{"id":10345,"date":"2003-11-15T00:00:00","date_gmt":"2003-11-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-13T19:44:00","modified_gmt":"2017-09-13T19:44:00","slug":"os-desafios-do-jornal-de-bairro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/os-desafios-do-jornal-de-bairro\/","title":{"rendered":"Os desafios do jornal de bairro"},"content":{"rendered":"<p>Os desafios dos jornais de bairro<\/p>\n<p>Em recente semin\u00e1rio a C\u00e1tedra da Unesco tratou das manifesta\u00e7\u00f5es populares que, de um modo ou de outro, acabaram cooptadas por essa entidade sinistra e enigm\u00e1tica chamada Sistema (durante os anos 70 era a respons\u00e1vel por todos os males da humanidade) e hoje atende pelo nome de Mercado, aquele que estabelece regras implac\u00e1veis e que s\u00f3 consagra os vitoriosos.<br \/>\nMas, a proposta do artigo \u00e9 fazer algumas considera\u00e7\u00f5es sobre jornais de bairro que entendo ser tamb\u00e9m uma manifesta\u00e7\u00e3o popular e, agora, enfrenta s\u00e9rios desafios para continuidade de propostas.<br \/>\nValho-me da oportunidade, ali\u00e1s, para divulgar que at\u00e9 17 de dezembro o Senac da Lapa est\u00e1 promovendo uma exposi\u00e7\u00e3o que trata deste tema: \u201cJornal de Bairro. A Outra Grande Imprensa\u201d. Os organizadores referendam a escolha do assunto com um dado irrefut\u00e1vel: semanalmente mais de 2 milh\u00f5es de exemplares de jornais de bairro s\u00e3o distribuidos gratuitamente nos quatro cantos da Capital, inclusive em alguns munic\u00edpios do Estado. Uma tiragem que supera nossa revista de informa\u00e7\u00e3o de maior destaque (Veja) e o principal jornal do Pa\u00eds (Folha de S.Paulo) que, aos domingos, sai com pouco mais de 1 milh\u00e3o de exemplares.<br \/>\nNa abertura da mostra, houve um painel para reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia dos jornais de bairro como ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o social. Na plat\u00e9ia, aproximadamente 120 representantes de 70 jornais de bairro da Grande S\u00e3o Paulo. Coube-me a tarefa de falar no quarto bloco sobre o futuro e os desafios da imprensa setorial no pr\u00f3ximo mil\u00eanio.<br \/>\nFa\u00e7o aqui duas observa\u00e7\u00f5es. 1) entendo o t\u00edtulo pomposo demais para minhas modestas observa\u00e7\u00f5es; 2) trabalho h\u00e1 25 anos na Gazeta do Ipiranga (jornal semanal com tiragem de 60 mil exemplares) e, ao longo desse per\u00edodo, pude acompanhar as mudan\u00e7as que o ve\u00edculo vem passando \u2013 e que, de resto, causa-me muitas preocupa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA principal quest\u00e3o que levantei em plen\u00e1rio foi a descaracteriza\u00e7\u00e3o editorial e gr\u00e1fica dos jornais de bairro. Nos anos 60\/70 \u00e9ramos os porta-vozes das leg\u00edtimas reivindica\u00e7\u00f5es populares. Est\u00e1vamos acima das ideologias e dos partidos pol\u00edticos e, pasmem!, do interesse do anunciante. Lev\u00e1vamos \u00e0s autoridades as reivindica\u00e7\u00f5es dos moradores da periferia que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de vida: luz, cal\u00e7amento, asfalto, esgoto, \u00e1gua, escola para os filhos. Est\u00e1vamos a servi\u00e7o de uma popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha a quem recorrer. Os grandes jornais n\u00e3o davam espa\u00e7o para esse tipo de noticia e as autoridades estavam hermeticamente distante dos lamentos populares (vale lembrar que viv\u00edamos num per\u00edodo ditatorial)<br \/>\nJ\u00e1 no final dos anos 70 e come\u00e7o dos 80, a distens\u00e3o democr\u00e1tica ganhou espa\u00e7o em Gazeta do Ipiranga e em muitos outros ve\u00edculos que incentivaram a cria\u00e7\u00e3o de clubes de servi\u00e7o, associa\u00e7\u00f5es de bairro, entidades representativas de grupos sociais, centros desportivos e culturais. Dessa forma, a organiza\u00e7\u00e3o social ganhou n\u00facleos bem definidos (uma vez que os partidos pol\u00edticos e os sindicatos existiam s\u00f3 para \u201clegitimar\u201d a imagem de democracia) e o gosto pela cidadania. Quando eclodiu o movimento pelas diretas-j\u00e1, em 84, a sociedade j\u00e1 possu\u00eda canais aglutinadores que reverberavam a necessidade da mudan\u00e7a.<br \/>\nOs anos 80 e o in\u00edcio dos 90 registraram um grande avan\u00e7o dos jornais de bairro enquanto ve\u00edculo publicit\u00e1rio. Os bairros ganharam vida pr\u00f3pria, com com\u00e9rcio atuante e cadeia de empresas prestadora de servi\u00e7os de porte consider\u00e1vel. E gradativamente passaram a priorizar o comercial ao editorial.<br \/>\nCom algumas de suas bandeiras praticamente resolvidas (o jornal de bairro deixou de falar do buraco da rua, que continua a existir mas n\u00e3o \u00e9 mais t\u00e3o not\u00edcia e a democratiza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato consumado) e insuflados pelos bons ventos do Real que aquecem a Economia (Gazeta do Ipiranga chegou a tirar edi\u00e7\u00f5es de 48 p\u00e1ginas, com 70 por cento do espa\u00e7o dedicado aos anunciantes), os jornais de bairro passam a ser prestadores de servi\u00e7o e um brilhante vendedor, especialmente para an\u00fancios varejistas. Criam-se se\u00e7\u00f5es absolutamente dispens\u00e1veis como Inform\u00e1tica, Turismo, Carro Feminina, Guia dos Consumidor, entre outras \u2013 sempre priorizando que pode e quer anunciar. A pr\u00f3pria primeira p\u00e1gina come\u00e7a a abrigar mensagens comerciais e chamadas para os melhores anunciantes \u2013 e o editorial perdendo terreno.<br \/>\nAt\u00e9 porque esse processo de descaracteriza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m chega \u00e0s entidades que, salvo rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es, passam a ter propostas pol\u00edtico-partid\u00e1rias a reger seus destinos Quando n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio presidente ou diretor da SAB que \u00e9 candidato a vereador, ele est\u00e1 trabalhando, com sal\u00e1rio e tudo mais, para um pol\u00edtico profissional.<br \/>\nAs grandes quest\u00f5es, que mexem com a opini\u00e3o p\u00fablica, fogem da al\u00e7ada meramente regional. \u00c9 a causa ambientalista, o recrudescimento da viol\u00eancia, a corrup\u00e7\u00e3o desenfreada, o trabalho das ONGs \u2013 e isso tamb\u00e9m \u00e9 tema de outros jornais que o explora \u00e0 exaust\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o interessa \u00e0 comunidade como um todo, s\u00f3 a alguns segmentos. Mas, mesmo assim, sem qualquer como\u00e7\u00e3o maior.<br \/>\nCo m o refluxo da Economia, especialmente depois da desvaloriza\u00e7\u00e3o do Real, a imprensa setorial v\u00ea atingido justamente o maior potencial de anunciantes: a pequena e m\u00e9dia empresa. Sem f\u00f4lego para anunciar como faziam anteriormente, sobrevivem \u00e0s duras penas; quando n\u00e3o fecham as portas, n\u00e3o conseguem pagar o pre\u00e7o de tabela ou tornam-se inadimplentes.<br \/>\nEis a encruzilhada: o jornal de bairro n\u00e3o pode perder a estrutura profissional que adotou, mas est\u00e1 sem um projeto editorial qualificado (e identificado com os leitores, que s\u00f3 o procuram agora como prestador de servi\u00e7os) e a crise esfacela o reduto de anunciantes.<br \/>\n(De quebra, perde-se muito do sentido comunit\u00e1rio que davam vida a muitos bairros da Capital. Agora, as compras s\u00e3o feitas nos shoppings e ningu\u00e9m se importa em cortar a cidade \u2013 ou mesmo, sair dela \u2013 para se divertir).<br \/>\nComo enfrentar o impasse? Com criatividade, sim. Mas, principalmente com uma nova estrutura empresarial que busque a profissionaliza\u00e7\u00e3o e, principalmente, os ditames organizacionais imprescind\u00edveis a uma empresa de comunica\u00e7\u00e3o na virada do mil\u00eanio.<br \/>\nEst\u00e1 lan\u00e7ado o desafio&#8230;<\/p>\n<p>* Texto para apresenta\u00e7\u00e3o em debate sobre jornalismo regional na UMESP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os desafios dos jornais de bairro<\/p>\n<p>Em recente semin\u00e1rio a C\u00e1tedra da Unesco tratou das manifesta\u00e7\u00f5es populares que, de um modo ou de outro, acabaram cooptadas por essa entidade sinistra e enigm\u00e1tica chamada Sistema (durante os anos 70 era a respons\u00e1vel por todos os males da humanidade) e hoje atende pelo nome de Mercado,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-10345","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagens"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10345","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10345"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10345\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13866,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10345\/revisions\/13866"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10345"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10345"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10345"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}