{"id":10346,"date":"2006-09-24T00:00:00","date_gmt":"2006-09-24T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:30:54","modified_gmt":"2017-09-14T04:30:54","slug":"das-coisas-simples-sensatas-e-sinceras","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/das-coisas-simples-sensatas-e-sinceras\/","title":{"rendered":"Das coisas simples, sensatas e sinceras&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&quot;Na primeira manh\u00e3 que te perdi,<br \/>\n  acordei mais cansado que sozinho&quot;<br \/>\n                               Alceu Valen\u00e7a<\/p>\n<p>&#8211; Quem? <\/p>\n<p>Eu.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Como? <\/p>\n<p>N\u00e3o sei<\/p>\n<p>&#8211; Quando?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; Onde?<\/p>\n<p>No audit\u00f3rio do programa do J\u00f4.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Por que, o qu\u00ea? N\u00e3o fa\u00e7o a menor id\u00e9ia. Estou me beliscando para ver se \u00e9 verdade. Recorro ao tradicional esquema do lead (para os leigos, uma explica\u00e7\u00e3o: trata-se do primeiro par\u00e1grafo dos textos ditos jornal\u00edsticos) para ver se entendo o que est\u00e1 acontecendo. O tal do lead resolve tudo, professam em tom cerimonioso nas escolas de jornalismo e mesmo nas reda\u00e7\u00f5es cada vez mais estressadas.<\/p>\n<p>&#8211; Qual \u00e9 o lead, meu rapaz&#8230;Vamos desembucha&#8230; O lead, o lead&#8230;<\/p>\n<p>Pois \u00e9, n\u00e3o tenho lead. Ou qualquer outra explica\u00e7\u00e3o. Sei que estou sentado na primeira fila do audit\u00f3rio do programa do J\u00f4 Soares. Do meu lado direito, est\u00e1 ningu\u00e9m menos que o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. Do lado esquerdo, Benjor. Isso mesmo dois caras que eu admiro e ambos, cada qual com sua obra, embalaram os tr\u00f4pegos passos que dei vida afora.<\/p>\n<p>Mas o que estou fazendo aqui? Ser\u00e1 que vou ser entrevistado. Acho que todo mundo, ao assistir o programa do J\u00f4, j\u00e1 pensou nessa possibilidade. Aparecer todo vistoso, bem trajado, para falar com sapi\u00eancia e bom humor sobre um assunto qualquer na TV. Importante essa hist\u00f3ria de fazer a plat\u00e9ia rir, divertir-se. Faz parte do script. Deixa a gente com cara de bem resolvido.<\/p>\n<p>\u00c9, j\u00e1 passou pela minha cabe\u00e7a, confesso. Mas, juro, n\u00e3o era nada s\u00e9rio.<br \/>\nOlho para c\u00e1, o Cony est\u00e1 na dele. Batuca com os dedos sobre a capa de um exemplar do  novo\/velho livro A Tarde da Sua Aus\u00eancia \u2013 diga-se de passagem, faz um temp\u00e3o que anunciaram o lan\u00e7amento e at\u00e9 hoje nada. Perdi as contas das vezes que entrei na livraria e pedi: \u201cSaiu o novo livro do Cony?\u201d. O vendedor todo sorridente dizia que n\u00e3o e, de quebra, tentava me empurrar um exemplar de auto-ajuda. Pensando melhor, deveria ter aceitado. Hoje teria uma solu\u00e7\u00e3o para essa enrascada. O Benjor vai lan\u00e7ar um novo cd ou se apresentar numa mega casa de espet\u00e1culos das tantas que hoje existem em S\u00e3o Paulo. P\u00f4, o cara tem sessenta e tralal\u00e1 e est\u00e1 inteira\u00e7o. S\u00f3 para sacanear, acho que vou perguntar quantos anos tem. <\/p>\n<p>N\u00e3o, melhor, n\u00e3o. \u00cddolo n\u00e3o tem idade.<\/p>\n<p>Ai, minha Santa Catarina&#8230;  Melhor sair de fina. Devo ter sentado em lugar errado. Sou desligado. Fui entrando, entrando e nem vi o aviso de reservado. Vou sair daqui, e j\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, por favor, volte ao seu lugar. O programa vai come\u00e7ar. Sua entrevista \u00e9 a primeira.<\/p>\n<p>Mo\u00e7o educado. S\u00f3 que me deixou mais desesperado. O que estou fazendo aqui? Vou falar sobre o qu\u00ea? Sobre o livro que n\u00e3o escrevi. Ou que desafino at\u00e9 para respirar. Sobre a revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fiz. O gol que n\u00e3o marquei. <\/p>\n<p>E se me confundiram com algum gringo \u2013 e o J\u00f4, que fala n\u00e3o sei quantos idiomas, danar-se no ingl\u00eas, alem\u00e3o, franc\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>O vexame vai ser tamanho que nunca mais saio de casa. Estou at\u00e9 vendo. O audit\u00f3rio explode em gargalhadas e ele aproveita para zoar ainda mais.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que o senhor veio ser entrevistado, \u00e9? Willi, p\u00f5e o homem no tel\u00e3o. O pessoal precisa ver a express\u00e3o de espanto do nosso em\u00e9rito bic\u00e3o. Como voc\u00ea chegou aqui?<\/p>\n<p>Se eu tentar explicar o inexplic\u00e1vel vai ser tragic\u00f4mico. Ai, olha eu nas TVs do est\u00fadio (est\u00e3o testando a aparelhagem). At\u00e9 que esse terno escuro combina perfeitamente com a camisa azul. Bem que minhas irm\u00e3s diziam que qualquer trapinho em mim fica bem. Ops, ficou escuro, a m\u00fasica come\u00e7ou, \u00e9 agora&#8230; Luzes no J\u00f4 que aparece l\u00e1 do outro lado do palco (ao menos, est\u00e1 longe de mim), com uma cornetinha na m\u00e3o. Vem dan\u00e7ando. Hum, n\u00e3o sei, n\u00e3o, esse J\u00f4. Olha, o absurdo que estou dizendo. Deixa de ser preconceituoso, Rodolfo. Olha a confus\u00e3o em que se meteu, cara.<\/p>\n<p>&#8211; Boa Noiteeeeeeeee! Um beijo do gordo!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Como assim? O que foi. O que estou fazendo? Outra vez, n\u00e3o. Dormi com a televis\u00e3o ligada. \u00c9 dia claro. 26 de junho de 2003. Depois de 24 anos, \u00e9 a primeira vez que acordo numa quinta sem o compromisso de escrever a coluna Caro Leitor para o jornal Gazeta do Ipiranga. Lembro que, quando meu filho nasceu, era quinta-feira tamb\u00e9m. 20 de mar\u00e7o de 1980. Antes de seguir para a maternidade, ainda alinhavei a coluna daquela semana. Outra quinta, 2 de setembro de 1999, n\u00e3o consegui escrever. Estava no vel\u00f3rio do meu pai, o velho Aldo. Hoje, n\u00e3o estou triste, nem feliz. <\/p>\n<p>Talvez fosse esse o motivo da entrevista do J\u00f4, quer dizer do sonho. N\u00e3o teria muito a dizer. Ou teria? Apenas que aprendi nesse tempo todo a respeitar, cada vez mais, quem est\u00e1 a\u00ed, do outro lado, com olhos pregados no papel. \u00c9 para voc\u00ea que agora escrevo, via telinha, nesse novo ponto de encontro, a coluna Parangol\u00e9s. N\u00e3o h\u00e1 uma linha editorial definida. Como disse l\u00e1 em cima, s\u00e3o hist\u00f3rias que cismei de contar &#8211; vividas, observadas, ouvidas, imaginadas, pressentidas, requentadas, pensadas e criadas a partir de um olhar, de uma emo\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo de uma invencionice qualquer. Quero apenas que me leiam e se entendam. Ou vice-versa. Prefiro as coisas simples, sensatas e sinceras.<\/p>\n<p>Ta\u00ed. Gostei. Ficou legal. Um tanto formal, parece ensaiado. Mas, \u00e9 verdadeiro. J\u00e1 sei. Vou dormir de novo. Quem sabe n\u00e3o d\u00e1 tempo de aparecer no programa de hoje&#8230;  <\/p>\n<p>* (Escrito em 27\/06\/2003)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&quot;Na primeira manh\u00e3 que te perdi,<br \/>\n  acordei mais cansado que sozinho&quot;<br \/>\n                               Alceu Valen\u00e7a<\/p>\n<p>&#8211; Quem? <\/p>\n<p>Eu.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10346"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14009,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10346\/revisions\/14009"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}