{"id":10405,"date":"2006-11-04T00:00:00","date_gmt":"2006-11-04T00:00:00","guid":{"rendered":""},"modified":"2017-09-14T04:25:29","modified_gmt":"2017-09-14T04:25:29","slug":"um-ano-sim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/um-ano-sim\/","title":{"rendered":"Um ano SIM"},"content":{"rendered":"<p>(Recuperei outro texto do meu ba\u00fa virtual de truques, manhas e traquejos. Escrevi em 24 de dezembro de 2005, uma esp\u00e9cie de mensagem de Natal e Ano Bom que remeti aos amigos e afins. Quro reparti-lo agora com voc\u00eas, quem sabe a gente n\u00e3o salva o que resta deste ano &#8212; que, para mim, continua mais ou menos. Mais menos do que mais&#8230;)<\/p>\n<p>I.<\/p>\n<p>Certa vez, ouvi do ator Luiz Gustavo como foi sua estr\u00e9ia nos palcos da extinta TV Tupi nos idos dos anos 50.<\/p>\n<p>Ele era um garoto que andava pelos bastidores da emissora do Sumar\u00e9, em S\u00e3o Paulo, onde hoje funcionam a MTV e a ESPN Brasil. Tinha livre acesso aos est\u00fadios por ser cunhado do faz-tudo Cassiano Gabus Mendes, que depois se transformou num grande autor e diretor de novela da TV Globo. <\/p>\n<p>Luiz Gustavo chegava no in\u00edcio da tarde e s\u00f3 ia embora por volta das 23 horas quando as transmiss\u00f5es se encerravam ap\u00f3s o notici\u00e1rio Di\u00e1rio de S.Paulo na TV, com os jornalistas Tico-tico, Carlos Spera e Maur\u00edcio Loureiro Gama. <\/p>\n<p>No entanto, o que mais ele gostava de fazer era acompanhar as montagens do TV de Vanguarda que ia ao ar aos domingos, e sempre ao vivo \u2013 n\u00e3o existia v\u00eddeo-tape. A coisa era na ra\u00e7a e em preto-e-branca.<\/p>\n<p>Quase sempre o teleteatro encenava cl\u00e1ssicos da dramaturgia mundial, e os atores de ent\u00e3o \u2013 Lima Duarte, M\u00e1rcia Real, Cleide Y\u00e1conis, Hamilton Fernandes, Raul Cort\u00eas, Juca de Oliveira, Araci Balabanian, entre outros \u2013 come\u00e7avam a ensaiar na sexta para na noite de domingo enfrentarem as c\u00e2meras e o desafio da representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00d3bvio que os erros eram comuns. Mas, os atores improvisavam, e sempre davam um jeito de se divertir e que tudo terminasse bem.<\/p>\n<p>Um dia, o inevit\u00e1vel aconteceu. Um figurante faltou, e precisavam de algu\u00e9m que o substitu\u00edsse. Nada de especial. Ele seria um mensageiro e teria que entrar em cena num dado momento.  E responder: \u201cSim, meu rei\u201c.<\/p>\n<p>Claro que sobrou para o menino Tata &#8211; apelido do ator. O cunhado, zeloso como s\u00f3 e acontecer, simplificou ainda mais.<\/p>\n<p>&#8212; Tat\u00e1, vc entra em cena e diz apenas: \u201cSim!\u201d, ok?<\/p>\n<p>Perfeito. Nenhum mist\u00e9rio. F\u00e1cil.<\/p>\n<p>Cassiano, por\u00e9m, n\u00e3o contava com o bom-humor dos outros atores.<br \/>\nO teleteatro era dividido em tr\u00eas atos. E o garoto nervoso esperava a vez de dar seu recado logo no in\u00edcio do terceiro e \u00faltimo ato. <\/p>\n<p>Enquanto a montagem corria solta, j\u00e1 com a TV no ar, os atores entravam e sa\u00edam de cena. Mas, antes perturbavam o pobre estreante.<\/p>\n<p>&#8212; Olha l\u00e1, j\u00e1 sabe o que vai dizer?<\/p>\n<p>&#8212; Sei. <\/p>\n<p>&#8212; Sei, n\u00e3o. \u00c9 sim. Sim, ouviu.<\/p>\n<p>Vinha outro e dizia:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 sim. \u00c9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o ou sim? Era sim, agora \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>Um terceiro refor\u00e7ava a confus\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ai, meu Deus.<\/p>\n<p>E mais um aparecia.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o p\u00f5e Cristo na Hist\u00f3ria. Estamos em Roma, lembre-se em Roma.<br \/>\nE o n\u00e3o \u00e9 sim, entendeu&#8230;<\/p>\n<p>      Sim, n\u00e3o. N\u00e3o, sim. Sim. Sim. N\u00e3o. N\u00e3o. A cabe\u00e7a do menino parecia um tamborim. Chegou a hora. O mensageiro Tat\u00e1 entrou em cena e, seguro de si, resolveu dizer a frase toda.<\/p>\n<p>&#8212; Nim, meu Sei, Nim&#8230;<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 minha gente. Lembrei dessa hist\u00f3ria quando pensei em escrever essa cr\u00f4nica de Natal. Por mais que enfileirasse argumentos, n\u00e3o cheguei a qualquer conclus\u00e3o. Ent\u00e3o, resolvi definir 2005 como um ano NIM. <\/p>\n<p>Foi um ano bom. Emba\u00e7ado, eu diria. Mas, bom. <\/p>\n<p>Melhor ainda: est\u00e1 terminando \u2013 o que nos prop\u00f5e aquela fase de revis\u00e3o b\u00e1sica da vida que se viveu, dos sonhos que se sonhou. Do que se fez ou se deixou de fazer. <\/p>\n<p>Foi um ano NIM da nossa vida \u2013 minha, sua, de todos. Dos que rezam e n\u00e3o cr\u00eaem. Dos que olham e n\u00e3o v\u00eaem. Dos que cr\u00eaem e n\u00e3o rezam. Dos que v\u00eaem e preferem n\u00e3o olhar. Dos que se entregaram \u00e0 luta. Daqueles que s\u00f3 deixaram acontecer.  <\/p>\n<p>Todos vivemos. De olho no triste notici\u00e1rio dos jornais, no saldo estourado do banco, no visor do PC para saber se tem email, na previs\u00e3o do tempo \u2013 vai chover?, no tr\u00e2nsito que n\u00e3o anda, nos recados do orkut (oh, praga!), na mentira que n\u00e3o cola, na vitrine do shopping, no out-door da Giselle Butshen, no livro da Danuza, nos amigos que n\u00e3o d\u00e3o not\u00edcia, na mo\u00e7a que n\u00e3o decide, na cidade que corre, no tempo que voa&#8230;<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem porqu\u00ea. Mas, este ano NIM me fez lembrar Crist\u00f3v\u00e3o Bastos e Chico Buarque e a can\u00e7\u00e3o que prop\u00f5e um tempo de delicadeza. Aquela que, l\u00e1 pelas tantas, os versos pretendem descobrir \u201cno \u00faltimo momento um tempo que refaz o que desfez. Que recolhe todo o sentimento e bota no corpo outra vez\u201d.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>\u00cata, s\u00f4!, como diz o mineiro. Esse poema bonito me remete a um s\u00e1bado, h\u00e1 uns cinco, seis anos. N\u00e3o era 24 de dezembro como hoje, mas estava por ali. Clima de Natal, quer dizer: clima de compras de Natal \u00e0 solta. <\/p>\n<p>Fui parar no Conjunto Nacional, ali entre a Augusta e a Paulista, depois de gastar o que tinha e o que n\u00e3o tinha em uns trapinhos para cobrir, talvez, a nudez da alma. A id\u00e9ia era torrar mais alguns trocados na &#8216;Coordinatti&#8217;, uma loja com nome italiano e caimento, idem; situada naquela galeria.<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>      Um tanto agastado com a minha delinq\u00fc\u00eancia consumista, parei no balc\u00e3o do &#8216;Viena&#8217; para um caf\u00e9. De repente, um som de saxofone revelou o inevit\u00e1vel, o que nenhuma das mais renomadas grifes seria capaz de cobrir. <\/p>\n<p>As frases da melodia soltas no ar, tal como a onda de um doce tisunami, inundou corpo e alma, aflorou sentimentos imprecisos e desaguou nos olhos, incontrol\u00e1veis e conta-gotadoramente. <\/p>\n<p>     Era s\u00f3 uma can\u00e7\u00e3o. Chama-se, me parece, \u201cTodo sentimento\u201d \u2013 e revelou a dor das coisas que perderam. O rapaz a glorificar a sua arte improvisava acordes tocantes que me trouxeram a sensa\u00e7\u00e3o de que a vida n\u00e3o vai muito al\u00e9m de um belo improviso. Em nome do que se faz, e do que se \u00e9. Ser feliz \u00e9 tudo o que se quer, diz outra can\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Quando isso n\u00e3o acontece, repetimos o que mandam as velhas partituras que, como sabemos, nem sempre manifestam o que sentimos, o que sonhamos, o que verdadeiramente somos. Mas, nos fazem pol\u00edtica \u2013 e tediosamente \u2013 corretos, e a salvo de julgamentos extempor\u00e2neos e inc\u00f4modos.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Quando acabou de tocar, o m\u00fasico de rua, que ali fazia ponto e ganhava a vida, percebeu minha emo\u00e7\u00e3o. Veio em minha dire\u00e7\u00e3o e disse: <\/p>\n<p>&#8212; Quer que eu toque de novo&#8230; <\/p>\n<p>Agradeci, sem jeito e surpreso. <\/p>\n<p>&#8212; Melhor n\u00e3o&#8230; <\/p>\n<p>E deixei um bom trocado no bon\u00e9 que estendeu a outros incautos ouvintes. <\/p>\n<p>Tive ali a certeza que ele nasceu para ser m\u00fasico. Pois, mesmo que n\u00e3o soubesse ler partituras, soube &#8211; e como! &#8211; ler a alma de um cara triste. <\/p>\n<p>Hoje, eu diria: de um cara NIM, mas que viveu um momento inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>VII.<\/p>\n<p>Tomara 2006, a gente represente legal o nosso papel. E tenha a coragem grande de dizer SIM. Tomara a gente viva com a emo\u00e7\u00e3o \u00e0 flor da pele. Tomara uma can\u00e7\u00e3o nos conduza aos sonhos \u2013 e nos emocione \u00e0s lagrimas. Tomara voc\u00ea consiga dizer para algu\u00e9m:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 tudo o que sempre quis para sempre.<\/p>\n<p>E tenha como resposta um brev\u00edssimo sorriso que \u00e9 a deixa para a fala mais do que esperada:<\/p>\n<p>&#8212; Sim, meu rei. N\u00f3s somos todas as can\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Que belo improviso. Tente. Vale o risco. Viver sem amor, acredite, \u00e9 um baita equ\u00edvoco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Recuperei outro texto do meu ba\u00fa virtual de truques, manhas e traquejos. Escrevi em 24 de dezembro de 2005, uma esp\u00e9cie de mensagem de Natal e Ano Bom que remeti aos amigos e afins.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10405","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-parangoles"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10405","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10405"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10405\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13998,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10405\/revisions\/13998"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}