{"id":10397,"date":"2006-10-28T00:00:00","date_gmt":"2006-10-28T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-15T20:02:25","modified_gmt":"2017-09-15T20:02:25","slug":"o-segredo-do-dia-28-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-segredo-do-dia-28-2\/","title":{"rendered":"O segredo do dia 28"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 fazia parte da escrita da Reda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No dia 28 de cada m\u00eas, Nasci era o primeiro a chegar \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio, n\u00e3o atinamos que a data se repetia. Apenas estranh\u00e1vamos e nos pergunt\u00e1vamos:<\/p>\n<p>&#8212; O que deu no Velho? Assim cedo por aqui?<\/p>\n<p>\u00d3bvio que, ap\u00f3s a observa\u00e7\u00e3o feita \u00e0 boca pequena por n\u00f3s, as piadas de mau gosto eram inevit\u00e1veis \u2013 e eu me nego a reproduzi-las aqui; afinal este \u00e9 um blog-fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>Deixe-me explicar. O Nasci era um cara tido, havido e vivido nos becos, bocas e bocados da vida. Sempre que podia \u2013 e podia sempre \u2013 gostava de esticar o fim do expediente com um happy-hour mais prolongado, num boteco malafamado entre a Bom Pastor e a Greenfeld. Ali, onde o Sacom\u00e3 torce o rabo, ele dividia o balc\u00e3o de m\u00e1rmore &#8211; antigo e desgastado por copos, garrafas e cotovelos &#8211; com p\u00e9s-de-cana, desvalidos, curiosos e afins. <\/p>\n<p>Vez ou outra d\u00e1vamos a cara por ali. Mais para ouvir a conversa do Nasci, suas hist\u00f3rias e os amigos inesperados que apareciam, como se fossem tr\u00f4pegos personagens dos livros do Jo\u00e3o Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Produtor da TV Record nos tempos \u00e1ureos da emissora, dono de ag\u00eancia de publicidade, coordenador de campanhas pol\u00edticas, rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do Clube Atl\u00e9tico Ypiranga. O curr\u00edculo do homem era longo.<\/p>\n<p>Era um cara inteligent\u00edssimo. Uma refer\u00eancia para todos da Reda\u00e7\u00e3o, onde assinava uma coluna com o codinome de Z\u00e9 Armando. Gost\u00e1vamos de provoc\u00e1-lo e principalmente de aprender com as bem-humoradas respostas. E, principalmente, conselhos&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Nasci, a T\u00e2nia me deixou. Pegou seus trens e voltou pra Minas \u2013 disse o rep\u00f3rter abandonado desolado.<\/p>\n<p>&#8212; Ops. N\u00e3o se desespere, meu caro. Mulher, quando come\u00e7a a reclamar a encher o saco, \u00e9 bom que v\u00e1 embora mesmo. Aprenda. As mulheres mudam. E esquecem de nos avisar. Erga as m\u00e3os para o c\u00e9u. Voc\u00ea \u00e9 um homem livre.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a resposta que o mo\u00e7o queria ouvir. Mas, pelo menos, acabava com o choramingar pelos cantos da Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Por a\u00ed \u00edamos vivendo e aprendendo com ele. De santo, est\u00e1 claro, o Nasci n\u00e3o tinha nada. Por isso, todos nos surpreendemos com a revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do primeiro par\u00e1grafo. Qual o motivo que o homem invariavelmente madrugava na Reda\u00e7\u00e3o todo fim do m\u00eas, mais precisamente dia 28? N\u00e3o era carteado. N\u00e3o era uma amante argentina. Nem havia virado a noite na farra. N\u00e3o era nada do que se esperava ou se supunha&#8230;<\/p>\n<p>Nasci vinha direto do Santu\u00e1rio de S\u00e3o Judas Tadeu, onde chegava l\u00e1 pelas 5 da matina. O malaco se transformava em devoto e agradecia ao \u2018Santo dos Desesperados\u2019 uma eventual gra\u00e7a \u2013 que nunca nos revelou \u2013 ou coisa que o valha&#8230; <\/p>\n<p>Num 28 de outubro, dia consagrado ao santo, algu\u00e9m nos disse que viu o Nasci na igreja do Jabaquara. Um carola!!! &#8211; era o que nos faltava para \u2018cutucar\u2019 o Mestre. Quando lhe contamos a descoberta em tom de grande feito, apenas sorriu como a nos dizer: <\/p>\n<p>&#8212; Que bobos&#8230; <\/p>\n<p>Uma baforada no indefect\u00edvel cachimbo encerrou a conversa. <\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Curioso. <\/p>\n<p>Tantos anos depois, quando encontro um dos nossos, \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o. Papo vai, papo vem, descubro que h\u00e1 um pacto silencioso entre n\u00f3s. Mesmo distantes, quase nunca nos vemos, todo o dia 28, invocamos a prote\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Judas, rezamos pelos amigos. Saudamos a vida e, assim, amenizamos a enorme saudades que o Nasci deixou entre n\u00f3s.<\/p>\n[Texto publicado no livro &quot;Meus Caros Amigos \u2013 Cr\u00f4nicas sobre jornalistas, bo\u00eamios e paix\u00f5es&quot;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 fazia parte da escrita da Reda\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>No dia 28 de cada m\u00eas, Nasci era o primeiro a chegar \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o. 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