{"id":10366,"date":"2006-10-07T00:00:00","date_gmt":"2006-10-07T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2025-03-29T15:05:00","modified_gmt":"2025-03-29T15:05:00","slug":"ultima-cancao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/ultima-cancao\/","title":{"rendered":"\u00daltima can\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m me perguntar qual foi a m\u00fasica que mais ouvi em 1968, ano em que os estudantes de boa parte do mundo todo estavam nas ruas a gritar &#8220;\u00e9 proibido proibir&#8221;, terei de confirmar, com olhos baixos e melanc\u00f3licos:<\/p>\n<p>&#8212; Foi &#8220;\u00daltima Can\u00e7\u00e3o&#8221;, com Paulo S\u00e9rgio que, \u00e0 \u00e9poca, diziam imitar o rei Roberto Carlos.<\/p>\n<p>Das 8 da manh\u00e3 \u00e0s 18 horas, ouvia os acordes dessa balada triste &#8211; tida como &#8216;cafona&#8217; &#8211; e a voz anasalada do imitador. Ambos a chorar o inapel\u00e1vel adeus ao amor perdido. N\u00e3o era f\u00e1cil. Mas eu resistia bravamente em troca de uns trocos no fim do m\u00eas.<\/p>\n<p>Na verdade, foi meu primeiro emprego, balconista de uma loja de disco na rua S\u00e3o Bento no Centro de S\u00e3o Paulo. Tinha 16 para 17 anos, e durou pouco mais de um m\u00eas &#8211; afinal, ningu\u00e9m \u00e9 de ferro.<\/p>\n<p>Tempo suficiente para n\u00e3o mais esquecer os versos tristes da can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o voc\u00ea ver\u00e1 o valor\/que tem o amor\/<br \/>E muito vai chorar\/ ao lembrar\/o que passou\/<br \/>Esta \u00e9 a \u00faltima can\u00e7\u00e3o\/que eu fa\u00e7o pra voc\u00ea&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 que a toc\u00e1vamos ininterruptamente a mando do gerent\u00e3o. Um homem sisudo, engravatado, cuja a fun\u00e7\u00e3o mor na vida era vender o enorme estoque de compactos simples do Paulo S\u00e9rgio que t\u00ednhamos no fundo da loja. E a m\u00fasica, diga-se, era mesmo um sucesso. Do\u00edda, triste, mas um sucesso&#8230;<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia era simples: rua de grande movimento, no quarteir\u00e3o pr\u00f3ximo ao Largo S\u00e3o Francisco, todos que passavam eram um prov\u00e1vel comprador. Bastava ser instigado a&#8230; Para tanto, toc\u00e1vamos a &#8220;\u00daltima Can\u00e7\u00e3o&#8221; insistentemente. Sem parar&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Em frente \u00e0 loja, havia um estacionamento, onde trabalhavam tr\u00eas ou quatro divertidos lavadores de carro que, na verdade, eram &#8216;aut\u00f4nomos&#8217;. Ou sejam ficavam por ali. E, quando algu\u00e9m deixava o carro, eles propunham o servi\u00e7o e assim garantiam o p\u00e3o de cada dia. Quando n\u00e3o, estavam rindo a contar piadas, e falar de futebol ou a cantar velhos sambas batucando nas latas.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o \u00e9 que no fim do expediente de uma arrastada segunda-feira, os lavadores, todos, invadem a loja com cara de poucos amigos. Eram meus conhecidos, mas, nesse fim de expediente, querem mesmo falar com o gerente. Estranho, mas vou chamar o homem &#8211; que n\u00e3o gosto de confus\u00e3o para o meu lado.<\/p>\n<p>A conversa \u00e9 r\u00e1pida.<\/p>\n<p>&#8212; Viemos propor um trato. Quantos disquinhos do Paulo S\u00e9rgio voc\u00eas ainda t\u00eam na loja?<\/p>\n<p>&#8212; Hum! Preciso ver l\u00e1 no estoque. Mas, acho que s\u00e3o uns dez ou doze, diz o gerente.<\/p>\n<p>&#8212; Pois ent\u00e3o, mo\u00e7o, juntamos a &#8216;f\u00e9ria&#8217; do dia e est\u00e1 aqui, \u00f3&#8230; (colocou no balc\u00e3o, uma pilha de trocados, amarfanhados e ainda \u00famidos). A gente compra todos. Fechado?<\/p>\n<p>&#8212; Compram todos?<\/p>\n<p>&#8212; Mas tem um por\u00e9m. Pelo menos at\u00e9 o fim desta semana, voc\u00eas param de tocar essa xaropada&#8230;<\/p>\n<p>Estou s\u00f3 ouvindo. Mas, diante do inevit\u00e1vel, tomo a frente das negocia\u00e7\u00f5es &#8211; e topo o acordo. Afinal, ningu\u00e9m \u00e9 de ferro&#8230;<\/p>\n<p>___ ___ ___<\/p>\n<p><strong>*[Texto publicado na colet\u00e2nea &#8220;Volteios &#8211; Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios&#8221;, lan\u00e7ado em 2014, pela Editora Terceira Margem]<\/strong><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se algu\u00e9m me perguntar qual foi a m\u00fasica que mais ouvi em 1968, ano em que os estudantes de boa parte do mundo todo estavam nas ruas a gritar &#8220;\u00e9 proibido proibir&#8221;,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-10366","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10366","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10366"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10366\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":33987,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10366\/revisions\/33987"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10366"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10366"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10366"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}