2000-05-19T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T22:09:29","modified_gmt":"2017-09-14T22:09:29","slug":"a-arte-de-tecer-o-presente","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-arte-de-tecer-o-presente\/","title":{"rendered":"A arte de tecer o presente"},"content":{"rendered":"<p>&quot;S\u00ea o que quiseres, mas procura s\u00ea-lo totalmente&quot; (Tom\u00e1s More)<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o especial do nosso jornal. Por isso, quero abrir esse espa\u00e7o para dois ipiranguistas especiais, os alfaiates Toninho e Irineu, que ali\u00e1s d\u00e3o exemplos de cidadania a cada nova manh\u00e3. Um exemplo de verdade, sensatez e simplicidade. Assim, como n\u00f3s de GI, embora em fun\u00e7\u00f5es distintas, eles tamb\u00e9m alinhavaram, com seu trabalho di\u00e1rio e determinado, o Ipiranga que hoje conhecemos. Um bairro que \u00e9 uma cidade que, em \u00faltima an\u00e1lise, come\u00e7a e termina em n\u00f3s mesmos. Come\u00e7aram meninos na profiss\u00e3o, assim que sa\u00edram do Grupo Escolar j\u00e1 entraram na alfaiataria da rua Lord Cockrane. Na verdade, como era h\u00e1bito no in\u00edcio dos anos 40. Os pais queriam os garotos fora da algazarra das ruas e encaminh\u00e1-los para o aprendizado de um of\u00edcio era a solu\u00e7\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>Quem n\u00e3o ia para as alfaiatarias como n\u00f3s virava ajudante de farm\u00e1cia, varria o sal\u00e3o de barbeiros, trabalhava no armaz\u00e9m de secos e molhados, na tinturaria&#8230; Com 10, 11 anos todo mundo j\u00e1 pegava no batente e se iniciava numa profiss\u00e3o. Era assim que t\u00ednhamos o nosso dinheirinho para as matin\u00eas de domingo, o baile nos sal\u00f5es da \u00e9poca&#8230; Ainda hoje penso que era um bom jeito de levar a vida e dar responsabilidade ao moleque que, assim, n\u00e3o tinha tempo para ficar pensando e fazendo bobagens por ai&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto Irineu passa com um pesado ferro dos antigos o tecido de uma cal\u00e7a rec\u00e9m-terminada, Toninho recorta um fino tecido azul para um dos 52 ternos que um ilustre cliente encomendou para a dupla. Ele continua a falar em tom pausado de quem v\u00ea com naturalidade os dias atuais de tantas esquisitices. &#8212; A gente vai atendendo as encomendas aos poucos. Chegamos cedo, dividimos as tarefas e l\u00e1 pelas 5 horas da tarde o Irineu vai embora e eu fico aqui at\u00e9 \u00e0s oito da noite jogando sueca com uns amigos. Tem gente que vem l\u00e1 de S\u00e3o Bernardo&#8230; Gosto de levar a vida assim. N\u00e3o somos ricos, mas n\u00e3o passamos necessidades. Nunca damos um prazo para entregar o servi\u00e7o&#8230; Quem vem aqui sabe que esse \u00e9 o nosso jeito e n\u00e3o h\u00e1 como mudar. Fazemos as roupas com gosto. Posso dizer com orgulho que temos encomendas at\u00e9 o pr\u00f3ximo s\u00e9culo. Posso lhe adiantar tamb\u00e9m que vamos fechar na semana do ano novo e no Carnaval, e, de resto, estaremos aqui trabalhando e atendendo aos amigos. Nada de diferente nos \u00faltimos 47 anos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o resisto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o da pergunta: Por que n\u00e3o colocam mais gente aqui, compram um maquin\u00e1rio moderno e atendem todos os pedidos no menor prazo de tempo poss\u00edvel? Olha, s\u00f3 desse senhor o quanto voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o faturar&#8230; A resposta e a li\u00e7\u00e3o: somos felizes assim. Apesar das dificuldades que a vida muitas vezes nos imp\u00f5e sempre h\u00e1 um amigo por perto&#8230; Um r\u00e1pido olhar sobre a velha alfaiataria de m\u00f3veis antigos, pesados; pouca ilumina\u00e7\u00e3o e com o r\u00e1dio \u00e0 v\u00e1lvula a tocar m\u00fasica orquestrada d\u00e1 a sensa\u00e7\u00e3o de um o\u00e1sis de tranq\u00fcilidade nesse deserto de quereres em que vivemos e onde nos complicamos por um \u00fanico motivo: o jeito sem jeito de tocar a vida, a qualquer custo&#8230; Nesta sexta pela manh\u00e3, Irineu e Toninho v\u00e3o se surpreender ao receber Gazeta do Ipiranga e ver o cotidiano dos dois transformado em cr\u00f4nica. Nada lhes disse sobre a coluna. Foi a forma que encontrei para homenage\u00e1-los e tamb\u00e9m de homenagear os leitores que nos acompanham ao longo dessa jornada. Vale tamb\u00e9m para mostrar o quanto voc\u00eas, leitores, s\u00e3o imprescind\u00edveis e nos ensinam, a cada semana, a verdadeira arte de tecer o presente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;S\u00ea o que quiseres, mas procura s\u00ea-lo totalmente&quot; (Tom\u00e1s More)<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 a edi\u00e7\u00e3o especial do nosso jornal. 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