{"id":10404,"date":"2006-11-03T00:00:00","date_gmt":"2006-11-03T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2018-03-28T23:08:17","modified_gmt":"2018-03-28T23:08:17","slug":"em-nome-do-pai","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/em-nome-do-pai\/","title":{"rendered":"Em nome do pai&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>por Rodolfo Stipp Martino<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por que escolhi jornalismo?<\/p>\n<p>De novo a pergunta que me fiz ao entregar a ficha de inscri\u00e7\u00e3o do vestibular, sem grande convic\u00e7\u00e3o da escolha.<\/p>\n<p>A resposta veio em seguida.<\/p>\n<p>Cenas da minha vida surgiram na mente como o desenrolar de um roteiro de filme.<\/p>\n<p>Cena 1- Em uma mesa, o garoto escreve um texto para o col\u00e9gio e, ao lado, o pai\/jornalista batuca nas teclas de uma m\u00e1quina de escrever a coluna para um jornal de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Cena 2- O goleiro adolescente entra na quadra Gin\u00e1sio do Parque Ant\u00e1rtica para defender as cores do seu time do cora\u00e7\u00e3o, o Palmeiras.<\/p>\n<p>Cena 3- O rapaz caminha pelos corredores do avi\u00e3o. Vai estudar em Perugia e passar uma temporada sozinho na terra dos bisav\u00f3s, a It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Outras imagens surgiram, todas a retratar momentos que foram importantes para mim. Cresci ao lado da fam\u00edlia: a estudar, jogar futebol (at\u00e9 o juniores da Portuguesa), agora escrevendo e sempre aprendendo com a vida.<\/p>\n<p>Muito prazer, sou Rodolfo Stipp Martino.<br \/>\n(Pra quem n\u00e3o me conhece, esclare\u00e7o: sou filho do dono do s\u00edtio. E aqui estou a convite do pr\u00f3prio&#8230;)<\/p>\n<p>Ser jornalista \u00e9 continua\u00e7\u00e3o natural do filme narrado acima. Poder contar fatos que, de resto, nos transformam em privilegiado historiador do cotidiano. Retratar momentos importantes de pessoas e do Pa\u00eds. Integrar a sociedade. E com seu trabalho transform\u00e1-la. Denunciar algo que est\u00e1 errado e ressaltar aquilo que est\u00e1 correto. Tudo isto \u00e9 muito precioso para mim.<\/p>\n<p>Quando entrei na faculdade, depois de um longo discurso, o professor falou algo que bateu l\u00e1 no fundo, entre o f\u00edgado e alma: \u201cO dia-a-dia dos rep\u00f3rteres \u00e9 o principal pauteiro das reda\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Um fato que presenciei (e que entendo ser uma das mais belas cenas do filme da minha vida) confirmou a fala do professor. Foi a primeira vez que me senti um rep\u00f3rter, uma testemunha do meu tempo.<\/p>\n<p>Durante a Copa do Mundo de 1998, estava em Perugia, pequena cidade na regi\u00e3o da Umbria. Aprendia uma nova l\u00edngua na Universit\u00e0 Per Stranieri, e morava em um apartamento com outros brasileiros: Davi, 24 anos, Evandro e Renato, 23, e Rafael, 17. Uma bandeira verde e amarela estendida na varanda provocava um misto de surpresa e curiosidade nos italianos. \u201cMas o que \u00e9 isso?\u201d, sempre implicava o dono e s\u00edndico do pr\u00e9dio, o senhor Barbarosa.<\/p>\n<p>Nunca demos aten\u00e7\u00e3o e a bandeira permaneceu l\u00e1, imp\u00e1vida e altaneira, apesar da vit\u00f3ria dos franceses.<\/p>\n<p>No dia da final, fomos todos para o centro da cidade. Havia tr\u00eas tel\u00f5es na pra\u00e7a principal. L\u00e1 encontramos outros brasileiros que moravam em Perugia e, motivados pela grande saudade do Brasil, estavam at\u00e9 mais entusiasmados do que nosso grupo. Rostos pintados, cornetas e bandeiras chamavam aten\u00e7\u00e3o. Uma festa. Como a It\u00e1lia n\u00e3o estava na final, a torcida italiana estava dividida. Os simpatizantes da Inter, time do Ronaldinho, torciam para o Brasil e os da Juventus, do franc\u00eas Zidane, vibravam pela Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando surgiu na tela a escala\u00e7\u00e3o do Brasil, algo estava errado. O nome de Ronaldo n\u00e3o aparecia sequer entre os reservas. Ningu\u00e9m entendeu. Nem os italianos, muito menos a gente. Mas, quando os times entraram em campo, Ronaldo estava l\u00e1 e, com ele, a equipe brasileira afundou implacavelmente: 3&#215;0.<\/p>\n<p>Gostaria de poder relatar a sensa\u00e7\u00e3o de fraternidade que bateu em todos os brasileiros. Voltamos juntos para nossas casas e, a cada um que se despedia, era um choror\u00f4 diferente. Mas, a vida em Perugia continuou. Neste dia, a festa programada para nosso apartamento foi cancelada &#8212; ou melhor, adiada para os outros finais de semanas. Apesar da tristeza pela perda do t\u00edtulo mundial e das broncas do senhor Barbarosa. \u201cParem com o barulho\u201d, ralhava sempre.<\/p>\n<p>Entendi o epis\u00f3dio como exemplo do que meu professor havia dito em sala de aula. Estava em f\u00e9rias e ver os jogos da Copa fez parte do meu dia-a-dia. Seria, penso eu, interessante contar o que sente, vibra e torce um brasileiro que est\u00e1 longe. O susto de ver um combalido Ronaldo em campo e imaginar o que de pior poderia acontecer ao \u00eddolo de italianos e brasileiros.<\/p>\n<p>Escrevi o texto mesmo sem ter onde publicar. Era necess\u00e1rios registrar todas aquelas emo\u00e7\u00f5es e depoimentos. Guardei a reportagem no meu computador \u2013 e fiquei especialmente feliz. E melhor: com a sensa\u00e7\u00e3o do dever cumprido.<\/p>\n<p>Como naquela ensolarada tarde de domingo, a vida continua. Outras copas vieram e vir\u00e3o. Quem sabe na pr\u00f3xima, eu fa\u00e7a uma reportagem sobre o mundial e, desta vez, haver\u00e1 quem a publique. Certamente haver\u00e1 muito do que vivi em Perugia e, por que n\u00e3o?, o remoto baticum da m\u00e1quina do pai.<\/p>\n<p>Enfim escolhi ser jornalista para poder contar o dia-a-dia de uma cidade, de um pa\u00eds, do mundo \u2013 esse mesmo que a gente transforma numa grande \u2013 e desafiadora \u2013 aldeia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>por Rodolfo Stipp Martino<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Por que escolhi jornalismo?<\/p>\n<p>De novo a pergunta que me fiz ao entregar a ficha de inscri\u00e7\u00e3o do vestibular,<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-10404","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uns-e-outros"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10404"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10404\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18545,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10404\/revisions\/18545"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}