{"id":10382,"date":"2006-10-17T00:00:00","date_gmt":"2006-10-17T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-23T03:45:37","modified_gmt":"2018-03-23T03:45:37","slug":"o-rei-do-pa-tro-pi-e-os-jornais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-rei-do-pa-tro-pi-e-os-jornais\/","title":{"rendered":"O rei do Pa-tro-pi e os jornais"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Por M\u00f4nica Herculano<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A influ\u00eancia da m\u00eddia na carreira de Wilson Simonal<\/p>\n<p>Nascido numa quarta-feira de Cinzas, ainda em tempo de pegar o finzinho do Carnaval de 38, como o pr\u00f3prio narrou numa entrevista em 1967, Wilson Simonal de Castro parece mesmo ter chegado ao mundo ouvindo o som dos tamborins e vendo os passos da mulata. E com o gingado carioca que o recebeu, viveu e levou uma vida mais alegre a milhares de pessoas, que lotavam est\u00e1dios repetindo seus refr\u00f5es. Simonal venceu as barreiras da pobreza e transformou-se num dos artistas mais populares e bem pagos do Brasil.<\/p>\n<p>No final da d\u00e9cada de 60, em plena ditadura militar, \u00e9poca de fortes manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais e com o pa\u00eds tomado por um manique\u00edsmo desenfreado, ele era como um rei, acima de qualquer luta entre o bem e o mal. Ruy Castro contou em seu livro Chega de Saudade que, quando surgiu no Beco das Garrafas, Simonal \u201cprovocou uma sensa\u00e7\u00e3o que \u00e9 hoje indescrit\u00edvel e talvez inacredit\u00e1vel\u201d. Ele definiu o cantor como \u201co m\u00e1ximo para seu tempo&#8221;: grande voz, um senso de divis\u00e3o igual ao dos melhores cantores americanos e uma capacidade de fazer gato e sapato do ritmo, sem se afastar da melodia ou sem apelar para os scats f\u00e1ceis\u201d.<\/p>\n<p>Para o amigo C\u00e9sar Camargo Mariano, Simonal tinha um talento singular. \u201cTrabalhar com ele foi uma grande escola para todos n\u00f3s. Fazia uma m\u00fasica pop, de boa penetra\u00e7\u00e3o em todas as camadas sociais, leve, alegre e de uma qualidade absurda. O disco tinha o mesmo cuidado que era passado para o palco. Simonal sempre soube muito bem o que queria fazer e tinha um tino art\u00edstico e profissional muito forte.\u201d<\/p>\n<p>Tanto talento pedia um espa\u00e7o nobre para ser apresentado. E qual seria melhor naqueles tempos do que as noites da TV Record? O primeiro negro a apresentar sozinho um programa de televis\u00e3o no pa\u00eds p\u00f4de levar para o seu Show em Si&#8230;Monal os m\u00fasicos e o diretor com quem mais se identificava: C\u00e9sar Camargo Mariano, Sab\u00e1 e Toninho, que formavam o Som 3, e Carlos Imperial. A conviv\u00eancia di\u00e1ria de Simonal, Imperial e Mariano fez surgir um estilo popular, mas novo e diferente de tudo o que estava acontecendo. Enquanto bossa nova, tropic\u00e1lia e artistas como Roberto Carlos dividiam a cena musical da \u00e9poca, o que estava \u201cdeixando cair\u201d mesmo era a \u201cpilantragem\u201d.<\/p>\n<p>E era apenas uma etapa da sensacional loucura causada pelo artista e descrita pelo jornalista Mylton Severiano na revista Realidade, em 1969. Contratado para fechar a parte inicial do show de S\u00e9rgio Mendes no Maracan\u00e3zinho, para uma plat\u00e9ia de 30 mil pessoas, Simonal acabou sendo a atra\u00e7\u00e3o principal. Severiano contou: \u201cNunca se havia visto coisa igual. Por tr\u00e1s do palco, enquanto l\u00e1 nas arquibancadas a multid\u00e3o rugia e assobiava, exigindo mais Simonal, e enquanto ele mesmo era socorrido, ap\u00f3s desmaiar de emo\u00e7\u00e3o, havia um sobressalto de homens agitados. \u2018Isso s\u00f3 acontece uma vez na vida\u2019, murmuravam.\u201d<\/p>\n<p>Mas aconteceram muitas outras. Simonal continuava comandando milhares de pessoas todas as noites no Canec\u00e3o e em qualquer casa que se apresentasse, e ainda em 1969 assinou com a Shell o que o Jornal da Tarde noticiou como \u201co mais fabuloso contrato de publicidade j\u00e1 assinado no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Em 1970, o cantor foi escolhido para acompanhar a sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol \u00e0 Copa do Mundo. A atua\u00e7\u00e3o dos maiores artistas das duas grandes especialidades brasileiras \u2013 m\u00fasica e futebol \u2013 foi vitoriosa: Simonal em campanha de sucesso e Brasil tricampe\u00e3o. Na volta do M\u00e9xico, por\u00e9m, descobriu um grande desfalque em sua empresa de produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e despediu o contador, contratado cerca de um ano antes.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, viu seu castelo desmoronar. Uma s\u00e9rie de acusa\u00e7\u00f5es feitas pelo ex-empregado e por alguns policiais levou o cantor a ser apontado como informante do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS). \u201cAquele \u2018cara\u2019 que todo mundo queria ser\u201d, como descreveu o Jornal do Brasil em 1970, transformou-se em um grande rejeitado pela sociedade. Abolido da m\u00eddia, das vitrolas e dos palcos.<\/p>\n<p>E o que o jornal tem a ver com isso? \u2013 At\u00e9 hoje duas coisas n\u00e3o foram esclarecidas: o envolvimento ou n\u00e3o de Wilson Simonal com a pol\u00edcia pol\u00edtica da \u00e9poca e o tratamento que a imprensa deu a ele nos anos seguintes. Se at\u00e9 1971 s\u00f3 se via elogios a ele nos jornais, a partir da\u00ed as not\u00edcias passaram a ser cada mais raras e negativas. Era como se o \u201cdedo-duro\u201d que o jornal O Pasquim publicou estivesse gravado na mem\u00f3ria de cada um dos rep\u00f3rteres que iriam falar dele ou com ele.<\/p>\n<p>Tomaram como verdade absoluta seu suposto envolvimento com o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o e nem ap\u00f3s a anistia concedida a presos pol\u00edticos e torturadores, voltaram a trat\u00e1-lo como o showman que, n\u00e3o havia d\u00favidas, ele era. O terror repreendido imposto pelo regime militar pode, como muitos alegam, ter levado os jornalistas do per\u00edodo a tomar Simonal como \u201cbode expiat\u00f3rio\u201d. Mas a imprensa errou em condenar sem provas. Tamb\u00e9m \u00e9 bom lembrar que pode ter havido uma grande arma\u00e7\u00e3o contra o cantor. Afinal, ningu\u00e9m sabe dizer de onde vinham as pessoas que o acusaram e podiam estar perfeitamente, por intrigas pessoais, tentando derrub\u00e1-lo. Ningu\u00e9m procurou investigar isso.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a vaidade e o gosto que Simonal tinha em falar do sucesso incomodavam. Para algumas pessoas podia causar mais transtorno do que admira\u00e7\u00e3o ver um negro vindo do morro chegar num restaurante fino, pagar a mais cara champagne para dezenas de pessoas, sentar com toda a pose e dizer, com o sorriso mais maroto, que iria fazer o lado direito da plat\u00e9ia cantar uma nota e o esquerdo cantar outra, e realmente faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Fato: n\u00e3o \u00e9 de hoje que vemos pessoas famosas exibindo o que t\u00eam e o que n\u00e3o \u00e9 seu tamb\u00e9m, po\u00e7os de vaidade em ilhas de Caras. Por que tanto inc\u00f4modo com um negro que desfilava em seu convers\u00edvel com belas loiras de classe m\u00e9dia-alta, desfrutando o sucesso que conseguiu? Seria diferente hoje em dia? Seria diferente se ele fosse branco?<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria envolve aspectos pr\u00f3prios da \u00e9poca, envolve pol\u00edtica, mas o resgate da carreira de Wilson Simonal deve ser tratado com seriedade e urg\u00eancia. Afinal, um rei nunca perde a majestade, e o brilhantismo de Simonal sempre permanecer\u00e1 em nosso \u201cPa-tro-pi\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Por M\u00f4nica Herculano<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A influ\u00eancia da m\u00eddia na carreira de Wilson Simonal<\/p>\n<p>Nascido numa quarta-feira de Cinzas, ainda em tempo de pegar o finzinho do Carnaval de 38,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10382"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18513,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10382\/revisions\/18513"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}