{"id":10395,"date":"2006-10-26T00:00:00","date_gmt":"2006-10-26T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-28T23:06:34","modified_gmt":"2018-03-28T23:06:34","slug":"quadrinhos-tem-comportamento-dubio-em-1109","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/quadrinhos-tem-comportamento-dubio-em-1109\/","title":{"rendered":"Quadrinhos t\u00eam comportamento d\u00fabio em 11\/09"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Autoria: Paulo Ramos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A ind\u00fastria norte-americana de quadrinhos teve um comportamento d\u00fabio em rela\u00e7\u00e3o aos ataques de 11 de Setembro, trag\u00e9dia que completou cinco anos. Num primeiro momento, as editoras seguiram a tend\u00eancia de solidariedade e de pesar extremo vivido dentro dos Estados Unidos (e, de certo modo, em outras na\u00e7\u00f5es do mundo ocidental). Esse sentimento deu o tom \u00e0s primeiras hist\u00f3rias que abordaram o tema. Dois, tr\u00eas anos depois, o povo americano viu que seus filhos n\u00e3o voltavam da guerra. O sentimento mudou, a popularidade do presidente George W. Bush caiu (e continua baixa) e os super-her\u00f3is mudaram sua atitude em rela\u00e7\u00e3o aos atentados e \u00e0 pol\u00edtica externa norte-americana.<\/p>\n<p>A dubiedade vista nas revistas, ao longo desses cinco anos, s\u00f3 \u00e9 coerente com o sentimento da popula\u00e7\u00e3o estadunidense.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 um excelente estudo sobre uso ideol\u00f3gico nos quadrinhos. \u00c9 algo muito parecido com o que foi feito durante a 2\u00aa Guerra Mundial. O ataque a Pearl Harbor obrigou os Estados Unidos a entrar no conflito mundial. N\u00e3o demorou para os super-her\u00f3is tamb\u00e9m estarem no front. Super-Homem, Mulher-Maravilha, Capit\u00e3o Am\u00e9rica (criado para combater os nazistas) e outros passaram a viver hist\u00f3rias de guerra, em que os inimigos eram os pa\u00edses do Eixo e seus l\u00edderes. O exemplo mais exacerbado talvez tenha sido o de Flash Gordon. O her\u00f3i espacial voltou do Planeta Mongo para combater ao lado dos Aliados.<\/p>\n<p>Havia uma pol\u00edtica do governo norte-americano de usar a m\u00eddia como um ve\u00edculo ufanista pr\u00f3-aliados (ou anti-nazistas). Os quadrinhos n\u00e3o foram exce\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que a presen\u00e7a do conflito era necessariamente imposta pelo governo: ela era consentida pelos escritores e desenhistas. Eles tamb\u00e9m haviam captado o sentimento de sofrimento vivido em Pearl Harbor e escreviam aquilo que os leitores queriam ver. Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 do pesquisador Chris Murray, no artigo &#8220;Popaganda: superhero in World War Two&#8221;. Ele chamou de &#8220;popaganda&#8221; a mistura da propaganda governamental pr\u00f3-guerra com o uso da cultura pop.<\/p>\n<p>A argumenta\u00e7\u00e3o de Murray se encaixa perfeitamente no 11 de Setembro. Novamente, os Estados Unidos foram v\u00edtimas de um ataque em larga escala. Novamente, a maior pot\u00eancia do mundo se sentiu ferida. Novamente, partiu para um ataque em terras estrangeiras, passando por cima de uma decis\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU (Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas), que pedia provas mais consistentes sobre a presen\u00e7a de armas qu\u00edmicas (que o tempo mostrou inexistirem). Novamente, os Estados Unidos usaram a m\u00eddia a seu favor (hoje, a literatura sobre o assunto j\u00e1 \u00e9 suficientemente extensa para comprovar esse ponto de vista).<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>O alt\u00edssimo n\u00famero de mortos ap\u00f3s os ataques do 11 de Setembro criou outro \u00edndice alt\u00edssimo: o de popularidade a Bush. Isso deu a ele o cacife necess\u00e1rio para implementar a pol\u00edtica de invas\u00f5es ao Eixo do Mal (outra semelhan\u00e7a com a 2\u00aa Guerra). Apresentou como argumentos a ca\u00e7a ao terror (palavra vazia, com conte\u00fado vago e pejorativo) e a presen\u00e7a de armas qu\u00edmicas (que n\u00e3o foram encontradas, como admitiu a Casa Branca anos depois).<\/p>\n<p>Os primeiros quadrinhos sobre o conflito refletiam essa soma de caracter\u00edsticas. \u00c1 primeira hist\u00f3ria veio da Marvel Comics, que fez uma edi\u00e7\u00e3o com capa toda preta, numa clara demonstra\u00e7\u00e3o de luto. Era do Homem-Aranha, mas mostrava a como\u00e7\u00e3o de todos os her\u00f3is da editora. Her\u00f3is e vil\u00f5es. Havia uma cena em que at\u00e9 o inescrupuloso Doutor Destino chorava. Houve, com o passar dos meses, outras publica\u00e7\u00f5es semelhantes. S\u00f3 para citar um exemplo, o Capit\u00e3o Am\u00e9rica (aquele da 2\u00aa Guerra) passou a ca\u00e7ar terroristas.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o norte-americana no Iraque \u2013ainda n\u00e3o resolvida- fez a popularidade de Bush cair vertiginosamente. Havia um novo sentimento no povo norte-americano, sintetizado no document\u00e1rio &#8220;Farenheit 11\/9&#8221;, do pol\u00eamico Michael Moore. Os soldados estavam morrendo. E nada parecia justificar racionalmente o conflito.<\/p>\n<p>Os quadrinhos passaram a refletir esse sentimento. \u00c9 dif\u00edcil dizer a data exata da virada na abordagem, mas parece ser 2004. Alguns escritores da DC Comics come\u00e7aram a dar cutucadas na pol\u00edtica externa dos Estados Unidos. Um caso. Joe Kelly escreveu uma hist\u00f3ria da Liga da Justi\u00e7a (publicada aqui no n\u00famero 25 da revista hom\u00f4nima) em que Super-Homem tem uma s\u00e9rie de vis\u00f5es. Numa delas, argumenta com o ent\u00e3o presidente Lex Luthor sobre a irracionalidade de uma invas\u00e3o a um pa\u00eds indefeso. Luthor, met\u00e1fora de Bush, responde aos gritos que invadir\u00e1, sim: &#8220;\u00c9 assim que manteremos a paz. Mostrando a terroristas e ditadores que eles n\u00e3o podem desafiar a ONU. Se o Conselho de Seguran\u00e7a n\u00e3o entende isso os Estados Unidos suportar\u00e3o esse fardo sozinhos se for preciso. Infelizmente, n\u00e3o vejo outra sa\u00edda&#8221;. Oficialmente, o tom de cr\u00edtica fica para o leitor mais atento, j\u00e1 que a hist\u00f3ria n\u00e3o passa de uma vis\u00e3o do homem de a\u00e7o.<\/p>\n<p>Outro exemplo, tamb\u00e9m j\u00e1 publicado no Brasil, \u00e9 de autoria de Greg Rucka e tem a esposa do Super-Homem como protagonista. Lois Lane n\u00e3o aceita receber not\u00edcias do ex\u00e9rcito norte-americano, como os demais rep\u00f3rter se sujeitaram a aceitar. Ela n\u00e3o queria o discurso oficial, compartilhado por todos os jornais e redes de televis\u00e3o. Perry White, seu editor, alerta que sair das asas do governo implicaria correr riscos desnecess\u00e1rios na regi\u00e3o do conflito. Resposta: &#8220;O governo vai controlar a reportagem, Perry. Se n\u00e3o diretamente, vai restringir acesso e censurar o que eu mandar. Me deixe pegar a hist\u00f3ria inteira&#8221;. Lois foi.<\/p>\n<p>H\u00e1, certamente, outros exemplos. Hoje, as produ\u00e7\u00f5es fazem a cr\u00edtica de forma ainda mais acirrada e expl\u00edcita. Um caso \u00e9 o \u00e1lbum &#8220;A sombra das torres ausentes&#8221;, de Art Spiegelman (pela Companhia das Letras). Outro \u00e9 &#8220;9\/11 Report&#8221;, vers\u00e3o quadrinizada do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o de Ataques Terroristas, rec\u00e9m-lan\u00e7ado nos Estados Unidos e que solta v\u00e1rias farpas na dire\u00e7\u00e3o de Bush (ver na postagem do dia primeiro deste m\u00eas).<\/p>\n<p>De cinco anos para c\u00e1, os quadrinhos deixaram de produzir hist\u00f3rias ufanistas sobre os ataques do 11 de Setembro e seguiram o comportamento cr\u00edtico do povo norte-americano. Tal qual na 2\u00aa Guerra Mundial, o comportamento d\u00fabio \u00e9 um reflexo do sentimento vivido pela sociedade, coerente apenas com esse sentimento. Tudo o que lemos \u00e9 um reflexo do social? Tudo indica que sim.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Autoria: Paulo Ramos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A ind\u00fastria norte-americana de quadrinhos teve um comportamento d\u00fabio em rela\u00e7\u00e3o aos ataques de 11 de Setembro, trag\u00e9dia que completou cinco anos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10395","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10395","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10395"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10395\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18543,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10395\/revisions\/18543"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10395"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10395"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10395"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}