{"id":10374,"date":"2006-10-11T00:00:00","date_gmt":"2006-10-11T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-23T03:43:20","modified_gmt":"2018-03-23T03:43:20","slug":"midia-e-democracia-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/midia-e-democracia-3\/","title":{"rendered":"M\u00eddia e Democracia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Ricardo Kotscho<\/strong><\/p>\n<p>Texto apresentado no 5\u00ba ENCONTRO DE JORNALISMO DA FACULDADE DE JORNALISMO E RELA\u00c7\u00d5ES P\u00daBLICAS DA UNIVERSIDADE METODISTA DE S\u00c3O PAULO em 25 de setembro de 2006.<\/p>\n<p>Boa noite,<\/p>\n<p>Antes de mais nada, gostaria de agradecer aos professores e alunos da Metodista que me convidaram para estar aqui hoje, no lan\u00e7amento do meu novo livro, para falar sobre M\u00eddia e Democracia no 5\u00ba Encontro de Jornalismo.<\/p>\n<p>Vou fazer apenas uma breve introdu\u00e7\u00e3o sobre o assunto, deixando mais tempo para conversarmos durante o debate que teremos a seguir.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Lancei h\u00e1 poucas semanas um livro de mem\u00f3rias _ \u201cDo Golpe ao Planalto _ uma vida de rep\u00f3rter\u201d _ em que conto como se deu a passagem da ditadura \u00e0 democracia sob o \u00e2ngulo de quem viu e viveu de perto as mudan\u00e7as no pa\u00eds e na imprensa na conjuntura p\u00f3s-redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como comecei a trabalhar no inesquec\u00edvel ano de 1964 e relato o que aconteceu at\u00e9 2004, o livro apresenta um registro de quatro d\u00e9cadas divididas exatamente ao meio: vinte anos de ditadura e vinte anos da nossa jovem democracia. No meio, como um divisor de \u00e1guas, localizo a Campanha das Diretas, o grande marco no processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A mesma grande imprensa que apoiara com entusiasmo o golpe militar de 1964 e, depois, fora colocada sob censura pr\u00e9via em 1968, a partir do golpe dentro do golpe promovido pelo AI-5, demorou a se dar conta de que um grande movimento popular estava ganhando as ruas para dar um basta \u00e0 ditadura.<br \/>\nTrabalhava nesta \u00e9poca no jornal \u201cFolha de S. Paulo\u201d que, desde o primeiro momento, ainda nos \u00faltimos meses de 1983, abriu suas p\u00e1ginas e mobilizou toda sua equipe para fazer a cobertura da Campanha das Diretas.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, notei esta invers\u00e3o entre os chamados formadores de opini\u00e3o abrigados na imprensa e a vontade popular expressa pela sociedade civil organizada. Em vez de a imprensa fazer a cabe\u00e7a do povo para ir \u00e0s ruas, como aconteceu em 1964, agora era o povo nas ruas que obrigava a imprensa a ir atr\u00e1s para descobrir o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Com a liberdade reconquistada, a imprensa viveria um per\u00edodo de prosperidade, tanto na circula\u00e7\u00e3o como na qualidade dos seus ve\u00edculos. Isso durou mais ou menos at\u00e9 meados dos anos 90, quando se instalou a crise econ\u00f4mico-financeira na m\u00eddia, que muitas empresas at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiram superar.<br \/>\nReda\u00e7\u00f5es foram progressivamente sendo reduzidas, ao mesmo tempo em que, para cortar custos, o espa\u00e7o das reportagens na m\u00eddia impressa foi sendo ocupado por colunas e pelo notici\u00e1rio burocr\u00e1tico cevado nos gabinetes e apurado por telefone.<br \/>\nEm conseq\u00fc\u00eancia, houve uma invers\u00e3o de prioridades na pauta dos ve\u00edculos. Em lugar das hist\u00f3rias sobre a vida no Brasil real, a m\u00eddia impressa passou a dedicar cada vez mais espa\u00e7o ao Brasil oficial, aos bastidores e \u00e0s futricas da disputa pol\u00edtica, \u00e0 vida das celebridades, algo que j\u00e1 foi qualificado pelo professor Jos\u00e9 Arbex como \u201cshownalismo\u201d.<\/p>\n<p>Com a imprensa regional cada vez mais dependente do notici\u00e1rio das tr\u00eas grandes ag\u00eancias nacionais, o resultado \u00e9 que passamos a ter Bras\u00edlia demais e Brasil de menos nos jornais e revistas.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de se perguntar hoje o que \u00e9 causa e o que \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia. A m\u00eddia impressa deixou de produzir reportagens capazes de surpreender o leitor e contar novidades por causa da crise econ\u00f4mica? Ou a crise \u00e9 justamente conseq\u00fc\u00eancia dessa indiferencia\u00e7\u00e3o entre os ve\u00edculos, cada vez mais parecidos uns com os outros?<\/p>\n<p>Nos anos mais recentes, essa situa\u00e7\u00e3o se agravou com a concorr\u00eancia das novas m\u00eddias eletr\u00f4nicas. Agora, j\u00e1 n\u00e3o basta encontrar novas f\u00f3rmulas para diferenciar um ve\u00edculo do outro, mas tamb\u00e9m acrescentar algo a mais ao notici\u00e1rio das agencias on-line para diferenciar uma m\u00eddia da outra.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, enquanto a imprensa de papel encolhia, emissoras de r\u00e1dio e televis\u00e3o passaram a investir cada vez mais em jornalismo. Os jornais, que antes pautavam o r\u00e1dio e a televis\u00e3o, passaram a ser pautados por eles.<\/p>\n<p>Bem abastecido de informa\u00e7\u00f5es durante todo o dia, o leitor dos jornais de prest\u00edgio passou a sentir um gosto de p\u00e3o amanhecido no notici\u00e1rio impresso que acompanha seu caf\u00e9 da manh\u00e3.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, os jornais populares n\u00e3o pararam de crescer no mesmo per\u00edodo, incorporando um leitorado novo. Quase todas as grandes empresas investiram nesse fil\u00e3o, atraindo gente que nunca antes teve dinheiro para comprar jornal.<\/p>\n<p>O casamento do pre\u00e7o de capa bem mais barato com a melhoria de renda de parte dos trabalhadores criou um novo e promissor mercado. Por isso, entre outras raz\u00f5es, n\u00e3o fa\u00e7o coro aos profetas do apocalipse que anunciam h\u00e1 tempos o fim da imprensa de papel.<\/p>\n<p>Assim como o cinema n\u00e3o acabou com o teatro, e a televis\u00e3o n\u00e3o acabou com nenhum dos dois que vieram antes, acredito que todas as formas de divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobreviver\u00e3o, desde que cada m\u00eddia saiba qual \u00e9 o seu papel nesta hist\u00f3ria e seja capaz de atender \u00e0s demandas da sua freguesia.<\/p>\n<p>Sei que tudo isso que estou falando tem mais a ver com as rela\u00e7\u00f5es entre imprensa e sociedade do que entre imprensa e Estado. Com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, quanto mais a imprensa se mantiver distante do Estado e vice-versa, tanto melhor para a sociedade.<\/p>\n<p>Para que isso seja poss\u00edvel, penso que se torna cada vez mais necess\u00e1rio estabelecer marcos regulat\u00f3rios para a comunica\u00e7\u00e3o social, de prefer\u00eancia com a auto-regulamenta\u00e7\u00e3o da atividade, tanto para empresas como para os profissionais.<\/p>\n<p>Num mundo cada vez mais conectado \u00e0 grande rede, em que todos um dia seremos emissores e receptores de informa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 que se estabelecer regras do jogo claras para que a liberdade de express\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o seja realmente um direito da sociedade democr\u00e1tica e n\u00e3o privil\u00e9gio de interesses particulares de grupos pol\u00edticos ou econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Assim como aconteceu l\u00e1 atr\u00e1s na Campanha das Diretas, assistimos hoje a um processo semelhante, em que a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se submete mais passivamente aos velhos donos da verdade, mas forma sua pr\u00f3pria opini\u00e3o a partir das mais diversas fontes e, principalmente, dos fatos concretos da sua pr\u00f3pria realidade.<br \/>\nNa medida em que, pelas mais diferentes raz\u00f5es, a imprensa deixou de acompanhar o cotidiano da vida real em largas regi\u00f5es do pa\u00eds, ao inv\u00e9s de surpreender seus leitores, muitas vezes ela \u00e9 que est\u00e1 sendo surpreendida pelos fatos.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu recentemente em S\u00e3o Paulo com os atentados praticados pelo PCC. Eu estava fazendo uma reportagem no interior de Santa Catarina. A todo momento, minha mulher e a do fot\u00f3grafo que viajava comigo ligavam pelo celular contando o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Parecia que S\u00e3o Paulo estava sofrendo uma invas\u00e3o de marcianos, como se o PCC tivesse sido inventado de uma hora para outra. O que aconteceu? N\u00f3s jornalistas simplesmente ignoramos o que se passava dentro dos pres\u00eddios onde h\u00e1 anos uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa vinha ganhando for\u00e7a. \u00c9 o tipo da mat\u00e9ria que n\u00e3o d\u00e1 para fazer por telefone&#8230;<\/p>\n<p>Para aproximar novamente um mundo do outro, quer dizer, a f\u00e1brica de papel impresso da realidade vivida por sua clientela, s\u00f3 tem um jeito.<br \/>\n\u00c9 colocar novamente os dois em contato, falar a mesma l\u00edngua, reaprender a contar hist\u00f3rias da vida real.<\/p>\n<p>\u00c9 sair da reda\u00e7\u00e3o, largar o telefone e as teses dos analistas pol\u00edticos, botar outra vez o p\u00e9 na estrada, olhos e ouvidos bem abertos.<\/p>\n<p>\u00c9 voltar a fazer reportagem, enfim. Foi o que fiz quando terminei de escrever o livro. Desde maio voltei a escrever reportagens para o jornal \u201cO Globo\u201d, junto com o fot\u00f3grafo H\u00e9lio Campos Mello, procurando sempre hist\u00f3rias e personagens que n\u00e3o est\u00e3o na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, trabalho atualmente no projeto \u201cGlobo e Universidade\u201d, uma iniciativa da Rede Globo para aproximar o mercado de trabalho das faculdades, participando de encontros como esse que voc\u00eas est\u00e3o promovendo aqui na Metodista.<\/p>\n<p>O meu principal objetivo com a publica\u00e7\u00e3o do livro \u00e9 justamente resgatar entre os meus colegas jornalistas, especialmente entre os mais jovens, a paix\u00e3o pela reportagem. Por isso, tenho viajado muito pelo pa\u00eds para juntar a teoria com a pr\u00e1tica, quer dizer, ao mesmo tempo em que fa\u00e7o palestras em tudo quanto \u00e9 lugar, vou levantando temas para novas reportagens. Depois de velho, virei um camel\u00f4 de mim mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Vou parando por aqui. Se eu falar demais, depois ningu\u00e9m vai comprar meu livro&#8230;<\/p>\n<p>Muito obrigado a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>Por Ricardo Kotscho<\/strong><\/p>\n<p>Texto apresentado no 5\u00ba ENCONTRO DE JORNALISMO DA FACULDADE DE JORNALISMO E RELA\u00c7\u00d5ES P\u00daBLICAS DA UNIVERSIDADE METODISTA DE S\u00c3O PAULO em 25 de setembro de 2006.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10374"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18512,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10374\/revisions\/18512"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}