{"id":10379,"date":"2006-10-15T00:00:00","date_gmt":"2006-10-15T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:28:51","modified_gmt":"2017-09-14T04:28:51","slug":"folhetim-o-amor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/folhetim-o-amor\/","title":{"rendered":"Folhetim: o Amor"},"content":{"rendered":"<p>Uma internauta me pede para escrever algo sobre o amor. Diz que precisa fazer um trabalho para a escola de idioma em que estuda \u2013 e gostaria de apresentar minhas, entendo eu, modestas considera\u00e7\u00f5es traduzidas para o idioma de Dante, Da Vinci e Pirandello. <\/p>\n<p>Vamos ver o que sai. Vou me arriscar num folhetim, entre o real e o imagin\u00e1rio, \u00e0 la Manoel Carlos. At\u00e9 porque adoro a It\u00e1lia, terra dos meus av\u00f3s. Quanto \u00e0 internauta, juro, n\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se espantem, car\u00edssimos, vida de escriba \u00e9 assim mesmo, por mais modesta que seja. Uma surpresa a cada dia. Pensei que fosse falar da escalada dos presidenci\u00e1veis em busca do voto dos indecisos ou de onde veio o dinheiro do dossi\u00ea ou ainda do chumbo grosso da m\u00eddia nesta reta de chegada eleitoral. Mas, como resistir a um pedido desses?  Ademais, estamos aqui para isso mesmo: servir nossos diletos leitores. E se al\u00e9m de diletos, melhor ainda se eles forem diretos, como a mo\u00e7a supracitada.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei exatamente por onde come\u00e7ar. Poderia dizer que o amor n\u00e3o tem hora e lugar para acontecer. At\u00e9 a\u00ed nenhuma novidade. Novidade boa \u00e9 quando ele acontece \u2013 e envolve e encanta. Outro lugar comum seria dizer que quem ama o feio bonito lhe parece.Gosto dessa frase. De algum modo, at\u00e9 me conforta saber que ainda tenho alguma remota chance.<\/p>\n<p>Sim porque o amor come\u00e7a exatamente com a chance que se vislumbra de ser feliz; melhor diria, de ser plenamente feliz. \u201cNingu\u00e9m pode ser feliz sozinho\u201d, diz a can\u00e7\u00e3o jobiniana. O inverso, por\u00e9m, vale frisar, \u00e9 igualmente verdadeiro. O amor acaba quando n\u00e3o mais detectamos qualquer chance de felicidade ao lado da pessoa que outrora amamos. E a\u00ed o poeta dos poetas, Benjor, consagra um verso lapidar \u2013 e um tanto c\u00ednico, pois coloca nossa individualidade e bem estar acima de qualquer risco: <\/p>\n<p>\u201cEu quero paz e arroz. O amor \u00e9 bom e vem depois\u201d. <\/p>\n<p>Esqueci de dizer que, sei l\u00e1 porque motivo, a supracitada referendou a solicita\u00e7\u00e3o ao intuir que sou  &quot;um profundo conhecedor do assunto\u201d. Agrade\u00e7o, mas n\u00e3o mere\u00e7o. Acrescento apenas que, de um modo ou de outro, j\u00e1 cantei e recantei os versos acima em situa\u00e7\u00f5es distintas e alternadas. Uns dias mais alegres, outros mais tristes. J\u00e1 pensei que n\u00e3o viveria sem Fulana. Em outra ocasi\u00e3o, n\u00e3o via a hora de me livrar de Sicrana e, n\u00e3o raras vezes, pedi, rezei, implorei para n\u00e3o reencontrar Beltrana. <\/p>\n<p>Canta Tim, canta: <\/p>\n<p>\u201cPaix\u00e3o antiga sempre mexe com a gente\u201d. <\/p>\n<p>N\u00e3o sei se tal \u2018gangorra\u2019 afetiva pode ser legitimada como um diploma de not\u00f3rio saber sobre o tema. Ainda recentemente fui convidado a participar de uma banca avaliadora do projeto de um livro-reportagem para conclus\u00e3o do curso de jornalismo, cujo tema era \u2018Amor, Lugar Comum\u2019. Fiquei encantado com a proposta das quatro estudantes. N\u00e3o sei se minhas considera\u00e7\u00f5es lhes foram \u00fateis. Sei que terminei dizendo o que me veio direto do cora\u00e7\u00e3o: \u201cAssim como a vida, o amor n\u00e3o permite nota de rodap\u00e9\u201d. Ou seja, n\u00e3o d\u00e1 para detalhar depois. Simplesmente acontece. E salve-se quem puder&#8230;<\/p>\n<p>Que mais posso lhe dizer, leitora? Aqui, do 19o. andar, vejo a neblina invadir a cidade. Alguns focos de luz tentam resistir \u00e0 densa n\u00e9voa branca que engole ruas, avenidas, pr\u00e9dios e casas. E olhe que estamos na primavera; inst\u00e1vel, \u00famida, mas primavera. Em minutos essa quase-nuvem vai envolver o pr\u00e9dio onde moro. Enquanto escrevo, n\u00e3o consigo tirar os olhos da janela.<\/p>\n<p>Sinceramente n\u00e3o sei por onde andam meus pensamentos. Sei que n\u00e3o est\u00e3o aqui. Entendo que projetos e planos n\u00e3o fazem sentido e deixo-me estar dentro do imenso nada que se tornou esse s\u00e1bado emba\u00e7ado e triste. De repente, lembrei de uma frase de Rubem Braga: &quot;Ah, eu sou do tempo que todos os telefones eram pretos e todas as geladeiras eram brancas&quot;. Hoje, com a devida v\u00eania do cronista, eu poderia acrescentar, mesmo n\u00e3o sendo inteiramente verdade: &quot;Todos os s\u00e1bados eram alegres e ensolarados, com futebol e grandes risadas&quot;.<\/p>\n<p>Exagero certamente. Eram tempos mais simples e claros. Diferentes dos atuais que traduzem e classificam o amor em formas, jeitos, maneiras, vidas. Em momentos luminosos. Ou por d\u00favidas nebulosas. Mas, nem sei porque tanto me estendo. Mal consigo explicar o que sinto nesse exato instante diante da janela. Sei que o gosto bom, de uma inexor\u00e1vel espera, me anima e inspira, apesar do clima, da preguiceira e das aus\u00eancias. Como se revirasse em mim a intensa saudade de algo que n\u00e3o vivi \u2013 e, pelo jeito, certamente n\u00e3o viverei.<\/p>\n<p>Restam-me, pois, os versos definitivos de S\u00edlvio C\u00e9sar, cantor e compositor de Pra Voc\u00ea. Dizem tudo sobre o amor em s\u00f3 uma frase: \u201cAh, se eu fosse voc\u00ea, eu voltava pra mim&#8230;\u201d<\/p>\n[Texto editado e publicado no livro \u201cVolteios &#8211;  Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma internauta me pede para escrever algo sobre o amor. 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