{"id":10392,"date":"2006-10-25T00:00:00","date_gmt":"2006-10-25T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:27:34","modified_gmt":"2017-09-14T04:27:34","slug":"homem-de-lata","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/homem-de-lata\/","title":{"rendered":"Homem de Lata"},"content":{"rendered":"<p>Era uma vez, em algum lugar depois do arco-iris, um Homem de Lata&#8230;<\/p>\n<p>Tudo ia mecanicamente bem em sua vida at\u00e9 o momento em que, por engano, entrou no consult\u00f3rio do Dr. Maluco Beleza, que era f\u00e3 do Fausto Silva.<\/p>\n<p>Assim que viu aquele faceiro senhor laminado, Dr. Maluco n\u00e3o se conteve e o saudou com o bord\u00e3o do apresentador:<\/p>\n<p>&#8212; \u00d4 loco meu, que grande figura humana&#8230;<\/p>\n<p>Para n\u00e3o assumir que disse bobagem, resolveu presentear o incauto visitante com um cora\u00e7\u00e3o humano. Em poucos minutos, l\u00e1 estava o Homem de Lata encantado com as possibilidades imposs\u00edveis que a nova vida agora lhe reservava&#8230;<\/p>\n<p>Ouvia sil\u00eancios e sons. Podia ver e se emocionar com o c\u00e9u e as estrelas, o sol e a lua, o contorno das montanhas e a imensid\u00e3o do mar. Com as flores e os amores&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 agora, meu, se vira nos trintaaaa!!! &#8211; divertia-se o nosso cientista lel\u00e9 ao se despedir.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou, e o inevit\u00e1vel aconteceu.<\/p>\n<p>O Homem de Lata se apaixonou. De imediato, imaginou que o Dr. Maluco Beleza tivesse aprontado outra das suas. Sentia ter, na cabe\u00e7a, um ventilador com a h\u00e9lice turbinada a girar. Zummm, zummm, zummm! Estava feliz; no segundo seguinte, infeliz. Acreditava e desacreditava. Nada entendeu. Viu-se dentro de uma video-cassetada, pronto a despencar ladeira abaixo, vida afora&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo assim, se entendeu poeta e compulsivamente se p\u00f4s a escrever:<\/p>\n<p>&#8221; Na sala,<br \/>\npouco antes<br \/>\ndo meio-dia.<\/p>\n<p>Toda vez&#8230;<br \/>\nToda VEZ&#8230;<br \/>\nTODA VEZ&#8230;<\/p>\n<p>toda vez \u00e9 ASSIM&#8230;<\/p>\n<p>Muito assim&#8230;<\/p>\n<p>No Dia D.<br \/>\nNa Hora H.<br \/>\nDesmarca&#8230;<\/p>\n<p>No DIA h&#8230;<br \/>\nNa Hora D&#8230;<\/p>\n<p>Naum vai d\u00e1,<br \/>\nnaum v\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>e FICO assim&#8230;<\/p>\n<p>Toda vez,<br \/>\nj\u00e1 at\u00e9 sei,<br \/>\nMAS, fico assim&#8230;<\/p>\n<p>Tudo fica assim&#8230;<br \/>\nretic\u00eancias SEM fim&#8230;<\/p>\n<p>E o DIA descamba&#8230;<br \/>\nAh, o cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o SAMBA&#8230;<br \/>\nO olhar&#8230;<br \/>\nBem, o olhar se perde&#8230;<br \/>\nE pede&#8230;<\/p>\n<p>EM V\u00c3O&#8230;<\/p>\n<p>c\u00c1 ESTou no desv\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Entre o Tudo e o Nada&#8230;<\/p>\n<p>NADA, NADA, NADA&#8230;<\/p>\n<p>Nada REFAZ o que<br \/>\nN\u00c3O se fez&#8230;<\/p>\n<p>E a pergunta<br \/>\nBATUCA,<br \/>\ninvade,<br \/>\nDERRUBA,<br \/>\nempaca&#8230;<\/p>\n<p>E faremos?<br \/>\nE seremos?<\/p>\n<p>E ENT\u00c3O?<\/p>\n<p>eNT\u00c3O? eu?<br \/>\nNada&#8230; nada&#8230;<\/p>\n<p>Espero a pr\u00f3xima<br \/>\nVEZ&#8230;<\/p>\n<p>qUEM SABE? &#8221;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Terminou o poema desabafo, e sentiu-se confortado. Mas, n\u00e3o feliz. O dorso da m\u00e3o mec\u00e2nica limpou a grossa gota de \u00f3leo diesel que lhe escapou dos olhos est\u00e1ticos. Ele se deu conta que de nada adiantavam as programa\u00e7\u00f5es que trazia dentro de si, como um rob\u00f4 de ponta que era. Nada fazia sentido.<\/p>\n<p>Com sua voz met\u00e1lica, perguntou \u00e0s suas engrenagens mais \u00edntimas e caras.<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 que amar \u00e9 isso???<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou a resposta. Como um aut\u00f4mato, o nosso her\u00f3i se p\u00f4s a caminhar. Sem rumo e sem prumo. Passou batido pelo ferro-velho &#8212; por um instante, queria largar-se ali e virar sucata para sempre. Afastou o pensamento l\u00fagubre e, quando percebeu, estava na cl\u00ednica do Dr. Maluco Beleza, que o saudou no melhor estilo.<\/p>\n<p>&#8212; Orra, meu. Voc\u00ea por aqui? Ah!, ah!&#8230; J\u00e1 virou s\u00f3cio-fundador do nosso Doming\u00e3o, quer dizer do nosso consult\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>E antes que o Dr. Maluco engatasse a pr\u00f3xima atra\u00e7\u00e3o, o Homem de Lata fez um pedido veemente. N\u00e3o queria mais aquele cora\u00e7\u00e3o de gente. Queria a sua pacata &#8212; e algo enferrujada &#8212; vida de volta. Era uma m\u00e1quina, e s\u00f3 m\u00e1quina.<\/p>\n<p>&#8212; Bicho, n\u00e3o vai dar. Vou falar com a Dulcimara, com o Ca\u00e7ulinha. Mas, acho dif\u00edcil. J\u00e1 estou at\u00e9 ouvindo a musiquinha do Fant\u00e1stico. N\u00e3o vai dar mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Inconsol\u00e1vel, Latinha (como ela, aquela bandidinha, o chamava) sentou-se duro numa das poltronas da cl\u00ednica. Apoiou os dois cotovelos nos joelhos, as m\u00e3os sustentavam a cabe\u00e7a sonsa, por acreditar num tal Planeta Sonho, quando se p\u00f4s a resmungar para quem quisesse ouvir&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Quem mandou, cabe\u00e7udo? Quem mandou? Onde j\u00e1 se viu apaixonar-se por Safira, a menina de pedra, de brilhos e encantos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas, que n\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o &#8211; interrompeu o Dr. Maluco Beleza. Tal e qual o \u00eddolo e apresentador, ele gostava de dar pitacos em tudo. Ali\u00e1s, o Dr. Maluco era, na verdade, o disfarce mais divertido de um misterioso senhor chamado Destino.<\/p>\n[Texto publicado no livro \u201cVolteios &#8211; Cr\u00f4nicas, lembran\u00e7as e devaneios\u201d]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era uma vez, em algum lugar depois do arco-iris, um Homem de Lata&#8230;<\/p>\n<p>Tudo ia mecanicamente bem em sua vida at\u00e9 o momento em que, por engano, entrou no consult\u00f3rio do Dr.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10392","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10392"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14000,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10392\/revisions\/14000"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}