{"id":10350,"date":"2006-09-28T00:00:00","date_gmt":"2006-09-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2025-03-28T18:29:05","modified_gmt":"2025-03-28T18:29:05","slug":"nos-confins-do-faz-de-conta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nos-confins-do-faz-de-conta\/","title":{"rendered":"Nos confins do faz de conta"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Coragem grande \u00e9 dizer sim&#8221; &#8212; Caetano Veloso<\/p>\n<p>Voc\u00ea me pergunta sobre as elei\u00e7\u00f5es? Antes me pergunta como v\u00e3o as coisas? A quantas ando? Bem deixemos as elei\u00e7\u00f5es pra l\u00e1&#8230; Em ess\u00eancia, \u00e9 o que muitos est\u00e3o fazendo nesse arenoso 2006. Vou lhe dizer: ando pela a\u00ed como sempre. Nada de muito especial. Cheio de planos e vontades. Mas, como de costume, tocando o que d\u00e1 para ser tocado nas miudezas do dia a dia. Mais ou menos aquilo que li\/ouvi certo dia, nem sei a que prop\u00f3sito. &#8220;Parece que todos s\u00e3o pr\u00edncipes, e a mim coube a parte do sapo&#8221;. Na verdade, seria injusto reclamar da calmaria da minha lagoa. Cada um sabe a dor e a del\u00edcia de ser o que \u00e9.<\/p>\n<p>Sinceramente. N\u00e3o sei lhe responder porque a gente n\u00e3o se fala\/v\u00ea com mais freq\u00fc\u00eancia. Dizem que \u00e9 a tal roda da vida. Vontade n\u00e3o falta. Para o tempo sempre se d\u00e1 um jeito. Mas, \u00e9 que a vida anda t\u00e3o desengon\u00e7ada ultimamente ou ser\u00e1 que eu perdi meu dom de andar sobre o arame? De reverter o n\u00e3o pelo sim?<\/p>\n<p>De qualquer modo, como v\u00ea, agora estou aqui e, se me permite, quero dividir com voc\u00eas essas tais lentes emba\u00e7adas que os terapeutas costumam nos dizer \u2018sempre usamos\u2019 quando andamos tristes e\/ou inseguros. A querer o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 um pouco assim que eu definiria esse momento pr\u00e9 eleitoral.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, pra ser bem franco, em tempos de desvario como os que hoje vivemos, todos parecem olhar o planeta &#8212; exagero? &#8212; de um jeito nebuloso, tosco. Diria que preferem n\u00e3o ver o que h\u00e1 para ver, pois certamente o que veem n\u00e3o \u00e9 o que gostariam de ver. E o que gostariam de ver n\u00e3o est\u00e1, por este ou aquele motivo, ao alcance do pr\u00f3prio olhar.<\/p>\n<p>Desculpe o n\u00f3 de letrinhas. Mas, repito, estamos numa corrida maluca chamada vida &#8212; e nos parece que alguns raros t\u00eam o dom de Schumaker. Para n\u00f3s, pobres iguais, cabe a fun\u00e7\u00e3o e as desculpas do Barrichelo na melhor das hip\u00f3teses. Pior: h\u00e1 dias que a gente se sente bem uma Minardi a se arrastar por um circuito que agora, a essa altura da prova\/vida, j\u00e1 n\u00e3o sabemos como e onde come\u00e7ou e como e onde vai acabar.<\/p>\n<p>Talvez a gente se refresque com o vento, quando outro mais nos ultrapassar. Talvez a gente diga ufa, desta eu escapei quando nos depararmos com um baita acidente na curva. Vale tamb\u00e9m esperar que entre na pista o carro-madrinha &#8211; o chamado destino &#8211; para recolocar todos os competidores alinhados, como chance de come\u00e7ar tudo outra vez e agora. \u2018Bem, agora vai dar tudo certo\u2019, pensamos.<\/p>\n<p>Argh! Tamb\u00e9m nos assusta &#8212; e como &#8212; a alternativa de pararmos nos boxes para um simples pit-stop, e sermos obrigado a desistir.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 no mais antigo dos anos, entrevistei o garoto que fez o filme Menino da Porteira, um baita sucesso com S\u00e9rgio Reis. A antiga toada regravada virou filme. E o garotinho M\u00e1rcio Costa fazia o personagem-t\u00edtulo. Tinha nove, dez anos, se tanto. A m\u00e3e o levou ao jornal e falava por ele que, por sua vez, ficava a se olhar no reflexo do vidro da janela da reda\u00e7\u00e3o. Alheio ao que se passava ao redor, ajeitava o cabelo, fazia caretas, sorria, gesticulava num mundo que era s\u00f3 dele. E a m\u00e3e a dizer que o filho nascera para a arte e ele a interpretar ele mesmo em frente a janela.<\/p>\n<p>Essa imagem ficou na minha cabe\u00e7a. Toda vez que queria falar de algo que parecia ser bom mas n\u00e3o era contava a tal hist\u00f3ria. O tempo, senhor de todos os ritmos, passou. O menino, depois do filme, fez algumas novelas, outras tantas pe\u00e7as teatrais. Por\u00e9m, nunca mais alcan\u00e7ou a mesma proje\u00e7\u00e3o. Viirou adulto e os pap\u00e9is rarearam. Reapareceu na reda\u00e7\u00e3o v\u00e1rias vezes. Ora para divulgar o curso de teatro que iria ministrar na escola tal, ora para falar do personagem incr\u00edvel que iria representar numa pe\u00e7a infantil, ora para dizer que seria escalado para a novela XYZ &#8212; papel que invariavelmente perdia para os novos meninos da porteira, de todas as idades e proced\u00eancias.<\/p>\n<p>Num dia de julho de 2004, o tal menino, ent\u00e3o com 36 anos, n\u00e3o sei se diante da janela ou do espelho, encenou o derradeiro personagem. Com um tiro p\u00f4s fim \u00e0 vida e ao que entendia ser a promissora carreira. Ningu\u00e9m p\u00f4de explicar o gesto. Saiu uma brev\u00edssima nota sobre o fato num jornal da regi\u00e3o do Ipiranga, bairro onde sempre morou.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei porque lembro essa hist\u00f3ria agora. Talvez para que fiquemos atentos aos dois lados da moeda, a cara e a coroa. O sim e o n\u00e3o A luz e a escurid\u00e3o. Enfim, \u00e9 a vida que nos enreda e nos exige forte e, ao mesmo tempo, que tenhamos a desfa\u00e7atez de n\u00e3o nos levarmos a s\u00e9rio. A n\u00f3s, aos nossos quereres, \u00e0 nossa rotina. Algo assim como a leveza de um filme do Carlitos &#8211; que, por sinal, era o apelido do meu av\u00f4.<\/p>\n<p>Repare como o vagabundo toca a vida, mesmo na maior das afli\u00e7\u00f5es. Os chefes, as autoridades, os poderosos s\u00e3o invariavelmente med\u00edocres, bizarros &#8211; qualquer semelhan\u00e7a como nosso pavoroso momento eleitoral \u00e9 mera coincid\u00eancia. Os amores tardam, se esgueiram daqui e dali. Mas chegam e, o que \u00e9 melhor, sempre chegam no momento certo. Ter o aux\u00edlio luxuoso n\u00e3o de um pandeiro, pois n\u00e3o nascemos Luiz Melodia, mas de uma bengalinha e um chap\u00e9u coco (ou mesmo de um sorriso, de um olhar) para dar um certo ritmo \u00e0 nossa caminhada porque a estrada, mo\u00e7a, \u00e9 longa e sinuosa. Perde-se nos confins do faz-de-conta e nos \u00e9 infinita enquanto se chamar esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Coragem grande \u00e9 dizer sim&#8221; &#8212; Caetano Veloso<\/p>\n<p>Voc\u00ea me pergunta sobre as elei\u00e7\u00f5es? Antes me pergunta como v\u00e3o as coisas? A quantas ando? 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