{"id":10357,"date":"2006-10-01T00:00:00","date_gmt":"2006-10-01T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:30:17","modified_gmt":"2017-09-14T04:30:17","slug":"osorno","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/osorno\/","title":{"rendered":"Osorno"},"content":{"rendered":"<p>Janeiro de 2005. Chegamos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de esqui nas escarpas do vulc\u00e3o Osorno. Estamos a mil e duzentos metros do n\u00edvel do mar e a vista \u00e9 lind\u00edssima. De um lado a cordilheira dos Andes e l\u00e1, distante, o imenso lago de \u00e1guas azuis esverdeadas. N\u00e3o paramos para reparar nesta rara pintura. Descemos da van, que nos trouxe at\u00e9 esses confins, com olhos grudados no ir-e-vir do telef\u00e9rico. A id\u00e9ia \u00e9 subir mais 300, 400 metros e chegar ao local onde a guia garantiu ainda haver neve. Estamos, pois, \u00e1vidos por olhar, caminhar, escorregar, tocar, fazer e atirar bolas de neve. <\/p>\n<p>Neve, neve, neve\u2026 <\/p>\n<p>Era s\u00f3 disso que fal\u00e1vamos desde o hotel at\u00e9 aqui. Havia a possibilidade da engenhoca n\u00e3o estar funcionando, devido ao mau tempo, e acabar com a alegria de todos \u2013 dois s\u00e3o chilenos, os demais brasileiros.  Mas, o sol apareceu \u00e0 medida que sub\u00edamos pela estradinha sinuosa, rumo ao mais estiloso dos vulc\u00f5es chilenos, o Osorno.<\/p>\n<p>Um certo desconforto f\u00edsico me fez repensar o projeto das alturas. \u00c9 a velha e conhecida Sra. Dor nas Costas que n\u00e3o permite (in)certas brincadeiras. J\u00e1 me imaginei travado sem poder saltar a girar e girar e girar naquela cadeirinha mambembe. O melhor \u00e9 ficar e esperar o retorno dessas crian\u00e7as crescidas. <\/p>\n<p>Al\u00e9m do que, a constru\u00e7\u00e3o de madeira, que abriga a tal esta\u00e7\u00e3o, me parece acolhedora. Tem uma lanchonete com janelas amplas e \u2013 me garantem &#8212; faz um bom chocolate quente. Melhor, est\u00e1 vazia. S\u00f3 alguns funcion\u00e1rios de caras simp\u00e1ticas \u00e0 espera de turistas que, diga-se, s\u00e3o mais raros no ver\u00e3o. <\/p>\n<p>Escolho um lugar confort\u00e1vel com vista para o cume do vulc\u00e3o (que dizem ter 2.250 metros de altitude), a cordilheira e o lago \u2013 \u2018lagoa \u00e9 pequena, lago \u00e9 maior\u2019, ensinou a guia loirinha no meio do trajeto e me fez lembrar as aulas de geografia do prim\u00e1rio.<\/p>\n<p>Aproveito essa hora imprecisa de uma tarde ensolarada de janeiro para rabiscar um texto curto que reverencie o novo ano. Um texto t\u00e3o incerto quanto a silhueta do Osorno. Que ora se exibe inteira, esbelta, com sua neve eterna a lembrar o similar famoso, o Fuji, no Jap\u00e3o. Ora se deixa enfeitar por um colar de nuvens clar\u00edssimas \u2013 e nem por isso perde a majestade entre tantas outras eleva\u00e7\u00f5es andinas.<\/p>\n<p>Um texto curto que fale das f\u00e9rias, invariavelmente, a nos escapar pelo v\u00e3o dos dedos. Dos planos que n\u00e3o fiz nesta virada de ano. Dos sonhos que preferi n\u00e3o sonhar. Das id\u00e9ias esparsas que tenho sobre tudo e sobre todos. De sentimentos e desejos e conquistas e compromissos e de que logo, logo estarei de volta ao trabalho&#8230; <\/p>\n<p>Viver e deixar viver. Simplificar \u2013 eis o lema. Ano passado, listei uma por\u00e7\u00e3o de objetivos que gradativamente fui deixando de lado, com o correr dos dias.<\/p>\n<p>Ao pensar nessa listagem, ainda \u00e0 minha espera em algum escaninho da alma, uma discreta inquieta\u00e7\u00e3o me faz deixar o ambiente fechado e protegido da esta\u00e7\u00e3o. Caminho at\u00e9 um mirante improvisado a alguns metros adiante. O sil\u00eancio me surpreende. Id\u00e9ias e quereres se aquietam diante do privil\u00e9gio de estar ali e olhar a imensid\u00e3o \u2013 o agrupamento de montanhas, o lago que parece um mar &#8212; e ouvir agora a suave can\u00e7\u00e3o do vento.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender que trabalho o ano todo para viver momentos como este. <\/p>\n<p>Mas, pondero, n\u00e3o sou s\u00f3 eu&#8230;<\/p>\n<p>Imagino o entusiasmo do pessoal l\u00e1 em cima \u2013 as cadeirinhas do telef\u00e9rico sobem e descem ainda vazias. Quanto tempo eles ficar\u00e3o por l\u00e1? Quem se importa? Estamos todos bem, em paz. Ali\u00e1s, como deveriam ser os 365 dias do ano. Afinal, o espet\u00e1culo da vida tamb\u00e9m \u00e9 surpreendente \u2013 e quase sempre n\u00e3o nos damos conta disso. Tentamos corrigir o ontem, planejamos o amanh\u00e3 e esquecemos de viver o hoje.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 bom estar aqui. A vida tem mesmo lindos e desafiadores mist\u00e9rios. Exemplo: agora, diante deste cart\u00e3o postal, h\u00e1 uma inconteste paz interior e a vontade de prorrogar o tanto quanto poss\u00edvel este brev\u00edssimo instante. Como disse o poeta, \u201cna vida das minhas retinas t\u00e3o fatigadas jamais esquecerei este acontecimento\u201d.  <\/p>\n<p>Mas, no mesmo soneto, Drummond alerta: h\u00e1 uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho h\u00e1 uma pedra&#8230; Algu\u00e9m, ali\u00e1s, n\u00e3o t\u00e3o poeta, mas igualmente s\u00e1bio, disse que a felicidade est\u00e1 dentro de n\u00f3s. H\u00e1 quem saiba lidar com ela. H\u00e1 quem s\u00f3 fa\u00e7a espanta-la mesmo quando se v\u00ea a um passo de conquista-la&#8230; <\/p>\n<p>\u201cPreciso pensar melhor\u201d, \u00e9 a desculpa de sempre. Assim tentamos racionalizar e nos entendermos mais humanos. Entre o quase sim e o prov\u00e1vel n\u00e3o, protelamos o sonho em troca de um certo modelo social. Um modelo que vai se transformar em nosso escudo, caso as coisas n\u00e3o saiam exatamente como imaginamos. Vai desculpar um eventual fracasso. \u00cb assim no trabalho, no amor, na vida&#8230; <\/p>\n<p>\u201cFiz o que uma pessoa sensata faria\u201d \u2013 argumentamos cheios de raz\u00e3o. E, muitas vezes, perdemos a chance de exercitar a deliciosa loucura de ser n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>\u2018Ent\u00e3o? Como ficamos?\u2019 \u2013 queixo-me ao Osorno, indiferente a tudo e a todos. Tenho como resposta um naipe de nuvens brincalhonas a encobrir o topo do vulc\u00e3o. Com suas acrobacias, me fazem imaginar figuras diversas e m\u00e1gicas. Recordo que, quando era menino, me punha a olhar o c\u00e9u deitado no cimento do quintal \u2013 naquele tempo, as casas, mesmo as mais modestas, tinham quintal e cachorro e mesmo algumas hortali\u00e7as.<\/p>\n<p>De repente, incorporo o menino que com tudo se encantava e se imaginava um personagem dos contos de Malba Tahan. E passo a entender o que essas espertinhas querem me dizer:<\/p>\n<p>&#8212; Ora, tudo \u00e9 poss\u00edvel, meu caro&#8230;  Tudo, ali\u00e1s, n\u00e3o passa de uma vaga id\u00e9ia para um texto curto que, repare, j\u00e1 est\u00e1 na hora de \u2018fechar\u2019. <\/p>\n<p>E, c\u00famplices de meus devaneios, pedem \u00e0 brisa que me sussurrem a verdade das verdades: \u201cCom sorriso de orelha a orelha, a mo\u00e7ada retorna do passeio na neve. E grita e acena e festeja. Ou\u00e7a as divertidas hist\u00f3rias que tem para lhe contar. Entenda a celebra\u00e7\u00e3o da vida, caro amigo, pois s\u00f3 o agora existe. O ontem j\u00e1 se foi e o amanh\u00e3 a Deus pertence. \u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Janeiro de 2005. Chegamos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de esqui nas escarpas do vulc\u00e3o Osorno. Estamos a mil e duzentos metros do n\u00edvel do mar e a vista \u00e9 lind\u00edssima. 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