{"id":10344,"date":"2003-12-01T00:00:00","date_gmt":"2003-12-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:43:09","modified_gmt":"2017-09-13T19:43:09","slug":"jornal-de-bairro-um-sonho-que-ainda-nao-acabou","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/jornal-de-bairro-um-sonho-que-ainda-nao-acabou\/","title":{"rendered":"Jornal de Bairro. Um sonho que ainda n\u00e3o acabou"},"content":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nA Associa\u00e7\u00e3o dos Jornais de Bairro do Estado de S\u00e3o Paulo considera a Tribuna de Santo Amaro (1936) a publica\u00e7\u00e3o mais antiga existente no g\u00eanero. H\u00e1 pesquisadores que v\u00eaem o embri\u00e3o dos jornais de bairro em folhetos informativos distribu\u00eddos nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, em bairros como Lapa, Br\u00e1s e \u00c1gua Branca. \u00c9 o que afirma o livro Jornais de Bairros e Munic\u00edpios da Grande S\u00e3o Paulo, editado em 1983 pela Emplasa.<br \/>\nA partir dos anos 50, as publica\u00e7\u00f5es assumiram caracter\u00edsticas que, com rar\u00edssimas mudan\u00e7as, permaneceram at\u00e9 a d\u00e9cada de 90. As chamadas reivindica\u00e7\u00f5es sociais passaram a ser o carro-chefe do notici\u00e1rio. Os jornais de bairro tornaram-se parte da rotina das comunidades. Passaram a interagir de forma decisiva com os leitores, tendo sempre como pressuposto ser o porta-voz de seus mais leg\u00edtimos anseios e necessidades. H\u00e1 quem diga que a participa\u00e7\u00e3o dos jornais de bairro foi fundamental \u2013 junto a outros movimentos populares \u2013 para o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds.<br \/>\nA partir da segunda metade dos anos 90, o jornal de bairro mudou suas caracter\u00edsticas. Abriu m\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o editorial e assumiu a proposta de ser um \u201cgrande vendedor de an\u00fancio\u201d. O desequil\u00edbrio entre o jornal\u00edstico e o comercial levou o ve\u00edculo a uma deprecia\u00e7\u00e3o em termos de credibilidade e a inevit\u00e1vel derrocada advinda da perda deste prest\u00edgio. O novo mil\u00eanio surpreende essa publica\u00e7\u00e3o em meio a uma crise de identidade que leva a desastrosas conseq\u00fc\u00eancias no lado financeiro e chega a comprometer a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<br \/>\nEste artigo pretende abrir espa\u00e7o para discuss\u00e3o dessa realidade, al\u00e9m de homenagear alguns dos nomes que fizeram a hist\u00f3ria dos jornais de bairro em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Um breve relato sobre a hist\u00f3ria de vida de dois jornalistas, Jos\u00e9 Jofre Soares e Ant\u00f4nio de Oliveira Marques, com os quais tive o privil\u00e9gio de conviver em meados dos anos 70 na reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga. Eles foram os precursores da implanta\u00e7\u00e3o dos jornais de bairro na Capital. Foram principalmente dois sonhadores que sempre estiveram em busca da utopia de uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A inclus\u00e3o \u00e9 mais do que merecida, creio eu. Eram autodidatas e trabalharam nas reda\u00e7\u00f5es dos jornais di\u00e1rios paulistanos. Nos anos 40\/50 passaram a militar no Partido Comunista, que implementou na forma\u00e7\u00e3o de ambos um forte v\u00ednculo com as teorias socialistas-marxistas.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 50, depois de algumas pris\u00f5es, n\u00e3o conseguiram mais empregos nas reda\u00e7\u00f5es convencionais, de t\u00e3o identificados que estavam com a causa comunista. Fundaram, ent\u00e3o, alguns jornais de bairro na periferia de S\u00e3o Paulo e um em S\u00e3o Bernardo \u2013 a Gazeta de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p>A proposta desses dois quixotes era organizar a sociedade e dar \u201cvoz e vez\u201d, como gostava de dizer o Z\u00e9 Jofre, aos moradores dos n\u00facleos urbanos que come\u00e7avam a pipocar nos arredores de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Era o in\u00edcio do que, posteriormente, veio a se chamar periferia. Essa proposta refor\u00e7ou-se ainda mais ap\u00f3s o Golpe Militar de 64, que arrasou a sociedade, dizimou partidos pol\u00edticos, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de estudantes e todo e qualquer n\u00facleo que pudesse dar vaz\u00e3o aos reclamos sociais.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o queria que as pessoas voltassem a se juntar e a entender que tinham um ideal comum. Que a luta era de todos; primeiramente por melhor qualidade de vida. Achava que o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o favorecia a uni\u00e3o de todos em torno de uma causa, visto que o perfil do habitante dessas regi\u00f5es era muito pr\u00f3ximo &#8212; trabalhador de baixa renda em busca do t\u00e3o acalentado sonho da casa pr\u00f3pria \u2013 e que, por faltar quase tudo nesses locais, havia muito para se cobrar do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p>Aqui, cabe fazer abrir par\u00eanteses: a conviv\u00eancia de ambos n\u00e3o era simples. O cearense Z\u00e9 Jofre, originariamente gr\u00e1fico, era mais radical, adepto de caudalosos artigos doutrinadores, repletos de cita\u00e7\u00f5es. Artigos sistematicamente vetados por Marqu\u00eas sob a implac\u00e1vel alega\u00e7\u00e3o: \u201cUma lauda todo mundo l\u00ea. Duas, s\u00f3 os mais interessados. Tr\u00eas, nem a m\u00e3e da gente ag\u00fcenta&#8230;Depois, Z\u00e9, \u00e9 uma bandeira s\u00f3.\u201d<\/p>\n<p>Jofre era useiro e vezeiro em cita\u00e7\u00f5es. Defendia-se: \u201cO povo s\u00f3 ser\u00e1 livre quando se autoconhecer. Mas, para tanto, vai precisar fazer uma auto-avalia\u00e7\u00e3o e reconhecer as verdadeiras condi\u00e7\u00f5es em que vive\u201d.<\/p>\n<p>Outra cita\u00e7\u00e3o freq\u00fcente de Jofre, vinda dos escritos de Marx: \u201cO primeiro dever da imprensa era minar todas as bases do poder pol\u00edtico existentes\u201d.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o concordava com Jofre em tese, mas discordava na pr\u00e1tica. Defendia uma organiza\u00e7\u00e3o social sem que houvesse qualquer tipo de tutela ou manipula\u00e7\u00e3o, fosse ela qual fosse. Argumentava, com o mesmo autor: \u201cA condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do indiv\u00edduo \u00e9 que determina sua a\u00e7\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>Por ter sido redator-chefe dos jornais do Partid\u00e3o \u2013 Not\u00edcias de Hoje, S\u00e3o Paulo Hoje, entre outros \u2013 exercia uma ascend\u00eancia natural. Tamb\u00e9m obviamente por seus amplos conhecimentos de linguagem jornal\u00edstica. Queria textos curtos, objetivos, na forma direta, sem qualquer adjetiva\u00e7\u00e3o. O fundamental \u00e9 que trouxesse a denuncia de uma quest\u00e3o real: um bra\u00e7o de rua, a falta de cal\u00e7amento, ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica; de creches, escolas. Enfim, algo que colocasse o Poder P\u00fablico em xeque. E que, amanh\u00e3 ou depois, quando conquistado, revelasse concretamente a vit\u00f3ria de toda a comunidade, e assim, entendia, \u201co pov\u00e3o vai pegar gosto de lutar pelo que acha que \u00e9 correto\u201d.<\/p>\n<p>Cheguei a Gazeta do Ipiranga em meados de 74\/75. Marc\u00e3o e Jofre estavam fora da Reda\u00e7\u00e3o \u2013 o nome de ambos sequer constava no expediente por quest\u00f5es de seguran\u00e7a. Marc\u00e3o (a quem eu insistia em chamar de Seo Marques, e inapelavelmente ouvia a sua heresia maior: \u201cSenhor est\u00e1 no c\u00e9u, cara\u201d) era uma esp\u00e9cie de consultor geral, e o Jofre, que nunca quis ser patr\u00e3o (\u201cPatr\u00e3o bom nasce morto\u201d), tinha um sal\u00e1rio para fiscalizar a distribui\u00e7\u00e3o do jornal.<\/p>\n<p>A ordem para os tr\u00eas rep\u00f3rteres era simples: sair \u00e0s ruas e ouvir as reclama\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o. Os grandes jornais passavam ao largo desses problemas t\u00e3o corriqueiros na vida dos perif\u00e9ricos e o centralismo do poder ditatorial preservava-se igualmente distante dessas quest\u00f5es de \u00e1gua, luz, esgoto, escola etc. Quando era uma s\u00f3 pessoa que se queixava, a orienta\u00e7\u00e3o era que fizesse a reivindica\u00e7\u00e3o por meio de uma carta. Caso contr\u00e1rio, se ela achasse mais conveniente e se o problema incomodasse a mais pessoas, ent\u00e3o que as reunisse para que se fizesse a reportagem.<\/p>\n<p>Foi com base nessa, digamos, espontaneidade que a regi\u00e3o do Ipiranga nos anos 70 reunia nada menos do que 32 sociedades amigos de bairro, al\u00e9m de outros tantos clubes de servi\u00e7os, centros desportivos, clubes de lojistas, entre outras associa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Marc\u00e3o morreu em 78, quando Gazeta do Ipiranga (onde ele e seus colaboradores concentraram todas suas for\u00e7as) circulava com 20\/24 p\u00e1ginas e tinha uma tiragem semanal de 43 mil exemplares.<\/p>\n<p>Um m\u00eas antes de seu falecimento, o pessoal da reda\u00e7\u00e3o foi visit\u00e1-lo em sua casa. Ele se confessou um tanto preocupado com os rumos do jornal e com o futuro das SABs. \u201cO jornal transformou-se num grande vendedor de an\u00fancios. Tem um classificado forte que tomam quase 60 por cento de suas p\u00e1ginas. Os interesses comerciais quase sempre v\u00e3o bater de frente com os editoriais \u2013 e nem d\u00e1 para ser diferente. Hoje, mais de 30 fam\u00edlias sobrevivem da Gazetinha. Como n\u00e3o abrir espa\u00e7o para o anunciante?\u201d.<\/p>\n<p>Para as sociedades amigos de bairro, um alerta: \u201cOs l\u00edderes comunit\u00e1rios n\u00e3o podem deixar que os pol\u00edticos profissionais invadam as institui\u00e7\u00f5es. Nem devem aceitar empregos no gabinete de quem quer que seja. A\u00ed, passa a valer o interesse pessoal sobre o coletivo\u201d.<\/p>\n<p>Antes que fossemos embora, fez quest\u00e3o de nos mostrar uma folha amarelecida pelo tempo. Tinha a forma de uma primeira p\u00e1gina de jornal. Com olhar de crian\u00e7a, contou a mais encantadora peraltice de sua vida. Quando Get\u00falio Vargas morreu, houve grandes passeatas. Ele e os seus, ent\u00e3o, montaram aquela edi\u00e7\u00e3o-extra de uma \u00fanica p\u00e1gina, subiram nos pr\u00e9dios e espalharam por toda a cidade. A manchete tamb\u00e9m era \u00fanica: \u201cQue o povo saia \u00e0s ruas e tome para si os rumos da Na\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Jofre s\u00f3 ficou mais alguns meses no jornal ap\u00f3s a morte do amigo. Tempo suficiente para preparar a papelada da aposentadoria. Mudou-se para Bonito, no pantanal mato-grossense, onde um sobrinho lhe daria casa e comida. Z\u00e9 sempre foi um homem s\u00f3. Considerava que \u201ca luta n\u00e3o permitia certos luxos. Casar, por exemplo\u201d.<br \/>\nAntes de partir, por\u00e9m, avisou o pessoal \u201cpara dar sumi\u00e7o nuns trens\u201d que n\u00e3o tinha como levar para a nova casa. Chegando l\u00e1 ningu\u00e9m acreditou no que viu: em meio a uma dezena de litros vazios do vinho portugu\u00eas Gat\u00e3ozinho, l\u00e1 estava um punhado de muni\u00e7\u00e3o \u00e0 espera da t\u00e3o sonhada revolu\u00e7\u00e3o que nunca veio&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Quando a professora M\u00f4nica Perugger Caprino pediu a colabora\u00e7\u00e3o dos professores para a Revista da Fajorp, logo me candidatei a fazer um artigo sobre jornais de bairro. Motivos n\u00e3o me faltaram. Trabalhei 28 anos na supracitada reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga, onde pude conviver com os diversos momentos dos jornais de bairro. Desde a consolida\u00e7\u00e3o nos anos 70 at\u00e9 a explos\u00e3o publicit\u00e1ria que viveram na virada da d\u00e9cada seguinte. Durante a d\u00e9cada de 90, Gazeta do Ipiranga chegou a circular com 52 p\u00e1ginas e o quadro redacional era composto de 16 profissionais, todos jornalistas e\/ou estudantes de jornalismo.<br \/>\nNeste momento, os cinco grandes jornais de bairro de S\u00e3o Paulo \u2013 Gazeta do Ipiranga, Gazeta de Pinheiros, Gazeta da Zona Norte, Gazeta de Santo Amaro e Gazeta da Zona Norte \u2013 estavam aptos a dar o salto de qualidade que os levaria \u00e0 maioridade como ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica.<br \/>\nOutro motivo me levou a aceitar o desafio do artigo. Foi a possibilidade de registrar o trabalho desses percussores do jornal de bairro em S\u00e3o Paulo, onde o fen\u00f4meno se consolidou com importante papel para a organiza\u00e7\u00e3o social. Ao lado de Ant\u00f4nio de Oliveira Marques, Jos\u00e9 Jofre Soares e Araci Bueno (todos de Gazeta do Ipiranga), outros nomes foram fundamentais. A saber: Olympio Vieira Perrone (presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Jornais de Bairro de S\u00e3o Paulo), Durval Quintililiano de Oliveira (Gazeta de Pinheiros), Ari Silva (Gazeta da Zona Norte), Oduvaldo Doninni (Grupo Um de Jornais de Bairro), Hir\u00e3o Tessari (Gazeta da Vila Prudente) e Armando Salles (Gazeta de Santo Amaro). A esses nomes pode-se acrescentar o da professora Katy Nasar (autora da disserta\u00e7\u00e3o \u201cA Not\u00edcia Mora ao Lado\u201d). Todos \u2013 Marques, Jofre e Ari Silva j\u00e1 faleceram. Durval Quintiliano afastou-se da Gazeta de Pinheiros ainda nos anos 80. Hir\u00e3o virou assessor de imprensa. Olympio, Armando e Araci continuam na ativa \u2013 deram uma contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel para que o sonho se transformasse em realidade.<br \/>\nHomenagens \u00e0 parte, \u00e9 hora de fazer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre jornais de bairro que entendo ser uma manifesta\u00e7\u00e3o popular interessante e vital para revigoramento da m\u00eddia impressa. Primeiro porque \u2013 pude comprovar em todos esses anos \u2013 \u00e9 o leitor quem pauta e fiscaliza o jornal. Estamos falando para o nosso vizinho. E, mais do que em qualquer outra publica\u00e7\u00e3o, ele nos cobra uma postura \u00e9tica, independente e respons\u00e1vel. Se voc\u00ea n\u00e3o publicou determinado assunto por este ou aquele motivo, a cobran\u00e7a ser\u00e1 inevit\u00e1vel no primeiro momento em que estiverem frente a frente. Haja argumentos para convenc\u00ea-lo. Isso quando n\u00e3o vem pessoalmente \u00e0 reda\u00e7\u00e3o ou a \u2018bronca\u2019 ou o elogio chegam via telefone e, mais recentemente, via e-mail.<br \/>\nCabe aqui uma hist\u00f3ria para ilustrar bem essa situa\u00e7\u00e3o. Numa das 1.456 sextas-feiras que cheguei \u00e0 reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga \u2013 dia em que o jornal circula &#8211;, uma das rep\u00f3rteres me avisou que um senhor havia me procurado por tr\u00eas vezes. N\u00e3o deixara o nome. Dissera apenas que precisava falar com o RCM \u2013 minhas iniciais, com as quais assinei uma coluna por mais de 20 anos; uma mistura de cr\u00f4nica com o que os antigos chamavam de \u2018artigo de fundo\u2019. Minutos depois, ou\u00e7o uma voz embargada ao telefone dizer que o texto que escrevi havia lhe emocionado porque falava de um Ipiranga e de um mundo que n\u00e3o mais existe. Era um senhor de 91 anos que morava sozinho. De alguma forma, sentia-se abandonado pela fam\u00edlia, e tinha no jornal de bairro o companheiro que o visitava todas as sextas sem \u2018furos\u2019, nem desculpas. Coisa que os filhos faziam sem cerim\u00f4nia e constrangimentos.<br \/>\nQuanto ao revigoramento da m\u00eddia impressa, \u00e9 not\u00f3rio o impasse que hoje vivem os jornais di\u00e1rios sempre a consagrar as not\u00edcias de ontem \u2013 ampla e sistematicamente propagadas pelo r\u00e1dio, a TV e a internet. \u00c0 medida que a globaliza\u00e7\u00e3o torna-se cada vez mais presente na m\u00eddia \u2013 e nos faz \u00edntimos de pormenores da pris\u00e3o de Saddam Hussein em sua cidade natal, Tikrit, no Iraque, e dos altos e baixos da bolsa de Jacarta \u2013 abre-se um espa\u00e7o sensivelmente maior para o desenvolvimento de quem trabalha prioritariamente com a realidade imediata do leitor. Uma realidade que lhe diz respeito e passa a compreender melhor quando a v\u00ea transformada em not\u00edcia. Ou quando ele mesmo \u00e9 not\u00edcia.<br \/>\nH\u00e1 hoje nos brasileiros um amplo desejo de participa\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o social. S\u00e3o, na verdade, sementes de fraternidade e vida comunit\u00e1ria que os jornais de bairro ajudaram a cultivar, mesmo em tempos \u00e1ridos, na certeza de que dias melhores ainda estavam por vir a partir desse fortalecimento da sociedade como um todo.<br \/>\nAdemais, vale sempre lembrar o legado de Dostoievski: \u201cPara ser universal, basta falar de sua aldeia\u201d.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 aqui o artigo primou por homenagens e pelo reconhecimento da for\u00e7a dos jornais de bairro, este terceiro item pretende expor a atual situa\u00e7\u00e3o dessas empresas que, por conta e risco, enfrentam s\u00e9rios desafios para continuidade das propostas editoriais que lhe deram origem, credibilidade e import\u00e2ncia.<br \/>\nValho-me da oportunidade, ali\u00e1s, para registrar um dos raros grandes eventos sobre o tema que aconteceu em S\u00e3o Paulo. Foi em dezembro de 1999 \u2013 no s\u00e9culo passado, portanto. Aconteceu no Senac da Lapa. Constou de uma exposi\u00e7\u00e3o dos diversos t\u00edtulos desta sempre esquecida publica\u00e7\u00e3o. Chamou-se \u201cJornal de Bairro: A Outra Grande Imprensa\u201d.<br \/>\nOs organizadores referendaram a escolha do assunto com um dado irrefut\u00e1vel: semanalmente mais de 2 milh\u00f5es de exemplares de jornais de bairro s\u00e3o distribu\u00eddos gratuitamente nos quatro cantos da Capital, inclusive em alguns munic\u00edpios do Estado. Uma tiragem que, \u00e0 \u00e9poca, superava a da nossa revista de informa\u00e7\u00e3o de maior destaque (Veja) e a do principal jornal do Pa\u00eds (Folha de S.Paulo) que, aos domingos, sai com pouco mais de 1 milh\u00e3o de exemplares.<br \/>\nNa abertura da mostra, houve um painel para reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia dos jornais de bairro como ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social. Na plat\u00e9ia, aproximadamente 120 representantes de 70 jornais de bairro da Grande S\u00e3o Paulo. Coube-me a tarefa de falar no quarto bloco sobre o futuro e os desafios da imprensa setorial no pr\u00f3ximo mil\u00eanio.<br \/>\nLogo na abertura fiz quest\u00e3o de esclarecer dois pontos. A saber. Entendia o t\u00edtulo da palestra pomposo demais para minhas modestas observa\u00e7\u00f5es. Segundo: \u00e0 \u00e9poca, era diretor de reda\u00e7\u00e3o de Gazeta do Ipiranga (jornal semanal com tiragem de 60 mil exemplares) h\u00e1 25 anos e, ao longo desse per\u00edodo, pude acompanhar as mudan\u00e7as que o ve\u00edculo atravessou \u2013 e que, de resto, causavam-me s\u00e9rias preocupa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA principal quest\u00e3o que levantei em plen\u00e1rio \u2013 e que hoje tomou formas alarmantes &#8212; foi a descaracteriza\u00e7\u00e3o editorial e gr\u00e1fica dos jornais de bairro. Nos anos 60\/70 \u00e9ramos os porta-vozes das leg\u00edtimas reivindica\u00e7\u00f5es populares. Est\u00e1vamos acima das ideologias, dos partidos pol\u00edticos e, pasmem, corajosamente do interesse do anunciante. Lev\u00e1vamos \u00e0s autoridades as reivindica\u00e7\u00f5es dos moradores da periferia que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de vida: luz, cal\u00e7amento, asfalto, esgoto, \u00e1gua, escola para os filhos. Trabalh\u00e1vamos para uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha a quem recorrer. Os grandes jornais n\u00e3o davam espa\u00e7o para esse tipo de not\u00edcia e as autoridades estavam hermeticamente distantes dos lamentos populares (vale lembrar que viv\u00edamos num per\u00edodo ditatorial).<br \/>\nJ\u00e1 no final dos anos 70 e come\u00e7o dos 80, a distens\u00e3o democr\u00e1tica ganhou espa\u00e7o em Gazeta do Ipiranga e em muitos outros ve\u00edculos que incentivaram a cria\u00e7\u00e3o de clubes de servi\u00e7o, associa\u00e7\u00f5es de bairro, entidades representativas de grupos sociais, centros desportivos e culturais. Dessa forma, a organiza\u00e7\u00e3o social ganhou n\u00facleos bem definidos (uma vez que os partidos pol\u00edticos e os sindicatos existiam s\u00f3 para \u201clegitimar\u201d a imagem de democracia) e o gosto pela cidadania. Quando eclodiu o movimento pelas Diretas-J\u00e1, em 84, a sociedade j\u00e1 possu\u00eda canais aglutinadores que reverberavam a necessidade da mudan\u00e7a.<br \/>\nOs anos 80 e o in\u00edcio dos 90 registraram um grande avan\u00e7o dos jornais de bairro enquanto ve\u00edculo publicit\u00e1rio. Os bairros ganharam vida pr\u00f3pria, com com\u00e9rcio atuante e cadeia de empresas prestadora de servi\u00e7os de porte consider\u00e1vel. E gradativamente passaram a priorizar o comercial ao editorial.<br \/>\nCom algumas de suas bandeiras praticamente resolvidas (o jornal de bairro deixou de falar do buraco da rua, que continua a existir, mas n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o not\u00edcia e a democratiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato consumado) e insuflados pelos bons ventos do Real que aqueceram a Economia (Gazeta do Ipiranga chegou a tirar edi\u00e7\u00f5es de 48 p\u00e1ginas, com 70 por cento do espa\u00e7o dedicado aos anunciantes), os jornais de bairro passaram a ser prestadores de servi\u00e7o e um brilhante vendedor, especialmente para an\u00fancios varejistas. Criaram-se, ent\u00e3o, se\u00e7\u00f5es absolutamente dispens\u00e1veis como Inform\u00e1tica, Turismo, Autom\u00f3veis, Feminina, Guia do Consumidor, entre outras \u2013 sempre priorizando que pode e quer anunciar.<br \/>\nA pr\u00f3pria primeira p\u00e1gina come\u00e7ou a abrigar mensagens comerciais e chamadas para os melhores anunciantes \u2013 e o editorial perdendo terreno. Hoje, os an\u00fancios chegam a tomar 80 por cento da primeira p\u00e1gina de um grande n\u00famero de jornais de bairro de S\u00e3o Paulo. \u00c9 a capitula\u00e7\u00e3o ao comercial.<br \/>\nAt\u00e9 porque esse processo de descaracteriza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m chega \u00e0s entidades que, salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, passam a ter propostas pol\u00edtico-partid\u00e1rias a reger seus destinos. Quando n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio presidente ou diretor da SAB que \u00e9 candidato a vereador, ele est\u00e1 trabalhando, com sal\u00e1rio e tudo mais, para um pol\u00edtico profissional.<br \/>\nAs grandes quest\u00f5es, que mexem com a opini\u00e3o p\u00fablica, fogem da al\u00e7ada meramente regional. \u00c9 a causa ambientalista, o recrudescimento da viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o desenfreada, o trabalho das ONGs \u2013 e isso tamb\u00e9m \u00e9 tema de outros jornais que o explora \u00e0 exaust\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o interessa \u00e0 comunidade como um todo, s\u00f3 a alguns segmentos. Mas, mesmo assim, sem qualquer como\u00e7\u00e3o maior.<br \/>\nCom o refluxo da Economia, especialmente depois da desvaloriza\u00e7\u00e3o do Real, a imprensa setorial v\u00ea atingido justamente o maior potencial de anunciantes: a pequena e m\u00e9dia empresa. Sem f\u00f4lego para anunciar como faziam anteriormente, sobrevivem \u00e0s duras penas; quando n\u00e3o fecham as portas, n\u00e3o conseguem pagar o pre\u00e7o de tabela ou tornam-se inadimplentes.<br \/>\nEis a encruzilhada: o jornal de bairro n\u00e3o pode perder a estrutura profissional que adotou, mas est\u00e1 sem um projeto editorial qualificado (e identificado com os leitores, que s\u00f3 o procuram agora como prestador de servi\u00e7os) e a crise esfacela o reduto de anunciantes.<br \/>\nDe quebra, perde-se muito do sentido comunit\u00e1rio que davam vida a muitos bairros da Capital. Agora, as compras s\u00e3o feitas em shoppings e ningu\u00e9m se importa em cortar a cidade \u2013 ou mesmo, sair dela \u2013 para se divertir.<br \/>\n.Como enfrentar o impasse? Com criatividade, sim. Mas, principalmente com uma nova estrutura funcional que busque a profissionaliza\u00e7\u00e3o \u2013 quase todos os jornais de bairro s\u00e3o empresas familiares de horizontes bastante t\u00edmidos. Querem a sobreviv\u00eancia e algum prest\u00edgio regional &#8212; e a responsabilidade social.<br \/>\nEst\u00e1 lan\u00e7ado o desafio.<br \/>\nUm desafio que passa pelo interesse das novas gera\u00e7\u00f5es de jornalistas. E a\u00ed a universidade vai desenvolver um papel preponderante. Dever\u00e1 fornecer ao estudante condi\u00e7\u00f5es de entender que se pode fazer o melhor jornalismo tanto na chamada grande imprensa como em qualquer outro ve\u00edculo de informa\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o um jornal de bairro?<br \/>\nRecentemente cinco formandos de jornalismo (Carolina Moreira Lobo, Cl\u00e1udio Daniel de Lima Longo, Gabriel Batista de Carvalho, Jo\u00e3o Paulo Agostini Tavares Soares e Mariana Sarubby Gonzalez) da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo transformaram em realidade o Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso que apresentaram em fins de 2002. Com orienta\u00e7\u00e3o dos professores J\u00falio Ver\u00edssimo e Jos\u00e9 Reis Filho, idealizaram um jornal semanal para a cidade de S\u00e3o Caetano do Sul, no ABC paulista. O S\u00e3o Caetano Agora virou realidade em julho deste ano, e at\u00e9 aqui vem lutando firmemente para conquistar seu espa\u00e7o junto ao p\u00fablico ledor. Na edi\u00e7\u00e3o n\u00famero 1, fui convidado a escrever um breve artigo. N\u00e3o tive d\u00favidas em lhes contar, com a brevidade que o espa\u00e7o de um jornal tabl\u00f3ide me reservou, a saga de Marc\u00e3o e Z\u00e9 Jofre. Ao final, acrescentei que os cinco eram herdeiros do sonho daqueles bravos senhores. Sonho que, insisto, apesar de todos os pesares, ainda n\u00e3o acabou.<\/p>\n<p>* Revista de Estudos de Jornalismo &amp; Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo. Ano 1. N\u00famero 2<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nA Associa\u00e7\u00e3o dos Jornais de Bairro do Estado de S\u00e3o Paulo considera a Tribuna de Santo Amaro (1936) a publica\u00e7\u00e3o mais antiga existente no g\u00eanero. H\u00e1 pesquisadores que v\u00eaem o embri\u00e3o dos jornais de bairro em folhetos informativos distribu\u00eddos nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10344","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10344"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10344\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13865,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10344\/revisions\/13865"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}