{"id":10400,"date":"2006-10-31T00:00:00","date_gmt":"2006-10-31T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:26:57","modified_gmt":"2017-09-14T04:26:57","slug":"a-filha-mais-nova-do-seo-liborio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-filha-mais-nova-do-seo-liborio\/","title":{"rendered":"A filha mais nova do Seo Lib\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu sei que voc\u00ea vai ser<br \/>\numa estrela no c\u00e9u de algu\u00e9m,<br \/>\nmas por que n\u00e3o pode ser no meu?\u201d<\/p>\n<p>Aconteceu sem que o Almeidinha se desse conta, e foi no mais antigo dos anos. No tempo da velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>Negar, bem que ele negou. Jurar, tamb\u00e9m jurou. Mas ningu\u00e9m, ali, o levou em conta. Dizia-se, o pobre, inocente e sequer sabia da exist\u00eancia das tr\u00eas filhas do Seo Lib\u00f3rio. O que dizer ent\u00e3o da mais nova, quase uma crian\u00e7a, motivo pelo qual naquele preciso instante estava sendo sacaneado pelo pessoal da Reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Conta a verdade. S\u00f3 a verdade. Assim todos param de lhe aborrecer, dizia um.<\/p>\n<p>&#8212; A verdade nada mais que a verdade. Conhecemos sua fama, dizia outro.<\/p>\n<p>&#8212; Vai me dizer que voc\u00ea n\u00e3o conhece a filha mais nova do Seo Lib\u00f3rio?<\/p>\n<p>N\u00e3o conhecia.<\/p>\n<p>E a verdade?<\/p>\n<p>Bem, era aquela mesmo que contou para eles naquela tarde e agora reconto a voc\u00eas, com uma ponta de nostalgia e outro tanto de encantamento. Inclusive, com seu surpreendente final.<\/p>\n<p>Por que como o Almedinha, rep\u00f3rter das antigas e inveterado rom\u00e2ntico, conheci poucos vida afora.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 a seguinte.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 de novembro, o not\u00f3rio jornalista foi tomar um caf\u00e9 no bar\/restaurante, desses que em nome da modernidade se transformaram em self-service. N\u00e3o atentou que faltavam poucos minutos para o meio-dia e l\u00e1 encontrou Seo Lib\u00f3rio, o simp\u00e1tico senhor que era atendente na portaria do jornal. Ele almo\u00e7ava e o cumprimentou, como de h\u00e1bito amavelmente. Chegou mesmo a oferecer um lugar \u00e0 sua mesa. Mas, Almeidinha agradeceu, disse que n\u00e3o iria comer, o servi\u00e7o o esperava e, por um desses impulsos comuns aos que trabalhavam nas antigas reda\u00e7\u00f5es, deixou paga a conta do caf\u00e9 e a dele.<\/p>\n<p>Alguns minutos depois, l\u00e1 estava o bom velhinho na Reda\u00e7\u00e3o para agradecer. E tamb\u00e9m para lhe pedir um favor. Disse que a filha mais nova queria fazer jornalismo, estava preste a se formar no colegial, 18 para 19 anos, portanto. Disse mais: havia prometido a ela que falaria com o editor, o pr\u00f3prio Almeidinha, \u201cpara, dia desses, lhe dar uma orienta\u00e7\u00e3o sobre a profiss\u00e3o, a faculdade, essas coisas\u201d.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o de segundos, Seo Lib\u00f3rio desceu para assumir suas fun\u00e7\u00f5es no t\u00e9rreo e, de imediato, come\u00e7aram os elogios \u00e0 garota.<\/p>\n<p>&#8212; Lind\u00edssima, disse o fot\u00f3grafo que a conheceu num desfile c\u00edvico estudantil de 7 de setembro na presen\u00e7a do embevecido pai. \u2013 Ela, sim, \u00e9 uma parada.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 uma menina muito esperta. De rosto, lembra a J\u00falia Roberts, mas \u00e9 mais taludinha, empolgou-se o rep\u00f3rter que morava numa vila, pr\u00f3ximo ao sobradinho modesto do porteiro.<\/p>\n<p>&#8212; Vai dar trabalho, disse a senhora que servia o caf\u00e9 para me deixar ainda mais curioso. \u2013 \u00c9 a xod\u00f3zinha do Lib\u00f3rio e de todos quantos a conhecem.<\/p>\n<p>&#8212; Mas, \u00e9 quase uma menina, completou Almeidinha para disfar\u00e7ar e, se poss\u00edvel, encerrar o assunto.<\/p>\n<p>Sentia-se, estranhamente, algo incomodado, ansioso.<\/p>\n<p>Pior a emenda que o soneto. Todos riram.<\/p>\n<p>&#8212; Quem n\u00e3o lhe conhece que lhe compre, arrematou a estagi\u00e1ria feiosa a duvidar da absoluta inoc\u00eancia do chefe e visivelmente preocupada com a poss\u00edvel concorrente.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Na reda\u00e7\u00e3o, todos notaram a repentina mudan\u00e7a. Parecia que o homem, desde daquele dia, estava a se preparar para o encontro.<\/p>\n<p>Eu, particularmente, tenho tend\u00eancia para ficar imaginando coisas. Dei de reparar que Almeidinha vinha diariamente com a barba feita, o farto bigode aparado e se preocupava em n\u00e3o usar as velhas camisas surradas de sempre.<\/p>\n<p>Pode ser impress\u00e3o, mas, todos concordavam, minhas observa\u00e7\u00f5es faziam sentido.<\/p>\n<p>Seo Lib\u00f3rio, por sua vez e inocentemente, tratava de por mais lenha na fogueira.<\/p>\n<p>Contou \u00e0 filha a gentileza de Almeidinha (\u201cque bobagem\u201d, relevou cinicamente) e disse que ela ficou ainda mais interessada em conhec\u00ea-lo. Elogiava sempre os seus textos e agora ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O que seria esse \u201ce agora ent\u00e3o\u201d?<\/p>\n<p>&#8212; Fico feliz em poder ajudar, antecipou-se Almeidinha, mais para espica\u00e7ar a estagi\u00e1ria faladora &#8211; e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8212; Quem sabe ela n\u00e3o pode ficar por aqui uns dias, e ver como a coisa funciona.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Depois desse dia, Seo Lib\u00f3rio por conta e risco postergou a visita da mo\u00e7a tr\u00eas ou quatro vezes.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o tocava no assunto, era a vez de Almeidinha n\u00e3o se fazer de rogado.<\/p>\n<p>\u2013 Olha, \u00e0s sextas-feiras, \u00e9 o melhor dia para ela vir, retomei o tema.<\/p>\n<p>Ele aquiesceu sorrindo e, ainda sem querer, lhe provocou:<\/p>\n<p>&#8212; Ela quer tanto conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O bom-dia do Seo Lib\u00f3rio continuou o mesmo. Am\u00e1vel e simp\u00e1tico. Mas, pouco a pouco, mesmo com singelas recomenda\u00e7\u00f5es \u00e0 garota, nada do homem dizer quando ela viria. O entusiasmo, a essa altura, era s\u00f3 do Almeidinha, como lhes disse acima um inveterado rom\u00e2ntico, desses que ainda mandam flores \u00e0 mulher amada.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>O devaneio do amigo foi pelos ares, logo na primeira semana de janeiro.<\/p>\n<p>Seo Lib\u00f3rio subiu \u00e0 Reda\u00e7\u00e3o, com o semblante preocupado, mas orgulhoso. N\u00e3o foi preciso lhe perguntar. Apressou-se em dizer a todos n\u00f3s:<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 a minha menina, a mais nova&#8230;(Almeidinha fingiu uma certa aus\u00eancia, como a n\u00e3o entender o que dizia.) Pois ela mudou de planos. N\u00e3o quer mais fazer jornalismo. Ao menos, por enquanto.<\/p>\n<p>O jornalista abriu as duas m\u00e3os num gesto inconsciente e r\u00e1pido. E Seo Lib\u00f3rio completou, com voz arrastada e a trope\u00e7ar na emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; A minha mais nova quer ganhar o mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim, algu\u00e9m perguntou.<\/p>\n<p>&#8212; Viajou para Londres sem data para retornar. Foi num interc\u00e2mbio que ela mesma arrumou e, sei bem, n\u00e3o volta t\u00e3o cedo. Quer conhecer outros pa\u00edses, outros povos. \u00c9 uma destemida, n\u00e3o acham?<\/p>\n<p>Almeidinha foi sincero:<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o acho nada. S\u00f3 perco.<\/p>\n<p>&#8212; Como assim?<\/p>\n<p>&#8212; Nada, nada. Vai ser uma experi\u00eancia e tanto. L\u00e1 estar\u00e1 certamente melhor do que aqui. Veja a quest\u00e3o da viol\u00eancia desta cidade &#8211; caprichou na resposta para driblar o constrangimento e a pr\u00f3pria decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Isto posto, nada a declarar.<\/p>\n<p>Vida que segue.<\/p>\n<p>Nas primeiras semanas, meses at\u00e9, ele fazia quest\u00e3o de nos informar (e ao Almeidinha, casmurro que s\u00f3) sobre o paradeiro da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8212; A minha mais nova est\u00e1 em Paris.<\/p>\n<p>&#8212; Agora foi para Madri. Vai trabalhar l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8212; Precisa ver o cart\u00e3o que me mandou de Roma.<\/p>\n<p>&#8212; Imagine para onde aquela maluquinha vai agora&#8230;<\/p>\n<p>Seo Lib\u00f3rio sabia de cor o roteiro das andan\u00e7as. Mas, as novidades foram escasseando. At\u00e9 que n\u00e3o se falou mais no assunto.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Mesmo assim, naquela noite, tanto tempo depois, Almeidinha e o pessoal da Reda\u00e7\u00e3o comemoravam sei l\u00e1 o qu\u00ea quando viram chegar ao restaurante o m\u00fasico Ca\u00e7ulinha, aquele mesmo do programa do Faust\u00e3o. O homem viera terminar a noite com alguns amigos e, inevit\u00e1vel, logo o sal\u00e3o e os convivas ficaram em grande alvoro\u00e7o. De repente, ningu\u00e9m sabe de onde, surgiu um acordeom \u2013 e Ca\u00e7ulinha se p\u00f4s a tocar La Vie En Rose.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se foi o tom inebriante da melodia, o efeito das bebidas ou a alegria retumbante de todos ali, a verdade \u00e9 que o grande e magn\u00e2nimo Almeidinha resolveu fazer uma inesperada confiss\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Que fim levou a filha mais nova do Seo Lib\u00f3rio? Meus amigos, preciso lhes dizer: ainda hoje, todas as manh\u00e3s, espero a boa not\u00edcia. Antes mesmo que o am\u00e1vel Lib\u00f3rio me d\u00ea \u201cbom dia\u201d, imagino ouvir dele um \u201c enfim, ela voltou\u201d.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, n\u00e3o entendemos direito o que estava acontecendo, mas o veterano jornalista, breaco que s\u00f3, afrouxou ainda mais gravata no colarinho aberto, deu outra golada no vinho e continuou em tom de desabafo:<\/p>\n<p>&#8211; Nem sei o porqu\u00ea lhes conto sobre ela agora. Talvez porque ainda bata em mim o vislumbre do que poderia ser, e n\u00e3o foi. Quem sabe um de voc\u00eas n\u00e3o tenha andado recentemente pela Europa e l\u00e1 tivesse visto, mesmo que assim de relance, uma brasileirinha esperta com ares de quem quer ganhar o mundo, taludinha de corpo, mas que lembra, como \u00e9 mesmo nome daquela atriz?<\/p>\n<p>E concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Sei, sei, n\u00e3o a conhe\u00e7o. Mas, sinto tanto a sua falta&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu sei que voc\u00ea vai ser<br \/>\numa estrela no c\u00e9u de algu\u00e9m,<br \/>\nmas por que n\u00e3o pode ser no meu?\u201d<\/p>\n<p>Aconteceu sem que o Almeidinha se desse conta,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10400","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10400"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10400\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13999,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10400\/revisions\/13999"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}